COMPORTAMENTO

Arteterapia é muito mais do que fazer pinturas legais

12/10/2015 22:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Qualquer pessoa que tenha usado uma caneta para rabiscar um papel, lápis de cera para colorir um livro ou as mãos em argila molhada conhece os poderes curativos embutidos em tais esforços criativos.

Mais do que um passatempo, a arte pode ser uma fuga, um estímulo, um grito de guerra ou uma tranquila pausa.

A arteterapia, definida como “uma forma de psicoterapia que utiliza os meios artísticos como seu principal modo de comunicação”, gira em torno desse princípio do imenso poder da arte.

Aberto às crianças e adultos de qualquer formação e experiência, esse campo, ainda em desenvolvimento, explora modos de expressão, entendimento e cura que ocorrem quando a tinta toca a tela.

Embora muitas escolas hoje funcionem sob a premissa que de a arte é irrelevante, um desvio das disciplinas acadêmicas tradicionais, os arteterapeutas sabem o que estão dizendo. Eles sabem que a arte tem o potencial de mudar vidas e até mesmo de salvá-las.

Tally Tripp é diretora clínica de arteterapia da Universidade George Washington, especializada em indivíduos que passaram por traumas. Tendo começado nesse campo desde seu surgimento, nos anos 70, Tripp foi fundamental em desenvolver essas atividades da forma como conhecemos hoje.

Dando seguimento à cobertura do The Huffington Post sobre o frequentemente incompreendido campo da arteterapia e sobre os pioneiros que continuam a esculpi-lo, conversamos com Tripp sobre o momento atual e o passado de sua carreira.

arte terapia

Como você se interessou por arteterapia? Como tomou conhecimento sobre esse campo?

A primeira vez que ouvi falar de arteterapia foi definitivamente quando esse campo estava em sua infância. Pessoalmente, sempre adorei criar arte e combinar isso com um interesse em trabalhar com as pessoas.

No colégio, passava as temporadas de verão em Nova York trabalhando para a Children’s Aid Society com crianças pobres em um programa de camping.

Foi lá, como orientadora do programa de arte e artesanato, que vi uma das revistas originais sobre arteterapia: a Bulletin of Art Therapy (editada por Elinor Ulman e produzida entre 1961-1970).

Por muitos anos, aquela revista era a única publicação sobre arteterapia disponível. Na mesma época, em 1971, Elinor Ulman e seu colega, o psicólogo Bernard Levy, começaram um programa de arteterapia na Universidade George Washington.

Em pouco tempo meu objetivo era estudar arteterapia na GW [George Washington], o que consegui entre 1978 e 1981. Agora, depois de muitas voltas, sou professora titular do programa de arteterapia na GW e diretora da Clínica de Arteterapia da GW.

Como era a arteterapia quando você mergulhou pela primeira vez nesse campo?

No final dos anos 70, a arteterapia ainda era uma profissão nova.

Foi definitivamente um período emocionante para o campo, já que nós estudantes tínhamos classes com os pioneiros: Elinor Ulman, Edith Kramer e Hanna Kwiatkowska – pensadores inovadores desenvolvendo abordagens clínicas que eram baseadas principalmente em intuição, combinadas com um pensamento psicoanalítico popular na época.

Também, naquela época, havia poucos textos ou pesquisas sobre arteterapia que nos guiassem, por isso aprendemos basicamente com nossas experiências e trabalho clínico.

Como a arteterapia era uma profissão relativamente desconhecida, todos dedicamos tempo e esforços para divulgar e educar os outros sobre seu valor.

O campo está mais estabelecido agora e mais pessoas já ouviram falar sobre arteterapia e entendem um pouco como funciona.

Os arteterapeutas agora possuem licenças em alguns estados, bem como níveis de credenciamento profissional e certificação.

Além disso, temos uma ampla literatura sobre arteterapia à nossa mão, incluindo estudos sustentando a eficácia da arteterapia e descrevendo como ela é usada em muitos contextos e populações.

Os arteterapeutas agora podem ser encontrados em vários contextos — em hospitais e centros psiquiátricos, escolas, unidades de geriatria, em comunidades e estúdios de arte, e em clínicas particulares.

Quais são suas áreas de interesse nesse campo?

Tenho feito atendimento particular em arteterapia há mais de 30 anos. Minha especialização é trabalhar com indivíduos que passaram por traumas.

Acredito que esses clientes são excelentes candidatos para a arteterapia precisamente porque a arte pode fornecer meios para expressar os sentimentos inexprimíveis, que muitas vezes estão trancados ou afastados da consciência em resposta a eventos traumáticos.

Tem sido animador ver que, nos últimos 25 anos, a pesquisa neurocientífica tem validado o tipo de trabalho que fazemos.

Através das imagens do cérebro, agora sabemos que o funcionamento cognitivo e executivo está, em sua maior parte, “off-line” quando as pessoas estão se lembrando de seus traumas, tornando-os essencialmente “sem palavras”.

Isso ajuda a explicar por que a terapia verbal tradicional muitas vezes não é suficiente quando se lida com traumas, e por que a arte (imagens) e outras terapias experimentais são tão eficazes.

Decidi entrar em contato com você principalmente devido ao Mês de Conscientização sobre o Suicídio. Em seu atendimento particular, você trabalha com muitos pacientes que lutam contra pensamentos suicidas?

Quais são os métodos que você utiliza em tais circunstâncias?

Qualquer terapeuta em suas consultas particulares terão de lidar com pacientes que sofrem com pensamentos suicidas de vez em quando.

Crenças negativas e desesperança podem deixar o indivíduo impotente para combater o desejo de autoflagelação.

Para trabalhar com pensamentos suicidas, o clínico deve primeiro avaliar o quão o plano está desenvolvido e, se o paciente realmente está em perigo iminente de causar danos a si mesmo, pode ser necessária a hospitalização.

Mas a hospitalização tem limites e é apenas um passo.

Além das necessidades de segurança imediatas, trabalho no sentido de ajudar meus pacientes a desenvolver outras estratégias para enfrentar [a situação], para que assim possam lidar melhor com seus sentimentos e encontrar respostas alternativas.

Algumas intervenções podem incluir criar um plano de segurança com uma hierarquia de ações a serem tomadas, ou elaborar uma lista de recursos que podem ser acessados rapidamente quando o impulso suicida surge, ou ajudar com uma variedade de técnicas de reestruturação comportamental e cognitiva, ou talvez aumentar a frequência das sessões terapêuticas etc.

Às vezes, recomendo uma atividade artística tranquilizadora como “lição de casa”, tais como colorir um livro ou uma revista, que podem ajudar a pessoa a se sentir apoiada e segura.

A arte pode acalmar a ansiedade e ajudar a redirecionar a atenção para algo mais positivo e menos destrutivo do que um plano suicida.

A maioria dos pacientes que você encontra já estão envolvidos com a arte?

É verdade que a maioria das pessoas pensa em ir a um arteterapeuta porque gostam de arte e já estão envolvidos de certa forma. Mas não é o único tipo de pessoa que se beneficiará da arteterapia.

Por exemplo, um homem com o qual trabalhei estava também em uma terapia para casais e foi encaminhado para mim porque foi avaliado que ele precisava acessar emoções mais profundas.

Esse homem não tinha nenhum interesse aparente em arte, mas concordou em me ver como uma forma de experimento, já que a arteterapia havia sido recomendada.

Pedi que ele fizesse uma imagem com linhas e formas simples apenas para “ver o que acontecia”.

Sua primeira imagem, uma linha simples inclinada para baixo, foi criada em questão de segundos. Mas, quando ele segurou a “imagem” e a explorou à distância, ficou impressionado com o movimento para baixo e então exclamou: ‘Isso é exatamente o que venho tentando descrever.

É parecido com o colo da minha mãe. Vazio. Ela nunca foi capaz de me segurar de fato!’. A imagem e descrição de não ser segurado quando criança se tornaram um tema fundamental em nosso trabalho.

E, em questão de meses, esse paciente se matriculou em curso de pintura e deu início a uma nova apreciação da arte.

pinturas

Você poderia explicar o que espera obter com um paciente suicida por meio da arteterapia? Que mudanças pretende fazer?

Muitas vezes a obra de arte vai transmitir um sentimento suicida de desesperança ou desespero muito antes que as palavras estejam conscientemente disponíveis.

A imagem pode fornecer meios para discutir sentimentos que estão ou pouco claros ou difíceis de verbalizar. As obras de arte tendem a ser um autorreferencial, por isso trabalhamos ativamente com as imagens e temas que são produzidos.

Por exemplo, uma imagem de uma paisagem desolada pode sinalizar um sentimento vazio e um estado suicida no artista.

Embora eu não interprete a imagem, eu e o paciente trabalhamos juntos para explorar a metáfora e qualquer significado pessoal ou sentimentos que estão vinculados.

Porque a imagem é algo que podemos olhar juntos, dá a oportunidade tanto para o artista quanto para o terapeuta de “fazer” algo com ela.

A arteterapia pode empoderar o indivíduo para encontrar a solução ou criar “um final preferível” na arte. É interessante notar que criar uma obra de arte que desafie os sentimentos iniciais de desesperança irão na verdade afetar o disparo neuronal do cérebro.

Quanto mais prática uma pessoa tiver em explorar “finais preferíveis”, por exemplo, mais o cérebro encontrará alternativas ao comportamento autodestrutivo. Então, a arte pode ser uma boa prática para buscar soluções e reduzir pensamentos negativos.

Existe um certo tipo de paciente que você acredita ser mais adequado à arteterapia em oposição a outros métodos terapêuticos?

Qualquer pessoa que está disposta a explorar sentimentos através do processo da arte pode se beneficiar da arteterapia. Algumas pessoas serão naturalmente atraídas para esse tipo de terapia — as crianças, em particular, onde sua linguagem natural é através da arte e da brincadeira.

Adolescentes também são bons candidatos para a arteterapia porque podem ser resistentes às terapias de conversa tradicionais e normalmente gostam de trabalhar com materiais artísticos.

Trabalho com adultos, no entanto, digo que ainda são crianças por dentro, já que muitas vezes é um adulto carregando aquela criança que chega ao meu consultório.

A arte ajuda a driblar a defesa e a intelectualização inerentes à linguagem verbal. Quando um novo paciente (adulto) é encaminhado para mim, começo perguntando: ‘Por que você acredita que a arteterapia vai ajudar?’.

Ali, estou formando uma aliança com o paciente, sugerindo que acredito que a natureza criativa e experimental da arte, na companhia atenta de um arteterapeuta, vai fazer a diferença.

O que torna a arteterapia tão poderosa?

Arteterapia é mais do que apenas fazer pinturas legais. Na verdade, arteterapia é muitas vezes um processo de fazer pinturas feias ou bagunçadas que retratam um sentimento, não um produto final todo bonitinho e arrumadinho.

A arteterapia tem a ver com aquele processo criativo onde o cliente, em companhia de um arteterapeuta, está trabalhando e retrabalhando problemas por meio de materiais artísticos fluidos e variados.

No atendimento particular, vejo que as peças de arte criadas espontaneamente são as mais significativas e, muitas vezes, ajudam a pessoa a encontrar uma resolução para experiências traumáticas específicas.

O benefício ocorre quando a arte realizada facilita uma sensação de domínio sobre o problema.

Por exemplo, um paciente que sofreu anos de abuso ou negligência na infância pode ser capaz de finalmente expressar sentimentos que haviam sido evitados ou empurrados para fora da percepção consciente, porque eram muito fortes na época.

As imagens frequentemente falam mais alto do que as palavras.

Com o incentivo do arteterapeuta, os difíceis sentimentos podem ser expressados através da arte.

O processo varia muito, por isso não há uma maneira de descrever o que acontece em uma sessão.

Quando uma pessoa olha pela primeira vez para um papel em branco, pode haver alguma resistência ou hesitação em explorar sentimentos, por isso as imagens resultantes podem aparecer apertadas e controladas como em um desenho ou esboço a lápis.

Mas, depois que certa confiança é estabelecida no relacionamento terapêutico, o processo artístico pode se mover em direção a uma atividade mais expressiva, que sugeriria que o paciente está acessando uma emoção mais forte.

Muitas vezes o paciente começará a usar materiais mais evocativos nesse ponto, por exemplo, usando tinta ou argila para expressar raiva, vergonha ou medo.

O arteterapeuta conhece os problemas psicológicos e o uso de vários meios de arte; o processo é flexível e individualmente focado em apoiar o paciente a encontrar materiais e técnicas que se conectem com os problemas em questão.

E à medida que um paciente se torna mais aberto ao processo e descobre mais recursos criativos dentro de si próprio, o produto artístico também mudará.

Em arteterapia, sempre existe aquele limite criativo que mantém o processo dinâmico e contribui para o processo de cura.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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