MULHERES

'Como é ter câncer e ser mãe de uma criança pequena'

08/10/2015 16:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

câncer mãe filha

Luciana Bernal, 42 anos, é mãe da Sofia, de 5 anos, fotógrafa e idealizadora da página Mães Com Câncer no Facebook. Aqui, ela conta os desafios que enfrenta.

"Foi em uma tarde despretensiosa que a minha vida mudou e deu o famoso giro de 180º graus. Tudo ia bem comigo, mas eu estava sentido um pequeno enjoo há um tempo. Esse desconforto me levou ao Pronto Socorro algumas vezes e foi resolvido com medicações. O problema é os enjoos não passaram e uma médica ortomolecular, que me acompanhava na época, pediu um ultrassom de abdômen, suspeitando que pudesse ser algo na vesícula.

No dia 17 de maio de 2012, recebi a pior notícia que alguém pode receber. "Você tem uma massa de aproximadamente 11 cm no abdômen", disse o médico radiologista, um amigo querido.

A primeira coisa que passou na minha cabeça foi: "Eu vou morrer! E a Sofia?". Eu e meu marido decidimos que a nossa filha deveria saber do problema, mesmo tendo apenas dois anos de idade. Então, resolvi contar de uma maneira leve e em uma linguagem que ela pudesse entender. Eu disse que a mamãe estava dodói e, por isso, precisava ir ao médico e também dormir no hospital por alguns dias. Minha pequena ouvia e na sua inocência parecia compreender.

Logo após a confirmação de que eu tinha câncer, me submeti a uma cirurgia. Quando precisei me internar no hospital, a Sofia ainda estava dormindo. A gente se despediu na noite anterior, mas antes de sair de casa, já com a mala de roupas na mão, fui ao quarto dela, a abracei, beijei e falei baixinho em seu ouvido: "a mamãe volta logo. Te amo mais do que tudo nesse mundo!". Nessa hora, eu já chorava copiosamente.

Depois dessa cirurgia, que foi bastante longa e delicada pois o tumor era raro e estava na suprarrenal, começou de fato a guerra! Alguns meses depois, após 30 sessões de radioterapia, descobri metástases ósseas, sendo uma delas no fêmur - o que me obrigou a passar por mais duas cirurgias com apenas 48 horas de diferença entre uma e a outra, totalizando 10 dias de internação. Eu sentia muita dor, desespero e medo. Principalmente medo de ficar sem a minha filha.

Nesse período, a Sofia teve a sua primeira apresentação de ballet e eu não pude ir. Essa foi uma dor insuportável, até mesmo maior do que aquela que eu senti no processo de congelamento do tumor do fêmur. Apesar de não poder estar presente, eu também fiquei feliz, pois depois do evento a minha filha foi vestida de bailaria me visitar no hospital. Foi muito emocionante!

Após alguns meses, descobri uma nova metástase, agora no fígado. Desta vez me disseram que eu começaria a me tratar com quimioterapia endovenosa e que os meus cabelos iriam cair. Nesse dia senti o chão se abrir ainda mais e fiquei pensando: "como vou contar isso para a minha filha?". Como sempre, procurei ser cuidadosa e carinhosa e disse que iria tomar um remedinho que faria todo o cabelo cair. Ela me abraçou e disse "você é linda, mamãe!". Eu me tranquei no banheiro e chorei por horas.

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Durante todo esse tempo de luta, já passei por 11 procedimentos cirúrgicos, duas etapas de radioterapia e duas de quimioterapia endovenosa, remédios para os ossos, quimioterapia oral e outras medicações que ainda tomo diariamente. No meio de toda essa confusão, a Sofia foi crescendo e foi desse pedacinho de gente que eu tirei força, garra e vontade de viver. Eu nunca aceitei a possibilidade de deixá-la aqui sem mim - não sem antes passar para a minha filha todos os meus valores de vida, sem dar todo o amor e carinho que eu sinto por ela!

Hoje, Sofia entende praticamente tudo, me acha bonita careca (para ela, o diferente é normal). O problema é que ela tem muito medo de me perder a ponto de perguntar se eu vou voltar do dentista, se estarei à sua espera na escola, de ficar grudada em mim em uma festinha infantil ao invés de brincar.

Eu não me frustro, pois sei que o que ela enfrenta é consequência de uma vida cheia de vazios, inseguranças e dor que ela carrega há três anos e meio. Acredito também que um dia vou "arrumar" tudo isso. Eu tenho uma rotina médica pesada e ininterrupta, mas todo tempo que tenho livre dedico à minha filha.

O câncer me mostrou que não tem preferência de idade, cor ou sexo. A doença chega atropelando tudo e deixa sua vida de cabeça para baixo. Com tudo o que vivi, aprendi que o meu tempo é precioso, que fazer uma surpresa e aparecer na aula de natação da Sofia é muito mais importante do que dar a ela a boneca da moda. Aprendi também que ensinar e educar com amor é sempre o melhor caminho. Ensinei para a minha pequena que o respeito é a base de tudo e que não existem diferenças entre as pessoas.

Ela vive constantemente o lema de ter a "mãe com o lenço na cabeça" e enfrenta o questionamento dos amiguinhos, mas Sofia já sabe explicar para eles com naturalidade que a mamãe está dodói e toma um remédio que faz o cabelo cair.

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Minha mensagem a você, mãe que passa por dificuldades como as minhas, é: acredite! O amor nos move, nos impulsiona e a vontade de ver um filho crescer é muito, mas muito maior do que qualquer outro sentimento!

Não perca tempo se questionando com frases como "por que isso foi acontecer comigo?". Nesse momento, você poderia gastar essa energia para estar próxima do seu filho, ajudando-o no dever de casa, assistindo ao seu desenho preferido, vivendo bons momentos. Eu sei que é fácil falar, pois eu também tenho os meus momentos de fraqueza. Faz parte! Mas imponha um prazo para o término desses sofrimentos, pois a vida não espera.

Apesar de tudo o que viveu, eu tenho certeza de que a Sofia está bem mais madura e enxerga a vida com outros olhos: com esperança, fé e amor. Confiem porque enquanto existir 1% de chance, devemos ter 99% de fé. Força, foco e coragem para seguir sempre em frente!"

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