COMPORTAMENTO

Por que todos precisam prestar atenção no desaparecimento das tribos da Amazônia

06/10/2015 17:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
arquivo pessoal

“A medicina ocidental é o sistema de cura mais sofisticado já inventado, mas ainda tem muitas falhas.”

Mark Plotkin, hoje um bem-sucedido etnobotânico e conservacionista especializado em florestas tropicais da Amazônia, aos 19 anos era um jovem que tinha abandonado a faculdade e trabalhava à noite no Museu de Zoologia de Harvard.

Tendo desenvolvido uma curiosidade insaciável sobre a flora e a fauna quando criança, decidiu fazer um curso à noite na universidade coordenado por um famoso etnobotânico. Depois de participar daquela primeira palestra em 1974, Plotkin sabia que queria passar o resto da vida explorando florestas tropicais. Em questão de meses, foi convidado a participar de uma expedição à região amazônica da Guiana Francesa como pesquisador-assistente.

Desde aquela viagem, Plotkin tem passado décadas na América do Sul — principalmente no Suriname, um pequeno país localizado no nordeste da região e coberto em 90% por florestas tropicais — estudando as plantas e nativos de florestas tropicais. A maior parte desse tempo tem sido focada em acompanhar e aprender com os curandeiros indígenas, conhecidos como pajés ou xamãs, cujas práticas únicas e conhecimento das plantas nativas podem revelar a cura de muitas doenças crônicas que a medicina ocidental tem encontrado dificuldade em tratar. Apesar do fato de 25% dos medicamentos modernos serem derivados de plantas de florestas tropicais, menos de 1% das plantas tropicais foram analisadas para fins médicos.

Em seu livro de memórias Tales of a Shaman's Apprentice (Contos de um Aprendiz de Xamã), publicado em 1994, Plotkin diz que toda vez que um pajé morre, é “como se uma biblioteca tivesse sido queimada”. Para proteger essas tribos e seu vasto conhecimento inexplorado, Plotkin fundou a Amazon Conservation Team, uma organização não governamental dedicada a proteger as florestas e seus habitantes.

O HuffPost Science conversou com Plotkin para saber um pouco mais sobre etnobotânica, medicina xamanística e a urgente necessidade de proteger a maior floresta tropical do mundo antes que seja muito tarde. Confira o que aprendemos.

Você acredita que a Amazônia tem as chaves para a cura de doenças que a medicina ocidental tem enfrentado dificuldade de tratar?

A medicina ocidental é o sistema de cura mais sofisticado já inventado, mas ainda tem muitas falhas. Basta observarmos o câncer de pâncreas, insônia, refluxo ácido, estresse — todas essas coisas que a medicina ocidental não pode curar — para nos darmos conta de que precisamos de alternativas ou complementos. Como ocidentais, fomos de certa forma ensinados que qualquer coisa que não tenha sido feita por um cara branco de jaleco não é ciência, mas isso obviamente não é verdade.

Claramente, sistemas como a medicina chinesa e ayurvédica fizeram algo. Eu foquei na medicina xamanística por várias razões, uma delas é que não está escrita. Então, de certa forma, é uma das que mais corre perigo. Existe potencial para tratar coisas que não podemos curar? Absolutamente. Existe potencial para tratar coisas que podemos curar, mas com menos efeitos colaterais e sendo mais eficiente na relação custo-benefício? Acredito que certamente sim.

O que é tão especial sobre a visão de mundo do xamanismo e sua abordagem para a cura?

A medicina xamanística é construída sobre dois pilares: a química, que é o que está nas plantas, e o xamanismo, que é mais difícil de definir. Algumas pessoas dizem que é o poder da prece, outros dizem que é o efeito placebo, e outros dizem que é uma forma de espiritualidade. Acredito que seja todas essas coisas. A prova do pudim é que às vezes eles podem curar coisas que não podemos.

Existem 80 mil espécies de plantas na Amazônia — não testamos todas elas. E, mesmo se houvéssemos testado, você testou as folhas? Você testou a casca? Você testou as raízes? Você o fez na fase correta da lua? Existem também diferentes partes da mesma planta com uma química diferente, e a química da planta pode mudar ao longo do tempo. Pense em todas as permutações possíveis.

O artigo continua abaixo da foto.

amazônia

AMAZON CONSERVATION TEAM

Essas tribos e seu conhecimento têm sido objeto de exploração há anos pelos ocidentais. Você pode falar um pouco sobre os atuais desafios que esses povos enfrentam?

Bem, em minha palestra TED destaco o caso particularmente notório de um inibidor ECA [Enzima de Conversão da Angiotensina] para pressão alta [desenvolvido a partir do veneno de uma cobra encontrada na floresta tropical brasileira], que é uma droga que vale bilhões de dólares e os brasileiros nunca receberam um pedaço do projeto. Não é certo.

A ideia de que as selvas estão cheias de farmacêuticas procurando e desenvolvendo coisas também não é correta. A indústria farmacêutica, em geral, não está olhando esse tipo de coisa, o que acredito ser um erro terrível.

Portanto, há uma maneira errada de fazer isso, que é o que tem sido feito antes, e uma maneira correta de fazer isso, para a qual temos um plano, mas que não está sendo usado.

Com que rapidez essas tribos estão desaparecendo e o que podemos fazer para proteger aqueles que ainda estão nelas?

É difícil dar um número porque isso acontece nas sombras. As estatísticas que são distribuídas apontam que 90 tribos foram extintas no Brasil no século 20 — e nenhuma dessas tribos tiveram sua sabedoria botânica documentada. E aquelas são apenas as quais temos conhecimento. E as que não sabemos nada? Minha maior prioridades ultimamente são as tribos isoladas e que ainda não fizeram contato. Acreditamos que existam 14 na Colômbia.

Elas vivem nos maiores e mais remotos trechos da floresta, e mesmo essas pessoas estão sendo impactadas pelo comércio de drogas e garimpeiros. Dessa forma, protegemos as tribos isoladas, protegemos a floresta, lutamos contra o aquecimento global, mantemos os rios limpos. É tudo a mesma coisa.

Na Amazon Conservation Team, trabalhamos com mais de 30 tribos. Mapeamos, gerenciamos e melhoramos a proteção para mais de 28 milhões de hectares de floresta tropical. Não é nada mal para uma organização pequena. Somos pequenos, mas poderosos.

Além disso, vemos os xamãs como a cola que mantém as tribos unidas. Se você observar o que as pessoas fazem quando interferem numa tribo — particularmente os missionários —, têm como alvo os xamãs. Por quê? Porque o xamã é a cola cultural. Ele ou ela é quem mantém a cultura unida.

Estima-se que 0,6 hectare de floresta tropical seja destruído a cada segundo. Por que é tão importante protegermos a Amazônia?

Bem, não é somente questão de proteger a Amazônia. Acho que é um erro dizer que devemos apenas focar na floresta tropical quando o resto do mundo está pegando fogo. Quando você trabalha com os xamãs, uma das maiores lições que aprende é que tudo está conectado — é tudo a mesma coisa. De uma perspectiva etnobotânica, a floresta tropical é a maior fonte de diversidade botânica no planeta.

Sou um etnobotânico, portanto estou interessado em novos medicamentos. Mas acredito que a conservação é antes de tudo um exercício ético. Devemos proteger essas espécies simplesmente porque elas existem, não porque elas têm a cura para a AIDS — o que podem ter.

Os xamãs têm usado alucinógenos como ferramentas de cura por gerações, e agora vemos um enorme ressurgimento do interesse popular e médico em psicodélicos como ferramentas terapêuticas. Que potencial você vê aqui?

Antes de tudo, não parecem ser muito bem-sucedidas para curar doenças mentais. Os psicodélicos podem nos ajudar a entrar na mente e tratá-la de uma maneira que não poderíamos com o lítio ou hipnose. Se isso parece funcionar e nas mãos de profissionais experientes — que são xamãs de verdade, não os xamãs de aluguel espalhados pela Internet —, então por que não honrar isso, fortalecê-lo e colocá-lo adiante? Vi essa coisa funcionar. Não funciona sempre, mas existe um enorme potencial.

Essa entrevista foi editada para concisão e clareza.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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