MULHERES
30/09/2015 18:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Sim, é perfeitamente possível que uma mulher esteja grávida sem saber

SIMPLYMUI VIA GETTY IMAGES

E não, essas mulheres não são "loucas".

Em uma terça-feira do mês de julho, há dois anos, Michelle Mulvehill visitava uma amiga, que mencionou que ela parecia cansada. Mulvehill concordou que ultimamente não estava se sentindo bem, mas achou que fosse por causa da recente mudança no tempo e riu quando sua amiga pensou que ela pudesse estar grávida. Mulvehill, então com 35 anos, tinha a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) e não menstruava havia dois anos. Ela também tinha recebido o diagnóstico de que era estéril.

Quando era mais nova, Mulvehill passou seis anos tentando engravidar do seu agora ex-marido, indo a especialistas e tomando o remédio Clomid — que estimula a ovulação — sem sucesso.

Mas Mulvehill não conseguiu esquecer o comentário da amiga e no dia seguinte fez um teste de gravidez. Ela ficou chocada quando viu o resultado positivo. Ela então fez o teste novamente. Outra vez deu positivo. Mulvehill foi ao médico e ele confirmou que — contra todas as expectativas — ela realmente teria um bebê, embora não pudesse dizer com quantas semanas ela estava.

Então, na segunda-feira seguinte, tarde da noite, ela começou a ter dores no estômago. A princípio ela achou que fossem apenas gases, mas como as dores continuaram durante a noite, pensou que fosse um aborto. Na manhã seguinte ela foi dirigindo até o hospital, onde a equipe médica chegou a um diagnóstico totalmente diferente: eram contrações. Mulvehill estava em trabalho de parto e já estava com dois centímetros de dilatação.

Às 20h45 da terça-feira, 16 de julho de 2013, Mulvehill deu à luz, por cesariana, uma menina, apenas seis dias depois de descobrir que estava grávida. Sua filha Lily pesava 1,760 kg. Seus médicos concluíram que Mulvehill esteve grávida por 32 semanas sem saber.

michelle mulvehill

MICHELLE MULVEHILL

Histórias como a de Mulvehill causam fascínio quando saem na mídia e isso acontece com uma frequência impressionante. Somente no ano passado, houve a mulher que não sabia que estava com 37 semanas de gravidez, até dar à luz no avião ("Alguma coisa caiu de dentro de mim!" ela gritou para o namorado).

A mulher anônima que falou com a Cosmopolitan sobre não saber que estava grávida até dois meses antes de dar à luz ("Quando me disseram que estava grávida, me inclinei em uma pia e vomitei por 30 minutos seguidos"); e a mulher que foi ao médico para tratar uma dor nas costas, mas em vez disso acabou tendo uma menina de 4,590 kg.

Enquanto esses casos circulam por aí, fica aquela pergunta inevitável, feita por leitores incrédulos na seção de comentários e proclamada em voz alta: como alguém pode estar grávida — e em alguns casos, bastante grávida — e não saber?

"Gravidez silenciosa" é o termo usado algumas vezes para casos em que uma mulher não descobre que está grávida até estar com pelo menos 20 semanas de gravidez, ou aproximadamente cinco meses.

"O que vi na literatura é que [acontece em] aproximadamente 1 gravidez de cada 500", disse a Dra. Kristin Sharp, uma ginecologista e obstetra da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin (University of Wisconsin School of Medicine and Public Health).

"Eu pessoalmente acompanhei mais de 500 grávidas, e presenciei um ou dois desses casos de [gravidez] inesperada."

Há muitas explicações, aparentemente bem racionais, para o fenômeno.

As mulheres podem ter falsos negativos em testes de gravidez por uma série de razões: fazem o teste muito cedo, não seguem as instruções direito ou usam urina diluída. É possível que elas tenham corrimentos, que podem ocorrer durante a gravidez, e que elas os confundam como sendo a menstruação. Muitas mulheres têm um ciclo menstrual irregular ou simplesmente não menstruam.

"Há muitas condições clínicas ou medicamentos que podem impedir as mulheres de menstruarem", afirmou Sharp. Quando essas mulheres não menstruam durante meses, elas não assumem necessariamente que exista algo errado.

Fisicamente, algumas mulheres simplesmente não mudam muito na gravidez e, embora mulheres com mais peso talvez tenham mais predisposição a isso, Sharp acrescentou que ela mesma ficou surpresa com pacientes magras que mal pareciam estar grávidas, mesmo estando em um estágio mais avançado de gravidez.

Mulvehill, por sua vez, estava acostumada a não ficar menstruada todo mês, devido à sua SOP. Ela também estava acima do peso na época da gravidez e sua bebê estava posicionada mais para baixo. Dessa forma, sua barriga não era mais "saliente" do que o normal, ela disse.

Na verdade, Mulvehill estava seguindo uma dieta baixa em carboidratos e na época perdeu alguns quilos. Até mesmo o médico que confirmou sua gravidez disse que não sentia a típica "barriga de grávida", dura. Ela sentiu palpitações internas e cócegas, que inicialmente interpretou como sendo gases. Mas agora se dá conta de que eram os primeiros movimentos de sua filha — uma confusão que não é totalmente incomum.

"Quando minha história surgiu, me deparei com muita incredulidade", disse Mulvehill, cuja experiência durante o parto foi exibida em um programa da Discovery chamado "Outrageous Births: Tales From The Crib" ("Nascimentos Chocantes: Histórias do Berço", em tradução livre).

"As pessoas diziam: 'você não deve cuidar bem de si mesma, se não sabia que estava grávida'. Mas não é verdade. Tinha sido diagnosticada como sendo estéril. Não tive enjoos, ganho de peso, meus pés não incharam", ela continuou. "Não havia razão para eu pensar que fosse verdade."

michelle mulvehill

MICHELLE MULVEHILL

A Dra. Ruta Nonacs, psiquiatra do programa de pesquisa clínica psiquiátrica perinatal e reprodutiva no Massachusetts General Hospital, contou que algumas mulheres podem não perceber a gravidez devido a outras questões mais sérias de saúde mental. Por exemplo, uma mulher pode ter uma desordem psicótica que impede que ela interprete corretamente os sintomas, ou pode ter uma dissociação extrema do seu corpo decorrente de algum tipo de trauma sexual.

Mas há também muitas mulheres que são absolutamente "normais" psicologicamente, afirmou Nonacs. "Elas são provavelmente apenas pessoas que tiveram ciclos irregulares, então não tinham consciência de seus sinais e sintomas, ou [mulheres] que não pensavam que poderiam engravidar", ela disse.

"A [gravidez] é algo com forte carga emocional, e questões desse tipo são mais propensas a serem minimizadas ou acentuadas", ela acrescentou. "Definitivamente vemos pacientes que chegam com um tumor enorme, canceroso, que de tão avançado nos faz pensar: 'por que você não veio dois anos antes?!'" Mas algumas vezes as pessoas simplesmente "não conseguem ver claramente" quando se trata de assuntos complicados como a morte e a gravidez, ela disse.

Caitlin Coakley Beckner, 28 anos, pode listar uma série de razões sobre o porquê de ela ter levado seis meses para perceber que estava esperando uma criança. Ela usava um dispositivo intrauterino (DIU), que tem uma das maiores taxas de eficácia entre os métodos de controle de natalidade, e que normalmente fazia com que não menstruasse. Ela estava cansada, mas havia acabado de começar um novo trabalho, que exigia muito, e estava planejando seu casamento. Além disso, ela estava magra, e chegou a perder peso durante seu primeiro trimestre, quando se preparava para subir no altar. E depois, quando ela começou a ganhar peso, achou que fosse simplesmente porque a cerimônia de casamento já havia passado e ela tinha se descuidado da dieta e da academia.

"Vendo as fotos agora, sim, parece uma barriga de grávida, mas naquela época eu pensei: 'tenho que voltar para a dieta'", riu Coakley Beckner. "Lembro de ter dito: 'é estranho, porque quando aperto minha barriga parece duro por dentro'... mas ainda não parecia ser uma gravidez. Não havia nada do que eu estava sentindo que não tivesse uma outra explicação plausível."

"É o que as pessoas sempre querem saber: 'como é possível não saber?'" continuou Coakley Beckner, que escreveu sobre sua experiência no XOJane. "Não sei se era negação. Simplesmente nunca passou pela minha cabeça essa possibilidade, para dizer a verdade. Eu havia excluído mentalmente a gravidez da minha lista quando coloquei o DIU."

Quando percebeu que estava grávida, Coakley Beckner se encheu de preocupação com a saúde do bebê. Ela estava tomando bebidas alcóolicas e comendo alimentos normalmente proibidos para grávidas, mas sua ginecologista e obstetra garantiu que tudo provavelmente ficaria bem e seu filho, agora com 3 anos, é extremamente saudável e inteligente.

Sendo uma autodenominada planejadora de personalidade tipo A, a mudança chocante de planos lhe gerou um stress enorme. Ela e seu marido tinham uma rotina de trabalho intensa e tiveram que encontrar rapidamente uma forma de balancear suas carreiras com a paternidade inesperada. Eles viviam em um apartamento pequeno de um quarto e tiveram relativamente pouco tempo para se prepararem.

caitlin coakley beckner

CAITLIN COAKLEY BECKNER

"Tive uma depressão pós-parto terrível", disse Coakley Beckner. "Todo pai e mãe passam por aquele momento em que o bebê está chorando e eles não conseguem descobrir o porquê. Mas para mim, o fato de eu ter demorado tanto tempo para descobrir que estava grávida me fez pensar que talvez eu não tivesse instinto materno", ela contou. "Isso alimentou minha insegurança."

Não há estudos sobre as consequências emocionais associadas à gravidez silenciosa, mas Nonacs disse que é razoável deduzir hipóteses a partir de pesquisas que exploram consequências para a saúde mental associadas a casos de gravidez não planejada em geral. Muitos desses estudos constataram que a gravidez não planejada pode definitivamente ser um fator de risco para ansiedade e depressão futuras, ela disse.

"É uma transição significativa na vida de uma pessoa, que pode ser encarada positivamente ou pode gerar muito stress. A forma como as mulheres veem a situação e quanto de apoio elas recebem podem ter uma forte relação com quão bem elas estarão durante a gravidez e no pós-parto", explicou Nonacs. "Com base apenas nas minhas observações, diria que [mulheres que são pegas de surpresa por uma gravidez] têm provavelmente um risco maior de apresentarem distúrbios psicológicos."

Três anos e meio depois do nascimento do seu primeiro filho, Coakley Beckner teve outro menino, que tinha apenas uma semana quando ela falou com o The Huffington Post. Ela afirmou que, emocionalmente, sua segunda gravidez foi totalmente diferente. Planejar a gravidez e ter tempo de se preparar depois que ficou grávida fez com que ela ficasse mais calma em relação a toda a experiência e mais sintonizada com as mudanças que estavam acontecendo no seu corpo.

Mas ela disse que isso não significa que sua segunda gravidez tenha sido necessariamente melhor ou que ela tenha vergonha da história de como seu primeiro filho chegou ao mundo.

"Quando escuto histórias sobre mulheres que não sabiam e leio comentários de pessoas que parecem tão horrorizadas, eu apenas quero entrar na discussão e dizer: 'isso pode acontecer!'", ela disse. "E eu não sou louca".

(Tradução: Simone Palma)

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.