MULHERES

'Só podia ser mulher': A diversidade nas empresas de tecnologia

17/09/2015 12:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02
Keystone/Getty Images

O dia 8 de março de 2010 foi um dos momentos mais decisivos na vida de Camila Achutti. Poderia ser mais um Dia Internacional da Mulher para qualquer menina. Aquele foi, no entanto, seu primeiro dia de aula de ciência da computação na Universidade de São Paulo (USP).

A sua primeira recordação é o susto que levou ao ver a lousa coberta de números. Completamente perdida, Achutti olhou ao redor para pedir ajuda a um colega. Foi nesse momento que percebeu que era a única garota da sala.

“Eu chorei o caminho de volta inteiro”, disse a EXAME.com. Hoje, Achutti é cientista da computação e embaixadora do Technovation Challenge Brasil, a maior competição do mundo para meninas em tecnologia.

Depois do choque inicial, ela se esforçou para responder uma questão: por que poucas mulheres fazem faculdades em tecnologia?

Ela não é a única a pensar sobre isso. Gina Gotthilf é vice-presidente global do Duolingo, um dos principais apps para aprendizado de línguas. Em sua análise, faltam ícones femininos nesse meio. “Eu posso enumerar muitos homens famosos no mundo da tecnologia e só duas ou três mulheres”, disse a EXAME.com.

Marília Rocca, vice-presidente da Totvs, tem uma leitura parecida. “As jovens se sentem desconfortáveis e não têm em quem se inspirar”, disse em entrevista.

De maneira prática, Gotthilf é um exemplo de como a falta de incentivo faz com que meninas fujam da tecnologia. Formada em filosofia, ela nunca havia pensado em fazer ciência da computação. “Hoje em dia eu vejo que eu deveria ter feito um curso relacionado a TI.”

ciência da computação

Tudo muda

Em suas pesquisas, Achutti descobriu uma foto instigante: a primeira turma de ciência da computação da USP, de 1971. Alinhados em uma escada, estão diversas mulheres sorridentes e poucos homens. “Mais de 70% da turma era de meninas”, diz Achutti.

A turma (1971-1974) tinha 15 alunas e seis alunos. No último vestibular, por outro lado, ingressaram três mulheres e 47 homens. Entre todos os alunos do curso, são 30 mulheres e 239 homens, segundo dados da USP.

Esse cenário não era restrito ao Brasil. Cerca de 35% dos alunos de tecnologia eram mulheres no início dos anos 80, segundo um gráfico da NPR. Mas algo estranho aconteceu a partir de 1984. O número de mulheres nas escolas de tecnologia caiu drasticamente, tendência que segue até hoje.

Uma das hipóteses culpa a publicidade dos anos 80. “A propaganda do Commodore 64 é extremamente machista. Só tem uma mulher em todo o comercial e ela está de biquíni”, conta Achutti. “A imagem que se construiu é que computador é brinquedo de menino.”

Poucas na faculdade, menos ainda nas empresas

A matemática desta conta é clara: quanto menos mulheres entram em cursos de tecnologia, menos são contratadas em empresas de TI.

Um estudo da Harvard Business Review de 2008 mostrou que 45% das mulheres que trabalham com ciência, engenharia e tecnologia, não irão mais trabalhar na área devido ao ambiente hostil das empresas. Entre as razões estão a cultura “agressiva” masculina, a sensação de isolamento e a falta de um plano de carreira transparente.

Camila Achutti diz que muitas meninas contaram para ela que desistiram do curso devido à pressão. “Quando cometem um erro ouvem que ‘só podia ser mulher’”, diz.

Para Rocca, é preciso ter um trabalho de conscientização para as mulheres estudarem em cursos de tecnologia. “Temos que quebrar este paradigma de que trabalhar em empresas de tecnologia não é coisa para menina”, diz.

Existe outro ponto que deve ser discutido nesta questão, para ela. “O campo de TI já tem e vai ter um papel ainda mais central na competitividade das empresas”, afirma.

No topo

A diversidade de gênero no mundo dos negócios e da tecnologia não é só uma questão de justiça. A inserção das mulheres torna as empresas mais rentáveis. Segundo uma pesquisa da Dow Jones VentureSource, startups com executivas são mais bem-sucedidas do que aquelas sem mulheres em cargos de alto escalão.

A mesma situação pode ser observada nas grandes empresas. Um estudo da McKinsey&Company mostrou que companhias com mulheres nas comissões executivas têm desempenho melhor do que empresas sem mulheres em altos cargos de representatividades.

Rocca e Gotthilf são exemplos de mulheres que chegaram a altos cargos de grandes empresas de tecnologia. A vice-presidente da Totvs conta que nunca sofreu preconceito por ser mulher dentro das companhias.

Ela admite que enfrentou desafios para conciliar três trabalhos: ser mãe, esposa e funcionária. “Acho que as pessoas duvidam um pouco do seu grau de compromisso quando você tem um filho”, diz Rocca.

Para Gotthilf, o maior problema de ser uma mulher com um alto cargo em uma empresa de tecnologia é não ser tratada como uma executiva importante. “Já aconteceu de eu fazer reuniões com homens que nem olhavam para mim.”

gina gotthil

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Os números não mentem

Anualmente, empresas de tecnologia publicam relatórios de diversidade. A verdade é que a quantidade de mulheres nas áreas de tecnologia dessas companhias ainda é muito baixa.

Em média, 30% dos funcionários das maiores empresas de tecnologia do mundo (Google, Facebook, Microsoft e Apple) são mulheres. Por outro lado, apenas 16% dos empregados da área de TI do Facebook, por exemplo, são mulheres. Veja os dados das quatro empresas neste infográfico.

O cenário é ainda pior em startups. Dados da Dow Jones VentureSource mostram que apenas 1,3% das startups analisadas tinham mulheres como fundadoras e 6,5% mantinham uma mulher como CEO. O estudo analisou mais de 20 mil startups americanas.

Além da quantidade baixa de mulheres em startups e empresas, para Gina Gotthilf, as mulheres não conseguem tanto investimento quanto os homens para abrir companhias. “Uma das empresas que investiu no Duolingo investe em outras 50 companhias, sendo que nenhuma delas tem uma mulher como editora executiva, fundadora ou co-fundadora. É nítido que há um problema", diz.

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