MULHERES

NACER: Casal amazonense realiza sonho e cria instituição de apoio a adolescentes grávidas

13/09/2015 09:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Se planejar a chegada de um filho na vida adulta pode ser difícil, a gravidez precoce envolve complicações muito maiores e mais impactantes na vida da adolescente.

Para evitar que jovens grávidas sejam abandonadas e sofram maus-tratos, Cleslley Rodrigues, de 29 anos, investiu, junto com a sua esposa, Caroline Arruda, no Nacer (Núcleo de Assistência a Criança e Família em Situação de Risco). O local funciona como um abrigo, e é descrito por Rodrigues como "um sonho que se tornou realidade".

"Minha esposa é enfermeira obstetra. Durante dois anos ela conheceu muitas adolescentes que chegavam ao centro cirúrgico para dar à luz e os bebês estavam abaixo do peso em sua maioria, porque a mãe não realizou um pré-natal e não cuidou da gestação".

"Sonhamos por anos, sempre nos perguntávamos quando era a hora certa. Quando surgiu a oportunidade [de abrir o abrigo], a gente agarrou e não soltou mais"

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Cleslley e Caroline, responsáveis pelo Nacer


Fundado em abril deste ano, o Nacer conta com três programas: Apoio às Mães Adolescentes (Ama), Aconchego e Pão da Vida.

O primeiro acolhe adolescentes grávidas. A ideia é fazer todo o acompanhamento médico e psicológico da jovem durante o pré-natal, além de prepará-la para cuidar da criança e ainda incentivá-la a investir na própria vida escolar.

O Aconchego abriga bebês que precisam de cuidados, que sofrem principalmente de desnutrição. Por enquanto, a instituição abriga um recém-nascido de um mês e outro bebê de quatro meses.

O terceiro programa, o Pão Da Vida, abriga as demais crianças mais velhas, que por enquanto são dez -- a mais velha com dez anos.

O Núcleo recebe apenas crianças e adolescentes encaminhados pelo Juizado da Infância e da Juventude de Manaus, que recebe denúncias de negligências familiares através do Conselho Tutelar, e, em seguida, procura abrigos com vagas-- que é onde o Nacer entra.

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As crianças ouvem histórias e participam de atividades recreativas


Levando em consideração que existem mais de 9.600 mães adolescentes em idade escolar na capital amazonense, segundo dados de 2014 da Secretaria de Estado de Saúde, esse tipo de iniciativa é mais do que necessária. Além do Nacer, Manaus possui apenas uma outra instituição que cuida de adolescentes. "O outro instituto existe há quase trinta anos, a demanda é bem maior do que a quantidade de vagas, por isso resolvemos focar nisso", conta Rodrigues.

Além de Cleslley Rodrigues e a esposa, existem outros nove funcionários na casa divididos entre cuidadoras, cozinheira, assistente social e psicóloga. O instituto também recebe visita regulares de um pediatra, um dentista, um fisioterapeuta e uma pedagoga.

A assistente social Roseane Menezes conta que cuida do caso de um grupo de cinco irmãs – a mais velha de dez anos, uma delas deficiente física. Filhas de pais alcólatras, elas estavam em situação de miséria e maus-tratos quando chegaram ao Nacer.

Em três meses no abrigo, a realidade dessa família muda aos poucos. Graças à assistência, hoje os pais frequentam o AA e buscam uma vida melhor para as filhas, que recebem a visita deles diariamente.

“É um publico que mais te ensina do que você a eles. Ensina o respeito, o cuidado e a valorizar a família porque, apesar de todas as histórias difíceis, elas amam os pais. Uma delas me pede ‘tia, você cuida do meu pai?’.”

Para Menezes o impacto mais importante do abrigo na vida das crianças é elas começarem a entender o que é ter uma vida com qualidade.

“Elas criam consciência do que podem ter, de que precisam ser respeitadas e que podem ter um quarto só para elas. Criam a consciência de que a mudança existe e que ela é possível.”

O trabalho de todos os funcionários é voluntário. A instituição funciona e ganha continuidade através dos chamados "padrinhos", que fazem doações regulares. "Nossos padrinhos têm liberdade de auditar as nossas contas, fazemos um trabalho de transparência para que eles vejam onde o dinheiro foi utilizado, para onde foi direcionado". Eles recebem ajuda de todo o País, mas ainda assim a parte financeira é o maior desafio.

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A equipe que atua no Nacer reunida

Sustentabilidade para ser autossustentável

Cleslley já trabalha em mais um projeto para complementar a renda do Nacer e, futuramente, torná-lo autossustentável. A ideia é reaproveitar paletes -- uma madeira usada geralmente para transportar cargas-- para produzir e revender móveis.

Todos os móveis da instituição já são feitos deste material, agora o próximo passo é fazer disso um investimento.

"Geralmente essas ripas são incineradas e isso causa muita poluição no ambiente, então queremos dar esse passo ecologicamente correto e reaproveitar essa madeira para servir de sustento para a casa. Quero essa autossustentabilidade"

Para o futuro, Cleslley também pensa em multiplicar o abrigo para outras zonas de Manaus, um para cada uma. "É um núcleo de assistência, e, para mim este é só o primeiro deles. Ainda há muita miséria nessa cidade, ainda há muita criança negligenciada".

Para compartilhar um pouco do sentimento de solidariedade e a alegria do abrigo, a família Rodrigues teve uma ideia incrível:

"Cada pessoa que visita nossa casa sai de lá com um vasinho com girassóis cultivados. Permitimos que a pessoa leve o Nacer para sua casa, para que a pessoa possa sempre lembrar da gente"

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