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03/09/2015 17:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Para Carl Hart, Brasil vive apartheid. E a política de drogas só ajuda a piorar tudo

Carl Hart, de 48 anos, é aquele neurocientista que teria sido alvo de racismo no Hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, mas que negou a existência de qualquer problema. Você deve se lembrar dele.

Mas acontece que, acima de tudo, é bom estar atento ao que o primeiro negro se tornar professor titular na Universidade de Columbia fala e escreve.

Numa entrevista ao jornal A Tarde, da Bahia, Hart teve tempo para explicar seus pontos de vista. A conversa abordou racismo no Brasil, legalização ou descriminalização das drogas e a falência da política antidrogas.

carl hart

Veja abaixo os principais pontos da conversa com Hart.

1. O problema não é a droga

No Brasil, o principal problema é que as pessoas estão sendo induzidas ao erro, enganadas, em relação às drogas na sociedade. Dizem à população que as drogas são um problema em si, quando as questões estão ligadas à própria estrutura social, discriminação racial, pobreza, falta de educação, falta de inclusão em certos grupos. O que há, essencialmente, é um apartheid. E culpam as drogas, por meio de campanhas contra o crack, como se o crack fosse o problema. O crack apareceu no Brasil por volta de 2005, a pobreza está desde sempre, assim como a violência e o crime. Atribuir essas questões à existência das drogas e dos traficantes é desonesto. Sugiro às pessoas, principalmente aquelas que estão sendo colocadas nas cadeias ou mortas pela polícia, que se levantem e digam: "Essa política antidrogas é besteira!".

2. Esteriótipos não ajudam em nada

Pense, por exemplo, no uso do automóvel. Muita gente dirige de forma imprudente e acaba tendo problemas, se envolve em acidentes, o que acaba se tornando um problema de saúde. Mas a maioria da população usa o automóvel de maneira segura e tal uso não se configura um problema de saúde pública.

3. O Brasil está parado na era Reagan

Recentemente, escrevi um artigo mostrando como a política antidrogas dos EUA foi exportada para o Brasil. É uma política criada para subjugar a população negra. Como resultado, lá, um a cada três homens negros estão sujeitos a passar algum tempo na cadeia. É uma estatística terrível. O que contribuiu para isso foi uma política de combate ao tráfico, sobretudo de cocaína e crack, criada em 1986. Agora, estamos revendo essa política, uma vez que percebemos que está errada e inapropriada. O que está sendo feito no Brasil, nos dias de hoje, é basicamente a mesma coisa que adotamos nos anos 1980. Portanto, podemos esperar os mesmos resultados: pessoas negras, particularmente homens, enchem as prisões. Isso quando não são mortas pela polícia.

Obrigado pelas dicas, Carl. Volte sempre.

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