NOTÍCIAS

Pai de menino sírio fala sobre drama da família e faz apelo: 'Deixem que esse caso seja o último'

03/09/2015 14:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02
Reuters

"Nós queremos a atenção do mundo, assim poderemos prevenir que o mesmo aconteça com outras pessoas. Deixem que esse caso seja o último."

Abdullah Kurdi, pai de Aylan e Galip, falou nesta quinta-feira (3) sobre o drama da família, e pediu mais atenção da comunidade internacional à crise dos refugiados.

Seus dois filhos e sua mulher, Rehan, morreram enquanto a família tentava chegar à ilha de Kos, na Grécia. De lá, o plano era seguir para o Canadá, onde vive parte da família de Abdullah.

A foto do pequeno Aylan morto em uma praia da Turquia foi divulgada na quarta-feira (2), e provocou comoção mundial. Abdullah deseja retornar a Kobani, na Síria, para enterrar a família.

"As coisas que aconteceram conosco aqui, no país onde nós nos refugiamos para escapar da guerra na nossa terra natal... Nós queremos que o mundo todo veja."

Kobaini, cidade natal da família, é cenário de intensos combates desde o ano passado. Recentemente, forças curdas têm enfrentado o Estado Islâmico, que deseja retomar a cidade.

Segundo o jornal Hurriyet, Abdullah contou, em depoimento à polícia, que já havia tentado chegar à Grécia duas vezes, pagando pequenas fortunas à traficantes. Após duas tentativas frustradas, a família embarcou novamente rumo ao país.

Segundo o depoimento, os ocupantes do barco se desesperaram com a água que entrava na embarcação, que virou após eles se levantarem. O capitão abandonou a embarcação e pulou no mar.

"Eu estava segurando a mão da minha mulher. Os meus filhos escorregaram pelas minhas mãos. Nós tentamos nos agarrar ao barco. Todos gritavam na escuridão, e eu não poderia fazer com que minha voz fosse ouvida pela minha esposa e pelos meus filhos", contou em depoimento.

"Meus filhos eram as crianças mais lindas do mundo, me acordavam todos os dias para brincar com eles. Eles se foram agora", contou ele à Associated Press.

Política

A divulgação da foto de Aylan provocou reações políticas na Europa e também no Canadá, país que negou o pedido de asilo à família.

Após a repercussão do caso, o governo do Canadá voltou atrás e ofereceu cidadania a Abdullah. Ele negou a oferta.

"Recebi uma oferta do governo do Canadá para morar lá, mas depois do que aconteceu não quero ir. Vou levá-los primeiro a Suruç (cidade turca na fronteira com a Síria) e depois a Kobani, na Síria. Passarei o resto da minha vida lá", explicou à agência de notícias EFE.

No Canadá, o governo sofreu severas críticas da oposição, e o ministro da Imigração e Cidadania do Canadá, Chris Alexander, cancelou sua agenda política nesta quinta-feira (3) para investigar o motivo de o pedido de refúgio da família ter sido negado em junho e para participar de reuniões que devem "atualizá-lo" sobre a crise dos refugiados, segundo o Ottawa Citizen.

Alexander, que tenta reeleição para o parlamento, foi duramente criticado pelo líder liberal, Justin Trudeau, que disse ainda que sua nação deveria aceitar 25 mil refugiados sírios imediatamente.

“Você não descobre a compaixão de repente no meio de uma campanha de reeleição, você a tem ou não a tem.”

“Este governo ignorou os apelos das ONGs canadenses, dos partidos da oposição e da comunidade internacional, que acreditam que o Canadá deveria fazer mais e deveria estar fazendo mais”, acrescentou.

A irmã de Abdullah vive no país há vinte anos, e tentou, sem sucesso, levar a família para lá. De acordo com o Independent, Teema tentou, com a ajuda de vizinhos e parentes, "patrocinar" a família que ainda estava na Síria.

A ajuda financeira, segundo o jornal, possibilitaria que eles obtivessem uma modalidade de visto denominada G5, quando pelo menos cinco cidadãos canadenses são responsáveis pelo apoio emocional e financeiro dos refugiados.

O pedido teria sido negado porque a família não possuía visto de saída da Turquia nem o status de refugiado oficialmente reconhecido.

" Os países europeus, que transformaram o Mediterrâneo, berço das civilizações mais antigas do mundo, em um cemitério para refugiados, compartilham a culpa de cada refugiado que perde sua vida", afirmou o presidente turco, Tayyip Erdogan.

O país pediu ajuda internacional para receber as pessoas que fogem da guerra civil da Síria. A Turquia já recebeu cerca de dois milhões de refugiados desde o começo da guerra, e apenas US$ 400 milhões de ajuda internacional.

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, também se manifestou sobre a questão. "Ele tinha um nome: Aylan Kurdi. É preciso agir urgentemente. Uma grande mobilização europeia é urgente", afirmou ele em seu Twitter.

(Com informações das agências de notícias)