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Juiz Sérgio Moro rebate Dilma Rousseff e diz que crise no País não é culpa da Operação Lava Jato

31/08/2015 12:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02
Montagem/Estadão Conteúdo

O juiz federal Sérgio Moro, que conduz os trabalhos da Operação Lava Jato, rebateu nesta segunda-feira (31) as opiniões que apontam os trabalhos da Polícia Federal e da Justiça como os culpados pela crise econômica que atravessa o País. Para o magistrado, “não é o policial que descobre o crime, o culpado pelo cadáver”.

“Não foi a Lava Jato quem causou o aumento de US$ 2 bilhões para US$ 18 bilhões nos custos de construção da refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco). Não é o policial que descobre o crime, o culpado pelo cadáver (...). Não teria sido a propina a motivação principal para investimentos mal sucedidos?”, indagou Moro, em evento organizado pela revista Exame, em São Paulo.

A resposta do juiz federal atinge diretamente o que disse a presidente Dilma Rousseff, no fim de julho. Segundo o jornal O Globo, durante reunião de 12 minutos com o vice-presidente Michel Temer, a presidente responsabilizou a Lava Jato por parte da queda do Produto Interno Bruto (PIB) – que é a soma de todas as riquezas produzidas pelo País.

“Para vocês terem uma ideia, a Lava Jato provocou uma queda de um ponto percentual no PIB brasileiro”, afirmou Dilma, de acordo com dois ministros ouvidos pelo jornal do Rio.

Moro destacou que as delações premiadas colhidas até o momento mostram um cenário preocupante: nenhum dos ‘criminosos colaboradores’, como o juiz gosta de mencionar, consegue explicar os reais motivos do pagamento de propinas a executivos da Petrobras e a políticos. “Todos dizem que era ‘a regra do jogo’. Houve uma ‘naturalização’ da propina.”

‘Prisões necessárias’

Acusado por defensores de suspeitos e réus investigados pela Lava Jato de “excessos”, sobretudo no âmbito das prisões temporárias e preventivas, Sérgio Moro negou que tenha cometido qualquer ilegalidade. De acordo com o juiz, todas as mais de cem prisões feitas até o momento, ao longo de 522 dias desde o início da operação, foram justificadas.

“A prisão cautelar é sempre excepcional, mas é permitida quando se quer resguardar a lei. Quando pedi prisões, foi porque vi razões legais para isso. Foram sempre medidas para estancar os cofres públicos”, explicou Moro, que ressaltou ainda que vê “ventos favoráveis” para que as decisões tomadas por ele – incluindo condenações – sejam mantidas por instâncias superiores.

O juiz elogiou as manifestações que tomaram as ruas do Brasil nos últimos meses, na busca por mudanças, dizendo que é preciso pressionar políticos e instituições por mudanças contra a corrupção.

Na opinião de Moro, a situação é difícil, mas “é sempre mais escuro antes do amanhecer”. A responsabilidade para que o cenário sombrio mude não está nas mãos do Judiciário, mas sim da sociedade:

“Há uma perda de confiança, um questionamento se a lei vale para todos. Há ainda um questionamento do sistema democrático brasileiro pelo envolvimento de políticos (...). A perda de autoestima do País é progressiva, vemos uma perda da dignidade para quem está dentro e fora do País. A responsabilidade [para mudar isso] é de todos."

Defendidos pelo governo como saída para a crise econômica, os acordos de leniência das empresas envolvidas na Lava Jato não possuem a reprovação de Moro, desde que sejam sérios:

“O que muda um país são as suas instituições fortes (...). Vemos problemas a curto prazo, sem saber se haverá recuperação dessas empresas, mas não poderemos competir com o mundo com essa corrupção sistêmica. Quanto aos acordos, não sou contra, mas é preciso ver quais são os termos. Essas empresas precisam contar tudo o que sabem, abandonar a corrupção e ressarcir os cofres públicos. Como sabemos, a corrupção envolve quem paga e quem recebe.”

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