LGBT
25/08/2015 12:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Semana da Anistia em Brasília debate a repressão à homossexualidade na ditadura militar (VÍDEO)

A Semana da Anistia foi lançada nesta segunda-feira (24), em Brasília, com o evento inaugural tendo como tema a 'Repressão à Homossexualidade na Ditadura e à Homofobia na Democracia'. O objetivo da semana é lembrar os 36 anos da Lei da Anistia, com atividades em todo o País até o próximo domingo (30).

Durante o evento foi exibido o filme Favela Gay, produzido pelo cineasta Cacá Diegues e dirigido por Rodrigo Felha. Após a exibição, houve debate com acadêmicos, militantes e autoridades vinculadas à promoção da memória e da verdade e ao enfrentamento da homofobia.

Houve ainda uma homenagem a três pessoas que se destacaram na defesa dos direitos LGBT (Léscbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais): Sandra Maria Carnio, presa e torturada pelo regime militar (1964-1985); Marisa Fernandes, pioneira no ativismo lésbico no Brasil e integrante do coletivo de feministas lésbicas de São Paulo; e o historiador norte-americano James Green, cujos estudos sobre ditadura e homossexualidade influenciaram o relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

O presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, ressaltou a importância de se discutir a repressão autoritária e homofóbica no País. “É um momento de reflexão em torno do papel da memória e de afirmação dos direitos humanos. Serão inúmeras atividades [durante a Semana da Anistia] em todo o Brasil, para gerar ambientes de mobilização e articulação social. Queremos gerar conscientização e repúdio a toda forma de violação de direitos.”

Abrão disse que a perseguição na época da ditadura não era apenas política. “Durante muito tempo, não identificávamos outras formas de violência. E agora essa dimensão chega à questão da orientação sexual. Esses atos simbólicos, como o que estamos fazendo hoje, são atos de empoderamento que permitem que as pessoas façam uma autorreflexão e percebam que aquilo que sofreram no passado também estava combinado com a questão da orientação sexual”, explicou.

O deputado federal Jean Wylllys (PSOL-RJ) afirmou que trazer este debate foi um ato corajoso da Comissão de Anistia. “É fundamental a criação de um espaço para discutir a dimensão da violência que se empreendeu durante o período da ditadura militar”, afirmou o parlamentar.

"Me espanta que meia dúzias de fascistas que me recebeu aqui na UnB desconheça ou queira apagar esse passado recente da...

Posted by Jean Wyllys on Segunda, 24 de agosto de 2015


O transexual João W. Nery falou sobre as dificuldades enfrentadas pelos transexuais em relação aos documentos pessoais. Apesar de reconhecer que o nome social foi uma conquista, pois evita o constrangimento em algumas situações, ele afirma que sempre que precisa usar seus documentos originais sente-se exposto. “Não somos cidadãos. Pagamos impostos e nem o direito ao nosso nome temos.”

“Quando eu nasci a palavra 'transexual' não existia no Brasil. Eu também nunca me senti uma lésbica. Então, eu era um ET [extraterrestre]. Eu tinha 30 anos de idade quando conheci o primeiro transexual. Quando me operei, as cirurgias, eram criminosas, eram consideradas mutilação do humano”, afirmou Nery.

Ele contou que, com a mudança de sexo, perdeu todo o seu currículo escolar. “Eu era psicóloga, dava aula em três universidades no Rio de Janeiro. Eu fazia mestrado e, no momento em que tirei a documentação masculina, virei um analfabeto. Não tenho aposentadoria, e o Estado nunca me ressarciu desta perda.”.

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