NOTÍCIAS

Luciana Genro diz que País tem de 'refundar suas instituições', hoje nas mãos do 'gangster' Cunha e do 'PT que está aí'

22/08/2015 09:02 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/Facebook

“Hoje eu estou aqui por força da garantia da lei, porque durante toda a campanha eleitoral a Rede Globo só mostrou os três candidatos que não têm propostas para atacar os interesses das 5 mil famílias mais ricas do Brasil, entre elas está a família que é dona da Rede Globo”. Uns riram, outros não acreditaram. Foi assim que Luciana Genro, de 44 anos, abriu o debate na principal emissora do País nas eleições presidenciais do ano passado.

Mesmo quem prefira não levar a sério e tratar jocosamente a fala – a qual abre o teaser de um documentário que Luciana e o seu partido, o PSol, já disponibilizaram no YouTube (e que será lançado em breve) –, certamente ela teve impacto nas urnas: foram mais de 1,6 milhão de votos e a quarta colocação no primeiro turno do pleito, ficando atrás somente de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB), e Marina Silva (PSB).

O expressivo resultado não envolve apenas falas impactantes: a diferença de receita da campanha do PSol (R$ 401,5 mil declarados à Justiça Eleitoral) para, por exemplo, a reeleição de Dilma (que arrecadou R$ 350,5 milhões) expõe bem o desafio para partidos considerados ‘nanicos’ e aqueles alinhados ao empresariado. Não ache que Luciana prefira reclamar desse abismo a agradecer aos seus eleitores de 2014.

Em entrevista ao Brasil Post, a líder do PSol não se furtou em mandar uma mensagem aos que viram nela algo que não enxergaram nos demais candidatos. “Muito obrigada pela confiança, por acreditarem não só em mim, mas nas propostas que eu representei durante a campanha eleitoral”, afirmou ela.

É justamente aquilo que foge do cenário atual, o que cria um ceticismo em diversas camadas da sociedade brasileira, que move Luciana, uma ex-petista que não resistiu ao proselitismo do PT, tão logo o partido chegou ao poder com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Segundo sua análise, muito da crise política e econômica que o País atravessa repousa nos ombros do partido que comandou o Brasil nos últimos 12 anos.

“Esse governo, tanto do Lula como da Dilma, foram a prova de que não é possível a esquerda governar e fazer diferença se não se propor a fazer mudanças estruturais. Então esse é um balanço necessário e que envolve todos os governos do PT”, avaliou Luciana, que vê essa inaptidão petista, ao se unir ao modus operandi da ‘velha política’, como a chave não só para o descrédito do partido, mas também para a ascensão de uma onda conservadora.

“Há um descrédito muito grande do governo. Há uma indignação das pessoas com a corrupção, com essa falta de atendimento dos interesses do povo por parte do governo e também do Congresso Nacional, e lamento muito que essa indignação esteja sendo manipulada pela direita. Compreendo esse processo porque eu acho que, no momento em que o PT traiu de tal forma as suas bandeiras, a própria Dilma incorporou o espírito do Aécio após as eleições ao anunciar o ajuste fiscal e frustrou grande parte do eleitorado, muitas pessoas ficaram desorientadas e a grande mídia só apresenta como oposição ao governo o PSDB”.

A Constituinte

A insistência em pautas como a taxação das grandes fortunas e as discussões em torno da legalização das drogas e do aborto deram ânimo e geraram apoio de uma juventude que, atuante nas redes sociais e ligada aos movimentos sociais, busca algum caminho representativo também na política. A busca por esse espaço, tornando-se uma terceira via em um ambiente hoje polarizado entre PT e PSDB, é o que almejam Luciana Genro e o PSol.

Recentemente, em um artigo publicado em seu site oficial, ela defendeu que o Brasil precisaria de “um novo Junho de 2013”. Todavia, as Jornadas de Junho de 2013 foram horizontais, sem direcionamento partidário. Não é só: se há pouco mais de dois anos a pauta girou em torno de transporte e corrupção, desta vez, segundo Luciana, o mote seria a convocação de uma Assembleia Constituinte. Em resumo, a única saída para a crise que assola o País é preciso ‘refundar as instituições’.

“Acredito que a situação política do Brasil, a crise que a gente vive não é só econômica, que é a parte que atinge o povo de maneira mais perversa, com desemprego, com arrocho salarial, e é também uma crise política de falta de legitimidade das instituições. A nossa proposta de Assembleia Constituinte seria no sentido de que se pudesse reorganizar o País, rediscutir o funcionamento das instituições, de forma que eles funcionem de fato voltadas para os interesses do povo, não para os interesses dos bancos, das empreiteiras, dos financiadores de campanhas eleitorais como a gente vê hoje”, disse Luciana.

Aos que acham o teor do raciocínio descolado com a realidade, ela completa: “Se a gente fosse dizer só o que é possível, ficaria repetindo sempre as mesmas coisas. A gente tem que dizer o que é necessário e não só o que é possível de forma imediata”. Na análise da líder do PSol, a sugestão de uma Constituinte iria além, possibilitando que “todos os matizes políticos e ideológicos pudessem se expressar livremente” sobre o País que todos buscam.

Sem uma discussão ampla e uma ‘refundação institucional’, dificilmente o Brasil poderá vencer o que Luciana chama de “as estruturas do poder”, que é o que aconteceu na opinião dela com o PT.

“Nesse sistema político em que nós vivemos, o sistema capitalista, e o sistema de castas políticas, envolve o fato dos que governam se desvinculam completamente dos seus governados (...). Por isso é que a nossa proposta de Assembleia Constituinte é importante, porque ela seria uma forma de chamar o povo a fazer essas mudanças estruturais, a partir de um grande debate sobre como deve funcionar o País e a serviço de quem devam estar as instituições e a economia do País, porque o problema da economia é fundamental: a serviço de quem se coloca a economia e os recursos do País? Então nesse processo de debate, de reestruturação completa das instituições e da economia, é que se pode ter de fato um poder que não seja corrupto”.

Dirceu, o algoz

Ao se recusar a votar a favor da reforma da Previdência, logo no primeiro ano do governo Lula, Luciana Genro e outros parlamentares assinaram a sua sentença de expulsão do PT. Foi assim que nasceu o PSol, é verdade. Mas isso também causou o rompimento de uma relação entre tais dissidentes e o então “homem forte” do partido, o então ministro da Casa Civil José Dirceu.

Hoje, após a condenação no escândalo de mensalão, Dirceu está preso em Curitiba (PR), envolvido em mais um escândalo investigado pela Operação Lava Jato, o que aponta pagamentos de propina a executivos da Petrobras e políticos. Questionada sobre o que pensa do ex-presidente do PT, um dos que fomentaram a sua expulsão (“enriqueceu o meu currículo”, diz com uma leve dose de ironia), Luciana diz não guardar mágoas, mas lamenta a situação do ex-companheiro de partido.

“Fico na verdade muito triste vendo esse processo pelo qual o José Dirceu passou: de uma liderança de esquerda, que começou a sua trajetória no movimento estudantil, enfrentando a ditadura militar, a um dirigente partidário que se incorporou nos esquemas de corrupção e que, inclusive, aparentemente usou esses esquemas em benefício pessoal. É preciso tirar lições políticas desse processo. Não é um caso pessoal. Ele é resultado desse processo de adaptação dessa velha esquerda, representada pelo PT, aos esquemas da velha política, da manutenção ‘status quo’ do sistema. Então, só tenho a lamentar”, disse.

luciana

Ao lado de Babá e Heloísa Helena, Luciana Genro foi expulsa do PT. Trio se uniu para fundar o PSol, em 2004 (Celso Junior/Estadão Conteúdo)

E o que será do PT? É uma pergunta que analistas tentam responder semana após semana. Para a líder do PSol, quem espera o fim do partido está enganado. Não que isso tenha uma conotação elogiosa. “Acho que o PT não vai acabar não. Acho que esse PT que está aí agora não vai acabar porque o PT original já acabou há muito tempo. Agora estamos vendo são os estertores desse desmanche do PT original, que ainda tinha vinculações com a luta do povo”.

Sinalizada no último Congresso Nacional do partido, realizado em junho deste ano em Salvador (BA), a cisão do PT em outras siglas de esquerda – como as que originaram o PSol e, antes deste, o PSTU – não pode ser descartada. “Acho que é provável que muita gente saia do PT para buscar legendas mais confortáveis eleitoralmente, e eu espero que muita gente saia do PT para construir uma alternativa de esquerda coerente”, opinou Luciana.

Cunha, o ‘gângster’

Mais críticos do que os comentários sobre o PT, só aqueles proferidos quando o tema é o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na opinião de Luciana, trata-se de um “gangster da política”, que busca exclusivamente “defender os seus interesses pessoais e dos grupos que o financiam”. Somando a crise e a atual gestão parlamentar, ela não vê com surpresa a expansão de pautas conservadoras – o que para ela poderia ser ainda pior, se tivéssemos hoje um regime parlamentarista, como sugeriu Cunha e defende Eduardo Jorge, outro a disputar o pleito de 2014.

“Se nós estivéssemos em um outro tipo de parlamento, com um outro tipo de eleição, com um outro tipo de sistema político e eleitoral, talvez o parlamentarismo pudesse ser uma forma de envolver o povo nas discussões políticas do País, de fazer com que houvesse uma democratização maior nas decisões políticas. Mas eu não vejo isso no nosso sistema político. Um parlamentarismo hoje seria tão desastroso quanto esse presidencialismo”, afirmou, emendando ainda que, embora em menor número, os candidatos ‘reacionários’ possuem dinheiro, algo que os ‘progressistas’ não têm – associado a uma militância cada vez menor.

Essa análise a levar a um comparativo com outras nações e a uma ‘quase previsão’ de futuro para o País:

“Hoje a militância está cada vez mais escassa, justamente por essa decepção das pessoas com a política, grande parte dessa decepção, sou obrigada a dizer, se deve ao PT, que despertou a esperança de milhões e depois frustrou essa esperança. Então é quase que natural que, nessa conjuntura, a direita cresça. Se você for olhar o que ocorreu na Europa durante a crise de 2007, 2008, quando estourou lá a mesma crise que estamos vendo agora, nos países onde governava a esquerda tradicional, ganhou a direita, e onde governava a direita, ganhou a esquerda tradicional. É uma alternância fictícia, porque os dois lados aplicavam a mesma política, e as pessoas se frustravam com ambos.”

Nesse aspecto, o modelo grego, com a eleição do partido de esquerda Syriza, é um dos observados com atenção pelo PSol. “A Grécia rompeu essa lógica e a Syriza é uma tentativa de construção de uma terceira via. Se vai dar certo ou não, a gente ainda está acompanhando para ver. Mas é uma tentativa e uma demonstração de que é possível, inclusive dentro das regras do sistema eleitoral, com um governo com uma política e discurso de enfrentamento ao sistema. É nisso que nós apostamos aqui no Brasil também”, completou.

syriza

Sucesso eleitoral do grego Syriza serve de inspiração para Luciana Genro e o PSol (Yorgos Karahalis/AP)

O futuro

Desde o fim das eleições, Luciana Genro segue o seu trabalho de consolidação e crescimento do PSol. Entre dirigir a Fundação Lauro Campos, as viagens para debates com a militância e companheiros de partido, e a coordenação da sigla na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, ela não perde de vista o seu futuro político. A primeira meta é concorrer à Prefeitura de Porto Alegre em 2016, em um pleito que ela assegura “ter chance de vencer”. Esta definição ainda depende de oficialização do PSol.

Isso significa o fim do sonho de realizar a sua utopia concreta em 2018, ano das próximas eleições presidenciais? Só se ela vencer o pleito municipal, já que ela assegura que “jamais abandonaria um mandato de prefeita para entrar em outra disputa eleitoral”. Se isso não ocorrer, a disputa pelo Planalto deverá ser uma alternativa, e não só para declarações bombásticas nos debates eleitorais.

“Nossa tentativa aqui em Porto Alegre é mostrar que nós não apenas sabemos criticar e denunciar os governos, mas que também temos propostas para fazer as coisas de uma forma diferente. Então eu vou trabalhar primeiro para ser prefeita. Agora, se eu não for, em 2018 é outra discussão que o PSol vai ter que fazer, se vai querer apresentar o meu nome ou não”, finalizou.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:


LEIA TAMBÉM

- 'A direita cresce porque o governo não responde aos trabalhadores'

- Luciana Genro rejeita impeachment e diz que ato contra Dilma pede 'modelo de mudança'

- O Brasil NÃO precisa de um novo junho de 2013

- As razões que fizeram de Luciana Genro e Eduardo Jorge as duas melhores 'surpresas' das eleições de 2014 no Brasil