ENTRETENIMENTO

Trina Robbins: Quadrinista, feminista e ícone da contracultura (FOTOS)

21/08/2015 15:10 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

trina robbins


A cartunista norte-americana Trina Robbins, 77, tem combatido o machismo por meio das histórias em quadrinhos há quase 50 anos. Quando começou a carreira, no fim da década de 1960, sua luta a favor do direito das mulheres a fez se afastar de publicações mainstream – foi na contracultura que ela encontrou espaço para fazer sua arte.

"Eu acredito na paz e no amor. Eu era hippie. E sou até hoje", disse Robbins na última quarta-feira (19), em palestra na Gibiteca Henfil, em São Paulo (SP), na primeira viagem dela ao Brasil.*

No início da década de 1970, ela se mudou de Nova York para São Francisco, Califórnia. Robbins e uma colega eram as únicas mulheres no grupo de cartunistas da cidade àquela época. Os homens não as convidavam para trabalhar com eles, mas isso não a impediu de encontrar outras artistas – e de se unir a elas em publicações feministas que entraram para a história.

O vasto currículo de Robbins inclui o visual da icônica Vampirella, a primeira revista em quadrinhos feita inteiramente por mulheres It Ain't Me, Babe e a antologia Wimmen's Comix, também só de mulheres. Nesta última, lançada em 1972, Robbins assinou a história Sandy Comes Out, a primeira em quadrinhos a retratar uma mulher que se assume como lésbica. Wimmen's Comix também abordava questões como política e aborto. Versátil, ela também trabalhou em títulos infanto-juvenis, como Chicagoland, e em The Legend of Wonder Woman (imagem abaixo), minissérie clássica da Mulher Maravilha. (Você pode conhecer mais trabalhos de Robbins na galeria abaixo e também no site dela.)

Há mais de 30 anos, ela se dedica a resgatar a memória da mulher nos quadrinhos. Já lançou mais de dez livros sobre o assunto. Os mais recentes são The Complete Wimmen's Comix (a ser lançado em dezembro deste ano) e Pretty in Ink: North American Women Cartoonists 1896-2013 (2013).


wonder woman


Por desenhar, escrever, editar e militar, Trina Robbins é um ícone e tanto. Ela não economiza críticas à frequente hiper sexualização da mulher nos quadrinhos de super-heróis, assim como a violência contra elas. Esses são alguns dos assuntos que ela comentou em entrevista ao Brasil Post na Gibiteca.

"Os quadrinhos nunca, nunca tiveram tantas mulheres desenhando", festejou. "E elas são boas, são realmente boas."


Brasil Post: Sobre o que é o feminismo, em sua opinião?

Trina Robbins: É sobre igualdade. Mulheres são iguais aos homens, e precisam ser tratadas assim. É simples. Seja no emprego, no dinheiro que ambos ganham, na sexualidade – mulheres ficam muito desconfortáveis ao serem tratadas como objetos sexuais, e ficam muito desconfortáveis quando homens as desenham assim – e em qualquer outro sentido.

Nos últimos anos, temos visto uma expansão da diversidade entre personagens femininas nos quadrinhos de super-heróis. É o caso da Thor, que é feminista; da Ms. Marvel, que é descendente de paquistaneses; da Mulher-Gato, que é bissexual; da recém-criada Moon Girl, que é negra, pré-adolescente e nerd; e também de Loki, cujo gênero é fluído. Às vezes, ele é mulher. Estamos vendo uma evolução de verdade ou tudo isso poderia ser melhor?

Estamos vendo uma evolução. O campo dos quadrinhos mainstream é conservador. Eles estão entrando nessa onda [da diversidade] um pouco atrasados, mas estão entrando nela, e isso é importante. É como se luzes tivessem se acendido sobre suas cabeças e eles dissessem "Ei, 52% da população é feminina e elas comprarão nossos quadrinhos se gostarem deles". É simples assim e demorou todo esse tempo para aprenderem – mas aprenderam. Isso é bom. Estão produzindo ótimos quadrinhos que eu chamo de "girl-friendly" ["amigáveis para garotas", em tradução literal]. Não apenas pelas histórias, mas pelo estilo. É um estilo girl-friendly.

O que nós, fãs de quadrinhos, podemos fazer para melhorar a diversidade nesse meio?

Você ajuda comprando. Toda pessoa que compra esses livros encoraja as editoras que os publicaram a produzir mais livros como esses. Se você odeia um livro, é claro que você pode falar sobre isso, mas você não compra se não gostar.

Quais são as personagens femininas que você considera fodonas?

Não gosto do termo "fodona". É sobre alguém que está batendo o tempo todo. Eu gosto das personagens que têm personalidade e não passam o tempo todo lutando. O lance dos quadrinhos de super-heróis, dos quais eu não gosto, é que eles sempre têm que lutar. Se você olhar para graphic novels que não são de super-heróis, elas contam histórias de verdade. Não é todo mundo batendo em todo mundo.

E o que essas mulheres críveis nos quadrinhos podem nos ensinar?

A imagem de uma mulher forte é importante para crianças, meninas e meninos. Para que, quando virem esses quadrinhos, não pensem "Sim, garotas têm peitões, usam saltos enormes e biquínis brasileiros", sabe? [risos] Eles virão que mulheres são suas iguais, garotas são suas iguais. Elas podem ser tudo o que eles também querem ser. Garotos podem crescer respeitando garotas. Assim, a atitude sexista diante delas não se perpetua. Para muitos dos homens adultos já é tarde. Alguns nunca mudarão, porque cresceram com essas ideias.


trina robbins


Você tem sugestões para artistas de quadrinhos homens que querem ir além de estereótipos e contar histórias com mulheres críveis?

Na real? Eles precisam sair por aí e encontrar mulheres reais. Serem amigos dessas mulheres. Não apenas namorados, mas amigos. Assim eles podem entender como mulheres reais são. Artistas precisam olhar para as mulheres reais e perceber que elas não se parecem com aquelas criaturas com peitos gigantes, cintura pequena e pernas longas. Precisam ver como as mulheres de verdade são.

Agora vamos falar sobre a violência contra as mulheres nos gibis mainstream. Nós as vemos sendo superpoderosas, inteligentes e no combate corpo a corpo, mas elas também são vítimas de violências hediondas. É o caso da Batgirl em Batman: A Piada Mortal, que é baleada pelo Coringa e fica paraplégica, isso em uma cena considerada icônica.

Quando Gail Simone [roteirista] começou o blog Women in Refrigerators [catálogo de violências contra mulheres nas HQs], ela pediu a muitas pessoas opiniões sobre o assunto, e eu fui uma delas. Eu disse "Não estou surpresa e nem chocada, porque isso é típico". Se um cara vai se tornar um super-herói ou um Vingador ou algo assim, ele consegue fazer isso porque a namorada dele é destruída. Essa é a tradição e é claro que deve desaparecer, mas acho que isso melhorou. Algum tempo atrás, nos anos 1990 ou no início do século 21, eu estava em uma festa que levantou fundos para uma mulher que concorria a um cargo político em São Francisco. Uma convidada levou o filho, que tinha uns 12 anos e amava quadrinhos de super-heróis. O favorito dele era O Justiceiro [vigilante da Marvel]. Eu disse a ele "Não suporto esses quadrinhos de super-heróis, eles só brigam. O Justiceiro é um desses homens musculosos que espancam pessoas o tempo todo". Ele disse "Não, ele é bem feminista. Sabe como ele se tornou O Justiceiro?" Eu respondi "Deixe-me adivinhar. A esposa e os filhos dele foram assassinados". Ele disse "Como você sabia?!" Eu nunca havia lido O Justiceiro, mas já sabia, porque essa é a tradição. Mas isso é velho, está desaparecendo, porque mulheres têm uma voz tão forte na internet!

Como tornar o meio das HQs mais amigável para mulheres?

Esse meio deve ser agradável para todos, inclusive crianças. Minha neta ama a Mulher Maravilha, mas nunca leu os gibis. Ela gosta das bonecas, dos cartões, etc., mas o gibi é muito violento para ela, e isso é uma pena. Os quadrinhos também têm que melhorar para crianças.

O que você tem lido recentemente e recomendaria para leitores de quadrinhos?

Qualquer coisa da Alison Bechdel, ela é maravilhosa. Há uma ótima série publicada pela Image Comics chamada Saga. As coisas que eu mais gosto são graphic novels e quadrinhos como Saga, que não são publicados pelas editoras DC ou Marvel. A Vertigo [selo da DC com títulos para público mais maduro] publica coisas que são um pouco mais criativas. E quando eu quero dizer "criativas", falo do jeito que Saga é, em que ninguém diz aos autores o que fazer. Há tantos quadrinhos e graphic novels feitas por jovens mulheres hoje em dia. Não lembro o nome de todos, mas são muito bons. É isso o que eu leio, e não os super-heróis.

As redes sociais e os crowdfundings têm ajudado essas meninas nisso.

O trabalho delas é ótimo! Vinte anos atrás, elas não conseguiriam lançar um quadrinho, porque não havia graphic novels e crowdfundings, e era o início do uso do computador em casa. Se, naquela época, elas quisessem fazer quadrinhos, teriam que fazer de super-heróis e no estilo dos homens. No entanto, muitas mulheres não desenham nesse estilo. Muitas mulheres desenham nesse que eu chamo de girl-friendly.

Mas, na mesma internet, elas lidam com reações misóginas por causa do trabalho delas. Você tem uma sugestão para essas meninas que estão começando a fazer quadrinhos e mostrando suas artes por aí?

Eu percebi que esses trolls não são muito inteligentes ou têm boa educação. Eles não sabem escrever, têm uma gramática terrível. Eles são burros. Eu gosto de corrigi-los e enviar [as correções] de volta a eles.

*Ela esteve em São Paulo (SP) recentemente para participar das 3as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da USP.

Trina Robbins: Quadrinista e Feminista

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: