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Relatório da PGR detalha suposto encontro de Eduardo Cunha com Júlio Camargo quando cobrou R$ 5 milhões em propina

21/08/2015 15:54 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Estadão Conteúdo

A principal evidência de que o delator Júlio Camargo disse a verdade sobre a reunião que afirma ter tido com o deputado Eduardo Cunha, em 2011 -- quando o presidente da Câmara teria exigido a propina de US$ 5 milhões - é o rastreamento das ligações do celular do lobista do PMDB na Petrobras Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano.

Os investigadores descobriram que Baiano, braço direito de Cunha, também participou do encontro, no dia 18 de setembro daquele ano, um domingo, segundo Relatório de Análise 89/2015 da Procuradoria-Geral da República.

O presidente da Câmara foi denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro pelo Ministério Público Federal na quinta-feira (20). Como o deputado nega ter se encontrado com o delator e exigido a propina, a Procuradoria fez um impressionante trabalho de investigação, poucas vezes visto em casos de corrupção.

Reconstituiu os passos dos personagens desse capítulo da Lava Jato - Baiano, Cunha e Júlio Camargo. O delator revelou que Cunha e Baiano o encontraram em um prédio comercial do Leblon no Rio, o Leblon Empresarial, situado na Avenida Ataulfo de Paiva.

Segundo a Procuradoria, Fernando Baiano tinha as chaves do local. O rastreamento das ligações de Baiano mostra que pouco antes da reunião, entre 18h48 e 19h20, ele fez oito contatos via rádio -- vinculado à empresa Hawk Eyes, de sua propriedade -- com o proprietário do escritório.

Entre 19h e 21h, o lobista do PMDB fez outros três contatos pelo celular com um número cadastrado em nome de Weyne e Costa Advogados. As ligações foram captadas por antena de transmissão instalada na Avenida Ataulfo de Paiva. A Procuradoria sustenta que Baiano fez os contatos para avisar o dono do escritório que iria ocupar o imóvel naquele domingo.

A Procuradoria constatou que Eduardo Cunha, de fato, estava no Rio naquele fim de semana. Em consulta à cota para exercício de atividade parlamentar do peemedebista, no Portal da Câmara, obteve-se a informação que ele voou para o Rio.

No dia da reunião, o delator Júlio Camargo voou de Congonhas, São Paulo, para Santos Dumont, no Rio, às 17h30 -- retornou para São Paulo às 21h. O motorista do delator, João Luiz Cavalheiro, confirmou que pegou Júlio Camargo no aeroporto e o levou em uma Toyota Camry preto, placas ELL-2211, até a esquina das avenidas Ataulfo de Paiva com Afrânio de Mello Franco. Aguardou por cerca de uma hora e meia e, depois, levou Júlio Camargo de volta ao aeroporto.

Segundo a Procuradoria, iniciada a reunião, Eduardo Cunha solicitou a Júlio Camargo o "pagamento da vantagem indevida". Cunha disse, segundo o delator. "Júlio, em primeiro lugar eu quero dizer que não é nenhum problema pessoal em relação a você. Acontece que o Fernando não me paga porque diz que você não o paga. Como o Fernando não tem capacidade de me pagar, eu preciso que você me pague."

A denúncia da Procuradoria contra Eduardo Cunha diz que o delator tentou se justificar, mas o deputado "foi irredutível". "Eu não sei da história e nem quero saber", teria dito Eduardo Cunha. "Eu tenho um valor a receber do Fernando Soares e que ele atrelou a você."

A denúncia afirma. "Então, Eduardo Cunha solicitou expressamente a quantia de cinco milhões de dólares faltantes." Nas palavras do delator, o presidente da Câmara disse. "Eu ainda tenho a receber 5 milhões de dólares em relação a este pacote."

"Em vista da pressão ficou estipulado que Júlio Camargo pagaria US$ 10 milhões, sendo US$ 5 milhões para Eduardo Cunha e US$ 5 milhões para Fernando Soares, o que foi aceito", diz a denúncia do procurador-geral da República Rodrigo Janot. "Eduardo Cunha, no entanto, solicitou a Júlio Camargo que tivesse preferência no recebimento do pagamento, pois tinha urgência."

A Procuradoria afirma que Júlio Camargo se valeu do auxílio do doleiro Alberto Youssef para operacionalizar o pagamento de parte da propina, "mediante formas de ocultação e dissimulação".

Fernando Baiano foi condenado a 16 anos de prisão na Justiça Federal do Paraná. Como não detém foro privilegiado perante o Supremo Tribunal Federal, ele foi processado na 1ª instância. Na segunda-feira (17) o juiz Sérgio Moro condenou Baiano e o ex-diretor da área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, por corrupção e lavagem de dinheiro.

Defesa

Em nota, Eduardo Cunha disse que está absolutamente sereno e refutou "as ilações" das denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF).

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