ENTRETENIMENTO

Emicida manda a real: 'O racismo é o tema mais urgente a ser combatido no Brasil'

21/08/2015 17:47 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Em um universo musical com algumas temáticas violentas, relacionadas ao mundo do crime e assassinatos, Leandro Roque de Oliveira foi visto, por muitos, como o bom moço do rap. Famoso nas batalhas de freestyle pelo Brasil, com destaque para a ‘Batalha do Santa Cruz’ (nomeada assim por acontecer ao lado da estação homônima de metrô, na Zona Sul de São Paulo), o rapaz crescido na periferia da Zona Norte não exaltava a violência no seu discurso; no máximo, “matava” os MCs adversários através de suas rimas. Homicida, não. Emicida.

Depois de lançar duas mixtapes (‘Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe’, de 2009 e ‘Emicídio’, de 2010), dois EPs (‘Sua Mina Ouve Meu Rep Tamém’, de 2010, e ‘Doozicabraba e a Revolução Silenciosa’, de 2011) e lançar seu primeiro álbum de estúdio (‘O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui’, de 2013), esse último com participações de nomes musicais vindos dos mais diferentes lados – Pitty, Wilson das Neves e MC Guimê são apenas alguns dos nomes -, Emicida lançou neste mês o seu segundo álbum, ‘Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…’, muito inspirado por uma viagem feita pelo paulistano para Cabo Verde, Angola e Madagascar. Conversamos com ele sobre o lançamento do disco, racismo, referências musicais, política e sua primeira viagem de avião.

Você mora aqui perto?

Moro, sim. Eu passei a vida inteira ali no Fontalis (Jardim Fontalis, na Zona Norte de São Paulo), só de estar aqui em Santana já é uma conquista. Eu vinha muito pouco pra cá. Santana pra nóis era onde os boy morava. Eu vinha pra cá quando minha mãe marcava médico.

Qual foi a primeira vez que você saiu do Jardim Fontalis?

A primeira vez que eu saí e pensei: ‘Porra, o mundo é grande’ foi com quinze anos. Quinze anos trancado num bairro é foda. Eu já tinha saído da minha rua, mas foi aí que bateu mesmo, ‘como o mundo é grande, sai da sua quebrada’.

E agora você conhece a Europa, faz turnê.

A grande verdade é que depois que a porta abriu, eu não parei mais. Eu morria de medo de altura, tá ligado? Na primeira vez que fui pra Recife de avião, eu pensava…‘essa porra vai cair’. Eu era tão bicho grilo nesse bagulho de avião que levei marmita na primeira viagem, porque a minha lógica era assim: não vai ter onde comprar comida lá em cima. Quando era de ônibus, ele estacionava na parada. O avião para onde? Lembro até hoje da aeromoça chegando com o carrinho de comida e eu lá, com a marmita de alumínio aberta, na mesinha. Olhei pra ela com aquele frangão, o manjericão feito pela mamãe. Acho que nóis nasceu pra ver o mundo. Tem uma parada, principalmente no hip hop, de ficarem batendo nessa tecla de ‘nossa raiz, nossa raiz’, e eu compreendo e acho muito importante a gente saber de onde vem, mas a gente não é poste, mano. A gente não precisa ficar preso no mesmo lugar pra levar luz. A gente pode circular pelo mundo inteiro e compartilhar essa luz, entendeu? Tem mano que concorda, tem mano que discorda. Eu acho que nóis nasceu pro mundo.

Tem um pouco disso no começo de ‘Mandume’ (a 12ª faixa do disco)?

Você é refém de um único ponto de vista sobre uma pessoa – no caso, sobre um grupo étnico, os pretos. Existe esse estereótipo que o preto tem sempre que estar curvado, com a vassoura, de cabeça abaixada, pedindo licença e desculpa pra tudo. E de repente tá todo mundo pisando nessa pessoa, ‘ele que tá certo, ele é o mais humilde, um exemplo’. Essa pessoa está sendo pisoteada, e a música fala disso. ‘Eles querem que alguém que vem de onde nóis vem seja mais humilde, abaixe a cabeça, nunca revide’ (diz, citando a música), e finja que esqueceu tudo, sabe? Todas as agressões que você sofre, todas as pancadas caem no “não, tá tudo em paz, tudo em paz”, e não tá tudo em paz. Eles querem mil coisas de mim, e eu quero que eles se fodam. (risos)

Uma das coisas que chama a atenção na sua carreira é que você continua transitando muito bem entre estilos, de Dedo na Ferida até Passarinhos. Como é o seu processo de criação para trazer estilos tão diferentes de composição?

Tô andando com o Caetano Veloso! (risos) Não, falando sério, é muito bom isso. A proximidade com o Caetano foi uma coisa que influenciou bastante, sim, mas eu sempre tive interesse nisso. O problema era a falta de estrutura. Eu trampava muito com samples, e as minhas ideias eram muito mais quadradinhas, e precisava me fundir com outros universos para ser mais ousado. Porque eu também era muito inseguro com essas coisas. Eu até passo essa imagem de certeza, convicção, mas todo mundo tem seus dilemas internos, reflexões. Então, aquela primeira mixtape atira para um monte de lados, eu já queria mostrar que minha música e rima podem ser uma pá de coisa. Aí, teve um momento que explodi com Dedo na Ferida, que culminou na porra da prisão lá, em Minas Gerais, depois com uma pá de polícia me enchendo o saco. É um jeito simples de compor: eu me fundo com uma pá de universo. Faço isso desde sempre. Eu estava ali escutando Racionais, lendo Homem-Aranha, escutando Facção Central e assistindo Yu Yu Rakusho, Cavaleiros do Zodíaco. E eu sempre fui um cara muito curioso e teimoso, então, o que eu faço: vou descobrir como as coisas são feitas. Quando meu padrasto foi morar lá em casa, eu odiava moda de viola, mano. Odiava. Ouvia aquele bagulho e me dava coceira. Os moleque na rua tava ouvindo Raimundos, falando um monte de palavrão, eu queria ouvir aquilo, mas só tinha rádio, e meu padrasto ficava ouvindo Tião Carreiro e Pardinho. Aí, mano, chegou um momento em que fui atrás daquilo voluntariamente, e deu certo. Comecei a ver as histórias que os caras contavam do campo e comecei a ver a beleza daquilo. Tive essa educação, sabe? Em algum momento posso ter soado um pouco radical, mas eu sou um cara muito na moral com arte.

Como sua viagem para Cabo Verde e Angola influenciou esse álbum?

O sonho de visitar a África já era uma coisa que eu queria fazer. Inclusive, entre 2014 e 2015 foi a primeira vez na vida em que eu tirei férias mesmo, aí fui pra Madagascar. Cheguei no hotel, fui na esteira, deitei, olhei pro céu. Mano, eu nunca vi tanta estrela na vida, parecia que dava pra tocar, passava estrela cadente, tipo céu de desenho animado. Eu olhei aquilo e vi que era o negócio mais bonito da minha vida. Comecei a escrever a letra ali (‘Madagascar’, a penúltima música do disco). Até viajar pra África, eu tinha um grande ponto de interrogação sobre o que encontraria. Eles amam os brasileiros! Dá uma tristeza o Brasil ser um país tão racista, porque eles gostam tanto daqui, mano. Quando saiu aquele bagulho do Pânico, do personagem lá, foi uma facada gigantesca no coração. Os caras têm uma ideia do Brasil como um paraíso, um lugar onde os negros contribuíram pra caralho, e por isso vão ser bem tratados. Aí eles chegam aqui e recebem o tratamento dos haitianos.

‘Boa Esperança’ é tensa pra caralho, densa, com muita informação, muita pancada. Eu que venho da batalha de freestyle, tem a cultura do punch-line, e cada linha tem que ser um soco. ‘Boa Esperança’ é isso. Cada linha, um soco no estômago. Fazia tempo que eu não fazia um rap secão. Hoje tem uma coisa também que é preconceituosa, de “ah, o rap tá mais musical, tem instrumento, melodia”. Ele sempre foi musical! Mas vocês não reconhecem isso. Pra nóis sempre foi música. Eu lancei o Glorioso (O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, primeiro álbum do rapper, lançado em 2013), todo mundo comentou, “as fusões são muito interessantes, como isso se misturou com samba, maracatu, bossa nova…”, de repente voltei com Boa Esperança, um rap seco, na sua forma mais tradicional, e todo mundo fica “caralho, mano…”, e é, estou peitando. É a nossa música. Eu gosto de fusão, porque vivi nesse universo, ouvindo música que os outros consumiam. Eu cresci ouvindo MPB da minha mãe, pagode da minha irmã, rock’n’roll. Minha irmã gostava de Hanson. Você imagina alguém ouvindo Hanson na favela? Era eu. MMMBop. Puta que pariu.

E o que você está ouvindo agora?

Eu vou frustrar mó galera, mano…Tô ouvindo MC Rodolfinho, tio. Se é pra ser sincero, pra falar, falei. Tô ouvindo um funk, mano. Eu gosto do jeito que os caras arranjam o bagulho, tão criando um jeito novo de fazer flow, tem uma coisa que me interessa.

Você gravou com o MC Guimê, né?

Gravei, gosto dele, meu parceiro. Rodolfinho não conheço pessoalmente, mas tô ouvindo agora “Os mlk é Liso”, e eu gosto da música. O bagulho tá estralando na quebrada, também. E eu não quero me distanciar disso. Eduardo Galeano falava que um intelectual é uma cabeça que se desligou do corpo, e eu não quero virar isso. O funk consegue mover as pessoas pelo coração, pelo ritmo. O corpo não mente. O Nelson Rodrigues falava que a nudez tá no rosto. Isso é foda. Eu fico pensando em tudo isso. Nem respondi nada, né, mano? Você perguntou de música? (risos) Tô ouvindo uns funk, e eu sempre volto pro Moacir Santos. Aquele disco, Coisas, é fantástico. Quando eu estava fazendo o ‘Glorioso’, não sabia que ele tinha morrido, aí liguei pros cara e disse: “Mano, quem vai produzir o disco vai ser o Moacir Santos”.

Mas seria legal um disco de rap com big band, né?

Porra, seria do caralho! E não dá pra fazer mais com ele, mas não é algo que eu abandonei. Porque esse disco é fantástico. Fora isso, eu gosto de ouvir rap. Escutei o último risco do J.Cole, que eu acho foda. Kendrick (Lamar) eu acho do caralho. Acho foda os temas, as rimas, ideias, vídeos, eu sou fã dele. Acho que ele trouxe a inteligência de novo pro jogo. Eu acho que tem uma coisa de zeitgeist, o espírito do tempo, e todos nós somos fruto da diáspora africana dentro da música. Eu não entendo inglês, mas fui ver a similaridade das coisas porque depois de ‘Boa Esperança’ começaram a falar do disco do Kendrick, o que me fez pegar as traduções, porque até então estava ouvindo só as rimas, as bases. Muitas vezes eu acho que eles tão falando uns bagulho muito grandioso e eles estavam mandando mina rebolar (risos). Antes eu tinha um bagulho de “nossa senhora mano, o hip hop só dá ideia firmeza”.

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Aí ‘dá ruim’?

Ah, mano, não. Porque é música, né. Pelo amor de Deus. Não vou ficar, também… “toda música tem que ser chata”. Música é pra se divertir. Esse é meu debate com vários caras, que acham que é um bagulho Boa Esperança, e não! Eu quero ouvir música pra tirar onda também. Ficar em paz. Também é pra fugir das coisas. Tem música pra dormir e pra acordar.

E isso se reflete no seu trabalho.

Eu sempre penso num disco como um dia. Pensa assim: o cara saiu pra ir pra escola, tirou uma nota boa, foi no trampo, teve um dia bacana, voltou, tomou um enquadro na quebrada e apanhou da polícia. O melhor e o pior dia da vida dele acontecem em questão de horas. E eu gosto que o disco tenha isso, porque a favela não é uma coisa só. A favela não é essa visão. Ela vê mil coisas, mas não tem voz pra responder. O disco quase chamou “Mil coisas na Cabeça”. Depois, eu fiquei viajando nesse bagulho e vi que era uma lista.

Assim como a sociedade, o rap é um ambiente machista e homofóbico. Você passou por um incidente relacionado com a música ‘Trepadeira’ e, este ano, chamou Drik Barbosa e Rico Dalasam pra colaborar em Mandume. Quem tá mais aberto pra mudar: rap ou sociedade?

O rap! De longe! De longe! Porque no rap tem bastante espaço pra debate. Desde que Rico Dalasam, assumidamente homossexual, surgiu na cena, ele apareceu na festa do KL Jay, dos Racionais, abriu o show do Criolo e tá no disco do Emicida. A gente tem aí três bandeiras muito fortes do hip hop nacional dizendo: “Fale”. Então, sim: vivemos num meio machista e homofóbico, isso é um fruto da sociedade na qual fomos criados, mas também vejo um esforço gigantesco para o combate. Eu luto por isso. Rashid luta por isso. Todos os caras que estou citando lutam, porque conhecemos a pluralidade do nosso povo. Agora, a sociedade, essa aí já não sei se tem cura, mano. A gente sempre puxou esse bonde de estar preocupado com coisas que achamos importantes, e me orgulha muito ver um cara como o Rico despontando em várias frentes. E ninguém fala abertamente: se falar, é pelas costas. Porque se falar vai tomar pedrada. O cara é livre. Os preto têm que ser livre. Nóis num pode ser os caras que vai destruir outro mano. O cara tá cantando música de amor, de rua, de festa, tá ligado? Se não é pra ajudar, não fala nada. A Drik, mesma coisa. Ter a Drik, que é uma mina foda, fazendo um verso foda, já chega metendo os dois pés na porta! Tipo, foda-se. Por que eu posso falar “cêis diz que nosso pau é grande, espera até ver nosso ódio” (citando ‘Boa Esperança’) e uma mina não pode falar “vou bater tanto hoje que cês vão sair com medo de buceta” (fazendo referência ao verso da rapper em ‘Mandume’)? Isso é dominar seu corpo, e as mulheres não têm essa mesma liberdade. Elas são educadas para esconder o corpo, tem que sentir culpa. De repente, vem a Drik falando que “cêis vão apanhar tanto que vão ver uma buceta na rua e sair correndo”, isso é foda! Os tempos estão mudando.

É muito comum no rap que exista uma cobrança política dos artistas, que aconteça uma mistura nessas duas vertentes.

Eu lido numa boa, só não acho da hora quando os caras querem cobrar de mim o que não cobram dos prefeitos. De resto acho normal.

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Isso porque você apareceu no vídeo do Fernando Haddad (eleito prefeito da cidade de São Paulo pelo PT em 2012)?

Não, foi mais uma metáfora mesmo, não necessariamente por causa disso. Sabe por quê? Se eu morasse num bairro de playboy memo, se vivesse num universo tão distante do que eu nasci, talvez esse confronto fosse mais frequente, mas não é. Os caras vêm querer falar de política com ideia rasa e dissipa fácil. Só apontar pra rua: ó os caras tomando enquadro. Cê acha mesmo que o problema é a Dilma? É muito mais profundo o debate sobre política na beirada. O Carlos Lyra, se não me engano, fala da diferença do rico e do pobre no Rio de Janeiro: o pobre é político e o rico politizado. Eu tentei colocar em “Levanta e Anda” que “os boy conhece Marx e nóis conhece a fome”. Isso não é uma afronta, e sim uma reflexão do tipo: “Vocês chegaram na ideia de igualdade porque leram e se identificaram com uma ideologia europeia que dizia que a classe operária estava sendo oprimida e o lucro do capital precisava ser distribuído de uma forma mais igual. Nóis entendeu que a igualdade era urgente porque os mano tava com fome.” Não dava pra comer um pedaço de pão sozinho e deixar o mano morrer de fome do lado. Foi assim que aprendemos política. Não foi lendo Trotsky. Por isso me sinto livre e tranquilo. Como eu falo na minha música, entendo que as pessoas querem continuar a conversa. Eu abro o discurso na minha música. O que eu não acho da hora é quando as pessoas querem me colonizar. Quando querem impor uma ideia, sendo que viemos de dois universos diferentes. “Não, você tá errado”, e eu vou na humildade. Eu ouço até o final. Quero ver como chegaram naquele raciocínio – e é uma coisa que não se faz mais. Hoje, se você vestiu vermelho, é porque é comunista.

Você transita por muitos lugares, de maioria branca, onde sofreria preconceito se não fosse o Emicida.

Que fingem que garçom e empregada não existem.

Isso traz benefícios e malefícios para a sua obra?

Eu acho que fico mais exposto do que protegido. A partir do momento em que você passa a significar alguma coisa, é amor e ódio. Ou as pessoas olham pra você como um herói, ou é o vilão. Não diria que isso me protege. Me coloca em situações que eu não estaria, mas acho positivo. Minha mãe trabalhava de empregada e eu ia lá na casa dos playboy. E tinha playboy bunda mole, racista, fazia uma pá de piada comigo e com a minha mãe, e tinha os boy da hora. Teve mano que chegou e falou “ô, Jacira, seu filho desenha! Tem que dar uns lápis pra ele”, e os caras me deixavam lá. Foi nada? Foi nada. Mas pra mim foi importante. Eu sempre cresci com essa pluralidade. Já tive um momento mais radical também, de achar que a culpa era dos brancos, mas algo forte hoje em dia é o diálogo. Eu preciso dele. E por isso preciso estar nesses ambientes, estar em lugares novos. Liga pro Felipe Vassão (produtor musical) e pergunta da primeira vez que eu trombei ele. Só tinha branco no estúdio, falei com ninguém direito. Eu era mó bichinho grilo, tio. No meu universo. Mas pesquisei sobre várias transições que a música negra fez. Seja o samba ou o jazz. Eu não sou tipo Malcom X antes de ir pra Meca. Principalmente no Brasil, tem que ter uma fusão. Minha sobrinha é branca, minha bisavó também. Nóis até zoa isso aí, tipo “ninguém é perfeito né?”

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Essa falta de diálogo está mexendo com os ânimos políticos dos brasileiros?

Nosso debate sobre isso nunca foi muito profundo, aí, num tempo em que o Facebook é tão popular, ficou superficial de outro jeito. As pessoas consomem o que a Veja fala e tomam aquilo como verdade absoluta. Saem batendo, agredindo. Por isso vários artistas não se posicionam. É o seguinte: tem uma responsa muito grande, os políticos. Mas pra você se posicionar? A coisa mais fácil é cometer um equívoco, porque a gente recebe uma educação muito errada. De repente, todo mundo passou a se comportar como se nunca se equivocasse, como o dono da verdade absoluta. Ódio virou sinônimo de inteligência.

Você acha simbólico o fato de a chacina em Osasco e a última manifestação na Avenida Paulista terem acontecido em datas tão próximas?

Sim. E acho extremamente importante refletir sobre como isso reverberou. Há diversos indícios reconhecidos até pelo secretário de segurança que tinha policiais envolvidos. Parece que a grande maioria das pessoas era inocente, e mesmo que fossem culpadas por algo, não deveriam ser exterminadas daquela maneira, porque existe justiça, lei e cadeia. De repente, alguns dias depois você tem uma manifestação da insatisfação do povo brasileiro, né, mas…eu não vejo, mano, essa parada…é uma parcela da sociedade que…porra, sinceramente? O Facebook deu uma coragem pra esses caras. Aí ficam vários minion (em referência ao desenho Meu Malvado Favorito) de amarelo se esbarrando na Paulista. Não é isso o bagulho, tá ligado? É foda! Lembra quando mataram o mano em Pinheiros, por causa do celular? Branco, classe média. Aí precisa ver isso de violência. A violência policial mata todo dia na quebrada. Os caras põem fogo na rua em Ferguson e nóis vê toda semana. E não é que não tenha protesto: tem, mas a mídia não mostra. O Quilombo Xis protesta pra caralho na Bahia, que é um lugar racista. Sudeste, racista pra caralho. Sul, também. O Brasil inteiro. Esses mano emocionado aí que acreditam que a volta da ditadura é a solução, pode vender a balela que quiser. Pra nóis? Que cresceu apanhando de polícia, vendo nossos parceiros serem mortos, com fome, sem arrumar emprego, com os cara rindo de nóis quando fomos entregar currículo, zoando nosso cabelo e cor? Vem falar que o Brasil é dividido agora? O Brasil é dividido desde sempre, mano. Os caras querem mandar nordestino de volta pra lá, dividir o país. Por isso eu botei ‘Baiana’ no disco! São Paulo reverenciando a Bahia. Me odeie mais por isso. É foda, mano. Os únicos que podiam mandar imigrante embora eram os índios.

Na sua opinião, o racismo é menos discutido no Brasil do que nos Estados Unidos?

A maior diferença é que lá não existe um debate sobre a existência do racismo. Aqui existe. Se eu digo que o Brasil é racista, alguém pode questionar: “Será?” Aí você tem um bagulho tipo de Osasco, e tem um viés racista, porque a vida do preto vale menos, e a favela é preta. Ninguém vai lutar pela vida daqueles caras mesmo. Sacou? Por isso eu falo, mano: pra mim, o racismo é o tema mais urgente a ser combatido no Brasil. É muito simples: a escravidão terminou de um jeito todo errado aqui. Você termina com a escravidão de um jeito rancoroso, porque a sociedade brasileira não queria acabar com ela. Princesa Isabel não foi uma benfeitora, não fez uma boa ação. Trouxeram tanto escravo para o Brasil que tinha mais preto do que branco, e não era o continente natural deles. Aí, controlaram isso fingindo que eles eram livres, e todo mundo na rua, sem casa, sem emprego, e começaram a criar essa ideia de “o preto tá jogado no lixo porque não trabalha”. Os caras fizeram a porra do país ser desse tamanho durante quatro séculos e não trabalham? A expressão mais racista e comum no Brasil é “nego isso”, “nego aquilo”. Nunca é pra um bagulho bom. “Neguinho já compra carro e acha que é alguém”, e na cabeça dos pessoas, é o negro. Brasil é foda, mano.

Você é religioso?

Eu não tenho um bagulho definido, de ir num lugar sempre. Às vezes eu vou no terreiro. Admiro muito o candomblé, tem algo de história que me interessa, mas não tenho o hábito de ir semanalmente. Admiro muito o budismo, já fui budista. Minha mãe é um bagulho maluco: favelada, preta, indo no budismo nos anos 90. Pontinho preto no meio de um bando de japonês. E rezava em japonês! Eu sei até hoje. Falava japonês, comecei a aprender. Hoje eu não sei mais ler, mas sei os ideogramas, sílabas, três alfabetos. Se eu pegar mesmo, desenrolo um japonês, jão. E tenho uma admiração bem grande. Gosto desses dois, muito. E respeito todo tipo de fé, não tem essa parada de achar que é a verdade absoluta. Não acho que tem isso.

Qual sua música favorita do álbum novo?

Por muito tempo no último disco eu fiquei em “Levanta e Anda”. Hoje, a que eu mais piro nesse é ‘Mufete’. Ela tem uma energia maior do que nóis, mano! Eu ouço o bagulho e me dá vontade de dar risada. E era o que eu queria com ela. Queria que essa música chegasse em Cabo Verde, Angola, e as pessoas falassem “olha o que ele catou daqui!”. A coisa mais fácil seria tirar foto de favela, pobreza e ver que não tinha esperança. Tentei pegar o bagulho mais bonito, que às vezes nem eles veem. ‘Mandume’ eu gosto demais também. Meu Deus. Tá tipo em loop, eu adoro demais porque é um papo muito sério e os MC arregaçou. Todos. Todo mundo mandou muito bem. Igual perguntar para uma mãe, na frente dos filhos, qual é o mais bonito: “Todos são lindos!”

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