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Nenhum lugar de São Paulo produz tanto grafite maneiro quanto o Grajaú

18/08/2015 18:12 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Enivo, Jardim Lago Azul

“A periferia está num processo constante de transformação e ruína”. A fala é do grafiteiro e artista plástico Mauro Neri, um dos 500 mil moradores do Grajaú, o distrito mais populoso de São Paulo e um dos mais distantes do centro da capital - são 27 km até a Praça da Sé. A frase é uma profecia de fácil comprovação por ali. A cada esquina, vendinha, loja ou casa: tudo começa para não terminar jamais. Tem a ver com estética e arte, mas muito mais com as condições financeiras. É aquela coisa de tentar e nem sempre conseguir.

Fundo verde e rosa, um jovem de pele negra e letras espalhadas aleatoriamente. “Esta aqui usei pincel, rolo e spray”. Enquanto falava orgulhoso sobre como foi executar um de seus murais no Jardim das Gaivotas, Mauro percebeu que um amontoado de tijolos dava sopa poucos metros ao lado. Nem pensou. Interrompeu a conversa e lá foi mais um rabisco para a conta. Para ele, o trabalho faz parte de qualquer caminhada rotineira. Mochila equipada com tinta, pincéis, latas de spray e pinos. Sempre no mais perfeito estado de prontidão. Talvez por isso é tão fácil para quem vive na capital paulista reconhecer o trabalho dele por aí. Da Radial Leste ao Guarapiranga, a provocação “Ver a Cidade”/“veracidade” pipoca aos montes. Se não sabia quem estava por trás delas, agora já sabe onde foi que ela nasceu.


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Mauro Neri e sua mais nova criação



Grafite e pichação estão umbilicalmente unidos naquele extremo da zona sul que dá de frente para a represa Billings. Do outro lado da imensidão d'água dá para ver, ao longe, Diadema e São Bernardo do Campo, outros municípios abraçados pela represa. Wellington Neri, o Tim, é irmão mais novo de Mauro que também carrega no DNA a arte. A fala? Igualmente ágil. “O Grajaú é o lugar com mais grafiteiros e artistas por metro quadrado em São Paulo. Pode pesquisar”. Quem vai rebater quando o ambiente parece comprovar a fala? Quem deu a faísca inicial para que tudo virasse essa potência toda é o que resta saber. Na visão de Tim, o grande desbravador por ali foi Alexandre da Hora, o Niggaz. Aos 13 anos, ainda no ano de 1995, Niggaz já dava a cara a tapa. A qualidade técnica e a sensibilidade fizeram dele uma importante ponte entre periferia e os bairros mais centrais que consumiam a arte de rua. Ele também foi um dos primeiros grafiteiros a colaborar com jornais e revistas.

A trágica partida – Niggaz morreu afogado na represa Billings em maio de 2003, aos 21 anos – deixou marcas profundas entre os mais chegados. Todos os anos, artistas de dentro e fora da região se reúnem para homenageá-lo. No evento mais recente, foram 500 pessoas falando, relembrando e criando arte. Em todos esses anos, pelo menos 1,6 mil artistas já participaram. “Ele era aquele tipo de artista incrível que morreu cedo. E o grafite de São Paulo vinha muito naquela coisa nova-iorquina. Ele quebrou isso”, conta Tim. Como não podia deixar de ser, a arte se desenrola.


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Tim faz o tipo "sincero engraçadão"



A semente plantada décadas atrás insiste em florescer para todos os lados. As marcas de Those, outro filho ilustre do Grajáu - que divide um ateliê com outros quatro artistas -, são facilmente encontradas nas quebrada. “O grafite não tem assinatura. Quer dizer... tem o tipo de arte, de traço de cada artista. Mas tem alguns que assinam até demais (risos)”, brinca o Tim. A assinatura de Those são elefantes estilizados que têm dedos indicadores no lugar onde deveriam estar as trombas.

Mesmo com a cena forte e reconhecida, não é uma missão fácil manter tudo funcionando. Não que os moradores já não estejam acostumados com precisar ralar o tempo todo. Um estudo da Rede Nossa São Paulo colocou o Grajaú na última posição em relação à qualidade de vida na capital. Por falta de atenção do poder público - em todas as esferas -, os moradores tentam se virar. "Precisa de ônibus para levar as crianças até a escola? Alguém consegue o veículo, um arruma e outro assume o volante. As senhorinhas improvisam creches", conta o DJ Ferrugem, outro que movimenta a cultura e até dá aulas de canoagem para os jovens no projeto Meninos da Billings.

No meio disso tudo, o projeto “Transformações, arte urbana e cidadania”, que alia empreendedorismo e revitalização de espaços públicos, surgiu para dar alívio estético ao sufoco cotidiano. Como parceiros, entraram o ateliê Pássaro de Papel e o Imargem, coletivo que abre espaço para novos talentos e promove oficinas culturais. A inciativa abriu os cofres para realizar dez novas intervenções artísticas. Tinta, cachê e toda a infraestrutura necessária foram garantidas. Mauro e Jerry Batista foram os pratas da casa escolhidos para terem murais próprios. Zezão, Titi Freak, Tinho Nomura, Conrado Zanotto, Matias Picón, Alexandre Orion, Enivo e Pas Schaefer completaram o dream team. Todos com largos serviços prestados à arte urbana no Brasil e no exterior.


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Grajaú, de onde nascem os artistas



No mural reservado ao Jardim Lago Azul, a obra sobrou na mão de Enivo. A efervescência cultural pediu espaço e o artista não viu problema nenhum em convidar pichadores e grafiteiros locais para dar uma mãozinha. O jovem negro retratado ali é Caio Cartenum, 20 anos, grafiteiro do Grajaú e criador de um escafandrista que ele explora em performances e nos muros de São Paulo afora. "Percebi que o grafite era uma maneira de poder me expressar", conta ele. Na parte inferior da arte encomendada a Enivo, mais uma participação: "Ânimo... pois somos feitos dos sonhos do tamanho que a gente quiser". A frase de Mano Money's, outro da vizinhança.

Alexandre Orion tem duas marcas pelo Grajaú. Para o “Transformações”, deixou o grafite de lado e apostou no lambe-lambe para forrar e decorar as fachadas das bancas da feira de frutas e vegetais existente por ali. Mais conhecido pelos grafites feitos com tinta mesclada à fuligem retirada de túneis da capital, Orion utilizou a técnica especial para retratar a própria filha “brincando de casinha” com a favela. A obra “Apreensão”, que tem 15 metros de altura por 32 metros de largura, levou de três a quatro semanas para ser concluída numa das fachadas internas do CEU Navegantes e foi feita numa parceria com a prefeitura durante a Virada Sustentável. Para este ano, a presença dos grafiteiros já está confirmada novamente no evento.


Mural do Mauro para o "Transformações"



Na entrada do Jardim Eliana, de frente para uma atribulada rotatória, foi o espaço utilizado por Jerry Batista, artista experiente, que rodou a Europa, mas fixou terreno na Vila Madalena, onde toca a Galera A7MA. Na imagem principal pintada por Jerry, uma canoa que poderia ser também uma casca de nozes. Zezão, por sua vez, deixou suas obras características, com suas ondas estilizadas.

Quem vive do grafite já está acostumado com acordar um belo dia e ver sua obra "atropelada" por pichadores ou outros artistas. Diferente da arte acadêmica, não dá para esperar louvação eterna aos trabalhos feitos na rua. O sol, a chuva e as condições climáticas por si já são barreiras suficientes para a manutenção da qualidade das pinturas. A natureza não dá espaço. E, claro, entra também a disposição dos moradores, que num belo dia podem acordar e, de saco cheio da arte alheia, passar a tinta por cima de tudo e acabar com a festa. A diferença é que no Grajaú a chance de uma parede permanecer intacta e morosamente homogênea por muito tempo é bastante reduzida. Pode ter certeza.

  • André Murched / Brasil Post
    Alexandre Orion, CEU Navegantes
  • André Murched / Brasil Post
    Those, Jd. Lago Azul
  • André Murched / Brasil Post
    Jerry Batista, Jd. Eliana
  • André Murched / Brasil Post
    Matias Picón, Jd. Gaivotas
  • André Murched / Brasil Post
    Tinho, Jd. das Gaivotas
  • André Murched / Brasil Post
    Conrado Zanotto, Jd. das Gaivotas
  • André Murched / Brasil Post
    Pas Schaefer, Cantinho do Céu


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