MULHERES

Por que os atletas devem usar a fama para desconstruir e expor racismo e desigualdade de gênero

17/08/2015 19:59 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Depois do quarterback do Ohio State, Cardale Jones, começar a tuitar sobre o #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam, em tradução livre) na quinta-feira, alguém respondeu dizendo que o atleta universitário no Twitter só "deveria preocupar em conseguir um outro campeonato para os fãs… fique fora de toda essa parada sem sentido."

Jones rapidamente deu sua própria opinião e o debate migrou da questão dos afro-americanos e as agressões policiais para saber se ele, como atleta, deveria ou não estar apto para dar seu parecer em qualquer questão social.

Jones, um jovem negro, tem todo o direito de falar sobre #BlackLivesMatter. Ele pode falar sobre a eleição de 2016, ele pode falar sobre a violência doméstica, ele pode falar sobre a economia, ele pode falar sobre o ISIS ou o acordo nuclear do Irã.

Pois, de fato, no momento em que Jones arremessa com sucesso um passe para o touchdown, isso não significa que ele deva sacrificar a sua voz.

E, mesmo assim, quantas vezes atletas como Jones são orientados a só "serem esportistas" ou "ficarem fora da política."

Completar um percurso, fazer uma cesta de três pontos, servir com um ace, ganhar a Copa do Mundo ou o campeonato da NBA não significa que essa seja a única coisa que eles devem fazer. Se eles sentem a necessidade de falar sobre problemas sociais, eles devem ser incentivados e não controlados. Estes atletas são humanos e sofrem os efeitos - às vezes até mesmo mais do que o normal - de muitos desses temas. Como Jones, por exemplo, e muitos outros atletas negros que estão frequentemente sujeitos à violência e à injustiça antes que eles atinjam as ligas esportivas profissionais.

Deveríamos agradecer a plataforma que os atletas têm, as suas próprias experiências e suas habilidades de se conectarem com as pessoas - usando o apelo de suas carreiras - em uma escala mais ampla do que os nossos próprios políticos ou representantes.

Ou, como alternativa, os atletas podem se conectar com uma comunidade que tenham compartilhado dificuldades semelhantes, e fornecer uma voz que não é muitas vezes ouvida na conversa nacional. Como Jones, que é de Cleveland, Ohio, e cursou o ensino médio a apenas 20 minutos da escola primária frequentada por Tamir Rice, o garoto de 12 anos que foi morto a tiros por um policial em novembro do ano passado.

Ou o atacante do New York Knicks, Carmelo Anthony, que se juntou a manifestantes em abril após a morte de Freddie Gray, em Baltimore, Maryland, onde o jogador cresceu.

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O atacante do New York Knicks, Carmelo Anthony, no centro, marcha até a Prefeitura de Baltimore para protestar contra a morte de Freddie Gray, em 30 de abril de 2015. (AP Photo / Patrick Semansky)

Ou o armador do Washington Wizards, Bradley Beal, que cresceu a 10 minutos de Ferguson, Missouri e conhecia Michael Brown, de 18 anos, que também foi morto a tiros pela polícia em agosto do ano passado.

Todos estes atletas têm opinado sobre as mortes de homens e mulheres negros desarmados pelas mãos da polícia. Eles devem continuar e mais, devem se juntar a eles como os jogadores do NBA e da NFL fizeram quando vestiram camisetas "I Can’t Breathe” (“Eu não consigo respirar", em tradução livre) após a decisão do júri, em dezembro passado, de não acusar um oficial de polícia pela morte do nova-iorquino New Yorker Eric Garner. Ou quando o St. Louis Rams ergueu as mãos em solidariedade à cidade de Ferguson.

Para muitos destes atletas, estas não são apenas manchetes, elas são algo que eles têm visto e experimentado em primeira mão.

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Os jogadores do St. Louis Rams levantam os braços pela consciência dos eventos em Ferguson, Missouri, enquanto andam pelo campo antes de um jogo do NFL contra o Oakland Raiders, em St. Louis no dia 30 de novembro de 2014.

(AP Photo / LG Patterson, Arquivo)

Mas não é apenas a questão da violência policial - é o racismo, é a violência doméstica, é a igualdade de remuneração, é o casamento do mesmo sexo, é a violência armada nas cidades do interior.

É Khris Middleton falando sobre a questão do terrorismo doméstico e do racismo ainda muito aparente nos Estados Unidos, que atingiu sua cidade natal, Charleston, Carolina do Sul, com o massacre na Igreja Emanuel AME.

É Hope Solo, Alex Morgan e Venus Williams falando sobre a questão da igualdade de remuneração para as mulheres em comparação aos homens, seja na Copa do Mundo, em Wimbledon ou em outras profissões fora do esporte.

É o ex-campeão de boxe peso-pesado Vitali Klitschko liderando manifestantes durante o Euromaidan contra a liderança da Ucrânia - uma causa que o levou a abandonar o seu título e perseguir a política em seu país.

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Vitali Klitschko, no centro, aborda manifestantes perto das barricadas que pegam fogo entre a polícia e manifestantes no centro de Kiev, Ucrânia. É o jogador central do Chicago Bulls, Joakim Noah que conversa com seus colegas de equipe Derrick Rose e Taj Gibson sobre como os dois perderam amigos para a violência armada em Chicago e Nova York, respectivamente.

É Ronda Rousey candidamente compartilhando sua visão sobre as expectativas irreais das mulheres com a imagem corporal após ela posar para a Revista ‘ESPN Body Issue’ e para a da edição da Revista Sports Illustrated Swimsuit. Ou falar sobre Floyd Mayweather e o problema com a violência doméstica.

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Ronda Rousey comemora após derrotar Cat Zingano na UFC 184 que mistura artes marciais e luta peso galo pela disputa do título em Los Angeles. Rousey em 28 de fevereiro de 2015.(AP Photo / Mark J. Terrill, Arquivo)

É Jason Collins se declarando o primeiro homem gay a jogar na NBA e, em seguida, apoiando o casamento do mesmo sexo e os direitos homossexuais.

Ou o cornerback do Pittsburgh Steelers, William Gay, cuja mãe foi baleada e morta pelo seu padrasto quando ele era uma criança, discutindo Ray Rice e a violência doméstica na NFL.

Estes atletas fortaleceram a conversa e informaram muitas pessoas, que de outra forma poderiam não saber que a seleção de mulheres dos EUA recebeu 2 milhões de dólares por um título da Copa do Mundo de Futebol contra os 35 milhões de dólares da Alemanha, para vencer o torneio masculino.

Esperamos que eles também sirvam para influenciar a opinião pública ou aumentar a conscientização como fez Magic Johnson, lenda do basquete que falou sobre seu próprio diagnóstico de HIV em 1991, quando muitas pessoas simplesmente viam isso como uma epidemia tabu que apenas afetava a comunidade gay.

"Não existe melhor maneira de demonstrar que o HIV é um vírus que pode atacar qualquer um do que um dos atletas mais eletrizantes da América reconhecer que ele foi infectado", escreveu Michael Specter sobre a declaração de Johnson no New Yorker no ano passado.

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Nesta foto de arquivo, de 07 de novembro de 1991, Magic Johnson revela seu diagnóstico de HIV durante uma coletiva de imprensa em Los Angeles. (AP Photo / Craig Fujii, Arquivo)

Se você concorda com as suas posições ou não, a voz de um atleta pode oferecer uma incomparável plataforma e perspectiva e, portanto, uma valiosa forma de incentivo. É hora de parar de pensar que o valor dos atletas deve ficar limitado aos seus talentos em campo.

Porque, acredite ou não, um esportista pode nocautear um adversário e defender causas sociais.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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