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Polícia Militar de SP já matou quase 500 pessoas em 2015 e mortos em chacinas já superam os de 2014, apontam entidades

17/08/2015 12:30 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Estadão Conteúdo

A morte de 18 pessoas na semana passada na Grande São Paulo e a suspeita de execuções praticadas por policiais é a realidade de um quadro já conhecido de letalidade policial no Estado. Quem mostra isso são os números oficiais, divulgados não só pela Secretaria de Segurança do Estado de SP (SSP), mas também pela Ouvidoria das Polícias do Estado e pelo Instituto Sou da Paz.

Em entrevista ao Brasil Post, o ouvidor estadual Julio Cesar Neves informou que, com base em números oficiais da SSP, já foram registradas 494 mortes atribuídas apenas a policiais militares de São Paulo nos primeiros sete meses de 2015 – o que corresponde a pouco mais de duas mortes por dia no Estado. A Ouvidoria tem um número um pouco menor (454), porém não menos alarmante (a entidade não computou, por exemplo, as vítimas de chacinas no seu número).

“A gente está sempre lutando contra isso (letalidade policial), mas não vemos isso. Acredito que todo mundo precisa observar o que está acontecendo e discutir formas de diminuir e acabar com essa alta taxa de mortos. É abominável ter esses números. O policial está aí para resguardar a vida das pessoas, mas o que acontece é o oposto”, avaliou Neves.

De acordo com reportagem desta segunda-feira (17) do jornal Folha de S. Paulo, também tomando por base números oficiais da SSP, o número de mortos em confronto com policiais em SP é o maior em dez anos, com um crescimento de 10% em relação a 2014, ano este no qual quase 1 mil pessoas foram mortas pela polícia no Estado – outro recorde negativo.

“Se você tem uma alta letalidade, cria um ambiente favorável. É aquela lógica do confronto. Se é matar ou morrer, então vamos matar logo. Se já no trabalho ou fora dele”, disse ao jornal o sociólogo Renato Sérgio de Lima, que integra o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No fim da semana passada, o Instituto Sou da Paz divulgou que os números de chacinas no Estado de SP não tiveram um aumento substancial, enquanto “o número de chacinas registradas na capital paulista dobrou no primeiro semestre de 2015 e o total de vítimas triplicou em relação ao mesmo período de 2014”. Até semana passada, foram 56 mortos em chacinas na Grande SP, contra 49 em todo o ano de 2014.

“A maior redução dos homicídios no Estado de São Paulo se deu quando foi priorizada a repressão aos grupos de extermínio e chacinas. O número de mortos - potencialmente causado por um mesmo grupo - é assustador e precisa de uma resposta rápida para este caso pontual (chacina de Osasco) e de medidas estruturantes e preventivas para que outros eventos como este sejam banidos definitivamente da rotina de São Paulo”.

Nota pública: As chacinas de Osasco e Barueri não podem ficar impunesAs chacinas ocorridas ontem em Osasco e Barueri...

Posted by Sou da Paz on Sexta, 14 de agosto de 2015


A reportagem do Brasil Post entrou em contato com a SSP, para obter a confirmação dos números informados, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Chacina de Osasco de 2015 relembra 2012 e 2013

Desde 2012, três chacinas registradas em Osasco deixaram um saldo de 17 mortos e ‘coincidências’. Em todas elas, um PM foi morto ou quase foi executado apenas dias antes das execuções. Nos casos do passado, os suspeitos são policiais militares, os quais seguem sem julgamento até hoje. Das quatro teorias apresentadas pelo secretário estadual de Segurança, Alexandre de Moraes, três apontam para o possível envolvimento de PMs na mais recente das chacinas.

Amigos, me solidarizo com os familiares das vítimas de Osasco e Barueri e afirmo que faremos todos os esforços necessá...

Posted by Alexandre de Moraes on Sábado, 15 de agosto de 2015


Em julho de 2012, oito pessoas foram assassinadas em um intervalo de três horas na região onde ficam os bairros Jardim Rochdale, Mutinga e Munhoz Júnior. O Palmeiras havia acabado de conquistar o título de campeão da Copa do Brasil. Os locais são os mesmos onde ocorreram 15 das 18 mortes na noite de quinta-feira.

Os investigadores identificaram dois policiais militares como suspeitos pelas execuções e ambos trabalhavam no 42.º Batalhão, que faz o patrulhamento dos locais onde ocorreram os ataques. Segundo as apurações, dois dias antes das mortes, um PM foi vítima de tentativa de homicídio e, por isso, colegas da corporação se vingaram. Um policial está preso preventivamente, e outro, foi indiciado e aguarda o julgamento em liberdade.

Quatro meses depois, o Jardim Rochdale foi palco de outra chacina. Dessa vez, 11 pessoas foram baleadas em uma festa de aniversário de uma criança com 40 convidados. Entre os quatro mortos, estavam um pai de 31 anos e seu filho de 5 anos. Alguns dos baleados já haviam sido presos. Dias antes, policiais pesquisaram os antecedentes criminais de algumas das vítimas. Dois PMs foram acusados do crime, mas não foram ainda julgados.

E, em fevereiro de 2013, cinco pessoas foram executadas - novamente no Jardim Rochdale. A polícia apurou que homens em um carro preto escoltados por duas motos executaram as vítimas. Dias antes do crime, O PM Luiz Carlos Nascimento Costa havia sido morto a tiros quando saía de uma farmácia.

Segundo o promotor de Justiça Arual Martins, é muito difícil condenar policiais criminosos porque parte da sociedade ainda aceita o crime quando a vítima tinha antecedente criminal. "Para alguns, a polícia, por mais bandida que ela possa se mostrar, será o mocinho por ter dado uma resposta à insegurança. Quando, na verdade, o policial criminoso é muito pior que o criminoso comum. O policial passa a agir em nome do Estado e continua cometendo crimes."

Voltando ao caso mais recente, dois policiais militares que trabalhavam diretamente com o cabo Avenilson Pereira de Oliveiraassassinado no dia 7 de agosto em Osasco – devem ser chamados no começo da semana para prestar esclarecimentos à força-tarefa que investiga a maior chacina do ano no Estado. Os investigadores já sabem que houve troca de mensagens entre PMs na véspera da chacina da semana passada.

Duas testemunhas foram ouvidas já na noite de quinta-feira. No final de semana, a SSP divulgou que o Instituto de Criminalística localizou um novo tipo de calibre nos projéteis encontrados nos locais das mortes: cápsulas de pistola .45. Os atiradores também utilizaram armas calibre .38, 380 e 9 mm.

Os policiais já têm novas imagens de câmeras de segurança que mostram as placas dos carros dos criminosos. Um trabalho de limpeza de imagem está tentando identificar as letras e números. Em alguns ataques, os mesmos atiradores que usavam máscaras apareceram com os rostos à mostra. O trabalho de identificação dos assassinos também já começou. O material não foi divulgado para não atrapalhar as apurações.

Deputados tentarão CPI da Violência Policial

A Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou na semana passada requerimentos para que audiências públicas sejam realizadas na Casa. O foco é debater com a sociedade e com autoridades os homicídios e abusos cometidos pela Polícia Militar no Estado. Em um dos requerimentos aprovados, está a convocação do secretário Alexandre de Moraes e do comandante-geral da PM de SP, coronel Ricardo Gambaroni, para prestarem esclarecimentos.

“A sessão para aprovação desses requerimentos foi bem conturbada, mas conseguimos aprová-los. Não podemos tolerar qualquer ação que ocorra à margem da legalidade e do respeito aos direitos humanos. A polícia existe para cumprir a lei”, disse ao Brasil Post a deputada Beth Sahão (PT), autora dos pedidos e vice-presidente da CDH na Alesp. Ela lamentou ainda a existência de “grupos de extermínio”, como se suspeita ser o caso em Osasco.

Além disso, a oposição na Alesp tentará, mais uma vez, emplacar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a violência policial no Estado. A iniciativa, já tentada em legislaturas anteriores, nunca vingou por conta do caráter minoritário dos opositores aos últimos governadores de SP na Assembleia. “É difícil, às vezes o deputado assina, sofre forte pressão do governo, e acaba retirando depois”, concluiu Beth Sahão.

Outros convidados para as audiências na CDH serão o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, Martim de Almeida Sampaio; a fundadora do Movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva; o jornalista André Caramante, do site Ponte; e o ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Julio Cesar Neves.

As datas das audiências serão definidas nesta semana pela CDH.

(Com Estadão Conteúdo)

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