ENTRETENIMENTO
17/08/2015 16:30 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Após o trailer bizarro de 'Black Wake', uma entrevista que leva a Nana Gouvêa a sério

Reprodução

Na tela, cientistas se reúnem para estudar casos de demência seguidos de morte e assassinatos que estão acontecendo em cidades costeiras dos Estados Unidos. Filmagens de arquivo, aparentemente amadoras, tremem criando suspense. Uma mulher-zumbi beija um homem que só se dá conta das consequências instantes depois. A descrição é baseada no teaser de Black Wake, um novo filme de zumbis (mais um deles), mas acabou rendendo entre os brasileiros mais comentários nas redes sociais do que o de costume. O motivo: Nana Gouvêa.

A atriz brasileira, que já transitou por diversos universos do entretenimento (da banheira do Gugu à capa de revistas masculinas, passando por novelas e minisséries da Globo), está acostumada a ter seu nome exposto na internet – críticas, chacotas, montagens e notícias espalhadas por diversos portais e blogs não são novidades.

Aos 40 anos, Nana parece bem resolvida quanto a isso. De Nova York, onde mora atualmente, ela falou sobre as piadas que surgiram na época do furacão Sandy, da carreira construída no Brasil e, claro, sobre ‘Black Wake’ e seus próximos projetos no cinema. Spoiler: Nana Gouvêa apoia as ciclofaixas.

Do que se trata Black Wake?

É um thriller de ficção científica que se passa em Nova York. Eu faço o papel de uma cientista que está investigando, junto à equipe, vários casos de demência seguidos de morte ou assassinatos que estão acontecendo nos arredores do Oceano Atlântico. No começo, quando o governo reúne esse grupo para descobrir o que está se passando, imagina-se que o responsável pelas mortes é um serial killer, mas percebem depois que não é. A teoria da minha personagem diverge das teoria dos outros colegas, e é aí que começa o conflito do filme. Ele foi rodado num esquema diferente, trazendo um formato de arquivo de evidências, e minha personagem está documentando todo o estudo.

É sua estreia no terror. Qual é o filme mais marcante do gênero, na sua opinião?

Poltergeist! Ninguém nunca esquece.

E como foi o processo de produção do filme?

Ele começou a ser produzido em abril. Na verdade, eu entrei para esse projeto através de um teste que fiz para outro filme. Cheguei até a fase final, mas era para fazer o papel de uma personagem milenar, e aí meu sotaque de brasileira impossibilitava isso.

Milenar?

Sim, milenar. A personagem era uma vampira que viveu mil anos. Como meu sotaque está relacionado ao Brasil, não daria certo. Ninguém nascido no Brasil pode ter mais de mil anos de vida. Eu ainda tenho sotaque e dá pra reconhecer que é de brasileiro.

Eric Roberts e Tom Sizemore estão no elenco, certo? Como é essa experiência com eles?

Sim, e tem o Jonny Beauchamp também, que fez Penny Dreadful, está em ascensão. Quanto maior a estrela, mais simples ela é. Eu já tinha uma noção disso no Brasil, de como lidar com celebridades brasileiras, nas novelas que fazia pela Globo. O famoso novo é a coisa mais chata que existe: aquele atorzinho que fez a primeira novela dá uma pirada, acha que o mundo está aos seus pés. Acaba a novela, a mídia para de dar bola. Depois da terceira novela ou filme, a pessoa já começa a perceber que aquele é apenas um trabalho. Foi uma delícia gravar com o Eric Roberts. O cara é um boa praça, um bonachão, fofo, querido, que conversa, conta causos, piadas… Ele é ótimo, sabe? O cara retuitou um monte de coisa minha.

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Você tem vindo para o Brasil? Está nos planos lançar o filme por aqui?

Isso está sendo conversado. Agora, estamos tentando terminá-lo. Um passo de cada vez. Também estou envolvida em outros filmes, é um processo longo.

Quais são esses outros projetos?

Eu farei um filme junto com o Clark Middleton, que está dirigindo e estará em algumas cenas. Vou interpretar a esposa do Orson Welles. Gravaremos esse em setembro, e no outro, uma comédia-romântica, faço uma babá, mas não estou tão envolvida porque só começaremos as filmagens lá por outubro.

Seus trabalhos da época de modelo ficaram para trás?

Eu só fui modelo na adolescência, dos meus onze anos até os dezesseis, dezessete. Por eu ter posado nua, as agências de modelos fecharam as portas para mim. Eu fui tratada com um preconceito absurdo. Hoje em dia, quando alguém me chama de modelo, me ofendo profundamente. Eu nunca mais fui modelo. Eu fui atriz, rainha de bateria no carnaval, capa da Sexy, da Playboy, mas modelo? Nunca. E não gosto. Acho extremamente ofensivo quando você olha uma mulher, chega para uma atriz e a chama de modelo. Tem uma má intenção. “Nana Gouvêa? A modelo?”. Pra não chamar de…enfim, é pejorativo. Desrespeitoso. E eu não sou. Nem modelo, nem ‘piii’ (simulando o apito que impede que palavrões sejam ditos na televisão).

O que você acha da repercussão do filme, que acabou sendo puxado mais pro lado do humor, da chacota?

Nada me ofendeu como ser humano, como mulher. Acho engraçado, feito com carinho. Alguns são, sim, pejorativos, mas aí você meio que lê no subtexto o mau-caratismo da pessoa que escreveu. Eu sou muito madura. Tenho 40 anos de idade. Não sou uma garotinha adolescente que não sabe distinguir o que é hater do que é…não hater.

Qual foi sua reação com a repercussão daquelas fotos tiradas no furacão Sandy?

Achei graça de alguns memes, mas de outros não. Quando envolviam tragédias reais, não gostei. Não acho bacana quando envolve realidade. Mas quando eles me colocaram, sei lá, dando um prato de salada para o Darth Vader, acho o máximo! Tem coisas que são muito engraçadas e outras de mau gosto. Pelo que eu vejo, e te confesso que não vejo muito, o humor no Brasil está meio doente. Um humor que denigre o homossexual, que denigre a mulher bonita, o financeiramente desfavorecido. Não tem necessidade disso.

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É preciso buscar trabalhos fora do país para obter reconhecimento?

No Brasil é muito difícil. Tem muita política para conseguir os melhores trabalhos, os melhores personagens, sabe? Mas, ao mesmo tempo, eu criei minhas filhas com muita dignidade e não sou nenhuma desconhecida no Brasil, e não tive que fazer teste de sofá, nunca transei com diretor, nada disso. Se é possível? Acho que sim. Não tem que vir para cá. Eu vim para os Estados Unidos porque casei! Eu não abandonei meu país, meu trabalho no Brasil. Eu estava muito bem. Muito feliz. Eu tinha acabado de fazer ‘Araguaia’, e foi um personagem que gravei de burca! Ganhei por causa da bunda? Não! Tem condição, sim. Mas eu acho que as pessoas estão muito sem esperança e é mais fácil reclamar, culpar os outros.

Você aceitaria algum convite para trabalhar no Brasil com filmes ou novelas?

Claro!

Quais são suas coisas favoritas de se fazer em Nova York?

Quando o clima está decente, para mim não tem nada mais gostoso que andar na beira do rio Hudson. Gosto de ir lá e passear. E no inverno fico trancada em casa! E quando estou com pressa, vou para meus compromissos de bicicleta, sabe? Eu meio que vivo, hoje em dia, no mesmo ritmo que os moradores daqui.

Você anda muito de bicicleta por aí?

Ando!

São Paulo vive uma polêmica bem grande hoje por conta de ciclofaixas.

Tudo aqui é feito por bicicleta. Você tem o pavimento de passeio, de bike path e a rua, dos carros. E a bicicleta, aqui, é um veículo como qualquer outro.

Você acha que é bom para uma cidade ter isso?

Acho perfeito, maravilhoso. Andar de carro em Nova York é para turista ou para quem mora em New Jersey. O tráfego aqui é muito caótico, tanto quanto São Paulo, talvez, e eu pego minha bicicleta e vou para onde preciso. Em dez minutos dá para atravessar a cidade. Eu moro no centro de Manhattan, então é muito fácil para mim. Faço um trajeto de bicicleta em 20 minutos que demoraria mais de uma hora. A questão da bicicleta faz bem para cidades. Falo para meus amigos do Rio pedalarem, e eles reclamam. Eu uso salto alto de bicicleta! Encaixo o salto no pedal e vou embora. E você vê muitas mulheres aqui, muito bem arrumadas, cabelo feito, pedalando. Todas na grife atravessando a cidade. Caras engravatados. É isso, minha gente.

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