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Como oficinas de maquiagem estão devolvendo autoestima de mulheres com câncer

14/08/2015 18:17 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação ABIHPEC

A silenciosa sala do prédio próximo à Santa Casa estava composta por sete mulheres sentadas em volta da mesa central, todas com o mesmo objetivo. Tímidas no começo, se soltaram com o andamento da oficina, ficando à vontade para tirar perucas e lenços à medida que a assistente de projetos Eduarda dos Santos e a maquiadora voluntária Elisângela Deo quebravam o gelo do encontro.

Com o kit de maquiagem em uso, a postura mudou, e elas se transformaram. Os olhares assustados passam a brilhar com a certeza de que ao menos uma parte do dia seria boa. Todas sairiam do local mais confiantes, mais femininas, mais capazes, apesar da doença.

Criado há 25 anos nos Estados Unidos, o projeto “Look good — feel better”, da Personal Care Products Council, foi importado para o Brasil em 2013 com o nome “De bem com você — a beleza contra o câncer”.

Trata-se, aqui, de uma iniciativa do Instituto ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene, Perfumaria e Cosméticos), que reúne os fabricantes desse setor.

Uma série de oficinas de maquiagem é dirigida a mulheres em tratamento contra o câncer.

São utilizados produtos de beleza e cosméticos para que a mulher possa trabalhar a aparência e, com isso, recuperar autoestima e motivação, com efeito positivo no tratamento.

Para o projeto alcançar mulheres da periferia, a ABIHPEC buscou parcerias com o SUS. Hoje, 95% das oficinas ocorrem em hospitais públicos e visam a ajudar pacientes que não teriam como comprar determinados produtos de maquiagem.

A mudança nelas

Diagnosticada com câncer de mama, a aposentada Nair de Jesus Pechutti sentiu-se mais forte após passar pelas aulas de maquiagem. "Eu gosto de fazer surpresas", contou, quando questionada sobre a opinião da família em relação às oficinas. "Eles ficaram sabendo no dia que eu precisava fazer a ‘quimio’. Não quis acompanhamento de ninguém", completou.

Com mais de 70 anos, Nair não gosta de sentir que está incomodando os outros. Confiante no rumo do tratamento, não vê a hora do fim das sessões de quimioterapia. “Acho que a cirurgia está marcada para junho e, se Deus quiser, vai terminar tudo logo.”

Rosa Aparecida Julião também estava muito empolgada por ter aprendido novas técnicas de maquiagem que cobrissem o efeito do tratamento e diferentes amarrações com os lenços. O projeto mudou seus hábitos diários. “Faz mais de dois anos que eu não faço uma maquiagem, mas a partir de agora vou fazer todos os dias.”

Quando foi diagnosticada com câncer de colo e reto, chorava todos os dias, mesmo tendo “uma cabeça razoável”. Agora, o sentimento é outro. “[As oficinas] ajudam muito as pessoas, porque você fica muito para baixo... Vou usar os lenços para sempre.”

A psicóloga Lola Andrade, especialista em pacientes oncológicos, confirma o êxito desse tipo de ação, com o devido suporte familiar:

"Acreditamos que o paciente que tem melhor autoestima, que está mais confiante, se recupera melhor e mais rápido da doença. (...) O papel [da família] é de acolhimento, aquilo que a gente brinca e fala em 'colinho de mãe'. A família precisa ter um certo parâmetro para não pressionar nem largar demais."

Porém há quem tenha receio e resistência à mudança no visual. Nem todas participam das oficinas porque querem, mas por recomendação médica ou psicológica. Afinal, depois do choque do diagnóstico, do tratamento e da reação de familiares e pessoas próximas, abrir-se para desconhecidos é um processo que não pode ser apressado.

Ao se deparar com outras mulheres na mesma situação, a empatia prevalece. E o que fica claro é que todas saem do local mais motivadas.

Também se tratando de tumor nas mamas, Cleusa Miraci Gomes Teixeira enfrenta dificuldades para falar deste período. Participar do projeto “De Bem com Você” foi um alento para ela. “Só de estar aqui falando com as pessoas já vale a pena, porque tira o foco dos pensamentos negativos, que são muitos.”

A Beleza contra o Câncer


Como funcionam as oficinas

As oficinas são organizadas em espaços cedidos pelos hospitais públicos, uma vez por mês. Elas costumam durar três horas e atendem de oito a 12 mulheres, para que todas possam ser bem cuidadas.

Contam com um maquiador e um ou dois assistentes, que costumam ser voluntários recrutados pelo instituto.

Nas oficinas, o hospital tem duas funções: ceder o espaço e convocar as pacientes, que ficam sabendo por meio da enfermaria de tratamento de câncer ou por cartazes espalhados no ambiente.

Quando chega o dia da autooficina, a paciente assina um termo de participação e outro de autorização do uso de imagem, para que as fotos sejam postadas na página do Facebook do projeto.

Interessadas devem se inscrever no site do "De bem com você".

A meta do “De bem com você” é chegar em 2020 com 20 mil pacientes atendidas. Se hoje o único estado atendido é São Paulo, haverá em breve expansão para outros estados. Bahia, Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais são os próximos objetivos da organização.