NOTÍCIAS

Flúor faz bem ou mal? Conheça o movimento antifluoretação

12/08/2015 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
iStock

"Mandrake, você já se perguntou por que eu só bebo água destilada? Já ouviu falar em fluoretação da água? Você entende que a fluoretação é a armação comunista mais monstruosa e perigosa que já tivemos de enfrentar?"

No clássico Doutor Fantástico (1964), de Stanley Kubrick, a adição de flúor na água é uma estratégia de dominação mundial pelos comunistas. É uma sátira da paranoia da Guerra Fria, claro.

Mas a verdade é que o flúor sempre foi alvo de controvérsia.

Desde os anos 50, grupos antifluoretação dos Estados Unidos advogam a ideia de que fluoretar a água é obrigar a população a se envenenar lentamente. O Fluoride Action Network e a ultradireitosa John Birch Society são duas das agremiações mais ativas.

Aqui no Brasil, a discussão veio à tona depois que Bela Gil disse julgar o flúor um "porcarito". Ela recomendou a substituição da pasta de dente por cúrcuma em pó, assim como se faz na medicina ayurvédica.

Por um lado, ela foi ridicularizada por seu pensamento "anticientífico", que contradiz as recomendações da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde.

Por outro, foi elogiada pela coragem de desafiar um consenso científico que seria patrocinado pela indústria de produtos dentários.

O flúor em outros países

Hoje, a fluoretação da água é indicada por grandes órgãos de saúde pública do mundo como forma eficiente de diminuir as cáries da população.

"Países como os EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia fluoretam a água. O Centro de Controle de Doenças, dos Estados Unidos, considera a fluoretação uma das maiores realizações da saúde no século 20, junto com as vacinas e o planejamento familiar", defendeu Marco Manfredini, secretário-geral do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, em entrevista ao Brasil Post.

O ideal, é claro, seria que cada pessoa fosse ao dentista e fizesse um tratamento dentário individualizado. Mas como o acesso a dentistas não é universal, coloca-se flúor na água que todo mundo bebe para "socializar" a saúde bucal.

Para isso, é preciso tirar uma "média" que considere as peculiaridades de cada população e possibilite o máximo de benefício com o mínimo de risco. Por isso, a dose utilizada muda de país para país e vai sendo adaptada de tempos em tempos.

"Em Hong Kong, onde se toma muito chá, por exemplo, o teor de flúor na água é menor do que você tem no Brasil, porque o chá concentra mais o flúor", disse Manfredini.

Principais problemas

Mesmo embasada cientificamente, a fluoretação da água esbarra em dois obstáculos.

Primeiro, nem sempre o controle da quantidade do flúor na água é feito da forma correta pelas agências de saneamento.

Divulgado nesta terça (11), o maior levantamento sobre fluoretação de águas feito até hoje no mundo aponta que quase 30% da água do estado de São Paulo está errada. Metade tem flúor demais, metade tem flúor de menos.

O segundo problema é que a água não é a nossa única fonte de fluoretos.

Frutas e verduras, além de naturalmente serem dotadas de flúor, são regadas com água fluoretada. Pastas de dente e enxaguantes bucais também têm concentrações razoáveis da substância.

Então, essa sobreposição pode estar fazendo a gente ingerir flúor em demasia.

Mas afinal, flúor faz bem ou mal?

"Profissionais de saúde estão aceitando e incentivando a medicalização compulsória da nossa água, não importando a dose -- há quem tome vários litros de água ao dia --, a idade -- inclusive bebês e até fetos através da mãe -- e o estado de saúde de cada indivíduo", disse Alexandre Feldman, clínico-geral especializado em medicina do estilo de vida.

Feldman nada contra a corrente. A maior parte da comunidade científica concorda que os efeitos colaterais da fluoretação da água são relativamente baixos se confrontados com seus benefícios.

De acordo com Manfredini, as consequências da ingestão excessiva de flúor não vão muito além de manchas brancas nos dentes -- a chamada fluorose dental.

"Temos evidências. Em 1986, as crianças no Brasil tinham sete dentes cariados. Em 2010 esse índice caiu para dois. Temos índices de cidades menores de um. A associação do flúor tem sido eficaz, portanto, no combate à cárie dentária", afirma.

Para evitar a fluorose, que afeta principalmente crianças, ele recomenda o uso de pouca pasta de dente. No caso de crianças de menos de cinco anos, por exemplo, a orientação é aplicar o creme dental de forma perpendicular à escova.

Já os antifluoracionistas consideram que o flúor pode causar câncer ósseo, acelerar a osteoporose, afetar o funcionamento da tireóide e acarretar sérios problemas neurológicos.

"O patrulhamento é grande, porém o fato é que flúor é a substância mais reativa da tabela periódica, portanto a mais tóxica. Ocupa o lugar do iodo na tireoide, é uma neurotoxina responsável por diminuir o Q.I., entre outros problemas. Mas ai de quem levantar o mínimo questionamento", opinou Feldman.

O que dizem os estudos científicos

Essas ideias não vêm do nada. Quando Bela Gil falou contra o flúor, muitos dentistas disseram que não havia um estudo sequer que indicasse que os fluoretos podem ser perigosos. Erraram. Há vários. Alguns deles apontam, inclusive, que o flúor pode não fazer diferença na prevenção de cáries.

No mundo da ciência, porém, uma verdade não se cria da noite para o dia. É preciso confirmar e reconfirmar um resultado muitas e muitas vezes para encará-la como um fato.

"Temos efetivamente hoje no mundo moderno setores naturalistas que são contra vacina, contra o flúor... Mas se houvesse efetiva prova de algum problema decorrente da sua utilização, todas as instituições internacionais não estariam ainda preconizando sua utilização ", afirmou Manfredini.

"É possível que, eventualmente, venhamos a saber que o antifluoracionismo esteja certo. Afinal, diz o pensamento científico: não há verdade absoluta. Temos de estar atentos com a produção atual, e o conhecimento científico se altera. Antes achávamos que a Terra era centro do mundo. Mas há 60 anos há vários artigos e revisões bibliográficas confirmando os benefícios do flúor, então não posso comprar um único estudo para estabelecer uma verdade científica", completou.

Para Alexandre Feldman, porém, o flúor se tornou uma "questão ideológica". "Qualquer opinião contrária é tratada como heresia. Dogma e heresia deveriam se restringir à religião e não à ciência. Ideologia e ciência também não deveriam estar atreladas."

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: