COMPORTAMENTO

O melhor esporte na TV é... 'The Bachelorette'?

09/08/2015 10:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
The Bachelorette

trad bachelorette

Em 22 de junho, uma segunda-feira, por volta das 20h [na costa leste dos Estados Unidos], me vejo em uma situação constrangedora. A seleção de futebol feminina dos EUA estava começando uma partida crucial contra a Colômbia na Copa do Mundo realizada no Canadá, e sou um dos editores de esportes deste site. O jogo, em qualquer hipótese, deveria ter minha completa e indivisível atenção.

Mas estaria mentindo se dissesse que foi assim. Não foi, e o motivo é que outro importante jogo estava começando no mesmo momento, um no qual eu estava ainda mais ligado: o episódio mais recente do “The Bachelorette".

Eu mesmo deveria ter ficado horrorizado. Um editor de esportes que se preocupava mais com um reality show na TV do que com sua seleção? Imperdoável. Mas, honestamente, naquele ponto, já era. Já tinha me tornado um fã descarado de “Bachelorette”. Percebi que ficava esperando pelo drama, comédia, estratégias e debates nas noites de segunda. Por alguma razão desconhecida, me importava, assim como me importo com o Los Angeles Lakers.

Teria mais vergonha se não fosse o fato de que agora sei que não estou sozinho. Por todo o país, acabei sabendo, há fãs de esportes que encontraram em “The Bachelorette” algo estranhamente semelhante ao que eles amam na NFL [ liga de futebol norte-americano], NBA [basquete], MLB [beisebol] e NHL [hóquei]. Em resumo, um número cada vez maior de pessoas está se dando conta de que “The Bachelorette” é o melhor esporte disponível na televisão no momento, e não vamos mais esconder isso.

“Ah, com certeza virou um esporte”, disse por e-mail Kellye Kohn, 24, terapeuta de saúde mental de Charleston, na Carolina do Sul.

Kohn observou que na maioria das temporadas de “Bachelorette" existem dois ou três competidores claramente disputando o título logo no começo, e que isso é particularmente verdade nesta temporada, com a forte rivalidade entre Shawn e Nick tentando conquistar Kaitlyn, a atual “Bachelorette” [que significa mulher solteira em inglês] dos Estados Unidos.

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“Os competidores do programa precisam ter um pouco da mentalidade esportiva”, Kohn acrescentou. “A cada temporada há uma garota ou um cara que se recusa a competir com os outros pela atenção do Bachelor [homem solteiro]/Bachelorette, porque ‘isso’ não tem a ver com sua natureza. Esses tipos normalmente não duram muito.”

Erin Hale, 25, estudante de pós-graduação em Cleveland, Tennessee, me disse por e-mail que, assim como nos esportes, a regra número 1 de “Bachelorette” é jogar para ganhar, ou então não perder seu tempo.

Em ambos os casos, se você não está jogando para, no final, ganhar um prêmio (um troféu em esportes e um marido ou esposa na franquia Bachelor/Bachelorette), não vale a pena”, disse Hale, acrescentando que é “exatamente como March Madness [campeonato de basquetebol entre universidades dos EUA]”.

Os traços competitivos dos competidores e as coniventes táticas que utilizam às vezes alimentam rivalidades comparáveis às dos Yankees x Red Sox [times de beisebol] ou Bears x Packers [equipes de futebol dos EUA], disse Kohn.

“Como um espectador do programa você realmente começa a ficar do lado de certos competidores e torcer por eles da mesma forma como faria por um atleta ou um time”, disse por e-mail Ainsley Burton, uma publicitária de 21 anos.

“Obviamente, as razões por trás de gostar de um competidor versus de um atleta/time provavelmente são diferentes”, acrescentou. “Sou fã de Aaron Rodgers porque sempre torci para os Packers, enquanto sou fã de Ben H. porque ele é super bonito e charmoso também.”

Burton admitiu que os times de esportes de fato têm uma vantagem inerente sobre os competidores dos reality shows em relação a seus respectivos fãs. Independentemente do que acontecer nesta temporada, seu time provavelmente estará lá na próxima. O mesmo não pode ser dito da sua “Bachelorette” favorita na competição.

“Mas eu diria que o ‘'The Bachelorette' pode ser mais divertido e despreocupado por outro lado”, disse Burton. “As pessoas não protestam ou queimam carros quando seu competidor favorito não ganhou a rosa.”

Anne Juceam, 33, residente no Brooklyn, Nova York, gosta tanto da competição que envolve os reality shows que decidiu começar uma liga fantasia com alguns amigos. Em pouco tempo, a lista de espera aumentou tanto que ela fundou a realityfantasyleague.com, um site onde os fãs tanto de “The Bachelor" quanto de "Top Chef" podem criar ligas para competir com amigos. Hoje, ela estima que 700 pessoas usam o site para acompanhar os dois programas.

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“Meu marido é um fanático por esportes e tem sido o representante de sua liga fantasia de futebol por mais de uma década, e me considero tão apaixonada por esses reality shows quanto ele é por futebol”, Juceam me contou por telefone.

“É realmente emocionante”, acrescentou Juceam. “É uma forma de ver o programa sob um nível totalmente novo. [Os fãs] estão envolvidos no programa há quanto tempo? Mas agora têm um lugar para escolher os competidores e se sentirem conectados de uma nova maneira.”

O marido de Anne, Jason, me disse por telefone que vê muitas semelhanças entre o novo site de sua esposa e os primeiros anos do esporte fantasia.

“Lembre-se do começo dos anos 80 [quando o esporte fantasia começava a ficar conhecido] e você pensa em todas essas pessoas que queriam fazer parte de um esporte, mostrar que eram especialistas’, disse Jason, 33, torcedor do time de futebol Jets, de Nova York. “[Os fãs de ‘Bachelorette’] conhecem todos os detalhes — há códigos nos programas, coisas diferentes. São especialistas... Mas, até há pouco tempo, não havia forma deles manifestarem sua paixão, então acredito que criar essa liga fantasia é uma boa maneira de dar um fim útil a esse conhecimento”.

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Lizzie Rubenfield, consultora de 24 anos e residente na capital Washington, está entre os que começaram uma liga “Bachelorette” no realityfantasyleague.com. “A coisa realmente esquenta”, me disse por telefone. “Você precisa de tempo para se dedicar.”

“Minha estratégia geral é escolher pessoas que são mais ou menos chatas, porque elas tendem a ficar mais tempo”, acrescentou.

Mas, às vezes, o desejo dos produtores por drama pode interferir na pureza da competição, o que prejudica a liga. Isso ficou mais evidente com a chegada no meio desta temporada de Nick, que agora é um dos dois finalistas no programa. A decisão dos produtores de adicioná-lo depois pode ter sido boa para o programa, mas foi ruim para a liga de Rubenfield. Incapaz de decidir uma forma justa de encaixá-lo depois do draft [fases da competição], a liga deixou Nick entre os desistentes, e o que seria um final dramático agora é totalmente o oposto.

Ao conversar com os que não são fãs de "Bachelorette”, eles argumentarão que decisões da produção como essas explicam em parte por que o programa não pode ser considerado um esporte. Eles têm razão. Afinal de contas, é verdade que os produtores estão constantemente aumentando o drama com edições criativas e decisões editoriais. Mas eles precisam também olhar no espelho e considerar a porcentagem de veículos de esportes dedicados ao drama que envolve os jogos, em vez das partidas em si. Devem considerar as mudanças das regras quase constantes destinadas a alterar o produto na quadra para a melhoria das partidas. De repente, a linha que separa os reality shows dos esportes não parece um pouco borrada?

Ou como Burton disse sucintamente: “A mesma merda acontece todas as vezes que existe rivalidade nos esportes... É tudo drama criado por alguém tentando aumentar a audiência”.

Para as mulheres que amam tanto “The Bachelorette” quanto esportes, no entanto, parece haver uma clara diferença. “Fui questionada provavelmente centenas de vezes (na maioria por idiotas tentando falar bobagem em bares de esportes) sobre minha paixão por esportes”, disse Burton. “Mas nunca ninguém duvidou que sou uma verdadeira fã de “Bachelorette.”

Outra diferença menos irritante entre os dois: o tipo de álcool escolhido. “Moro com duas garotas, então é como se fosse eu com meus amigos vendo o jogo aos domingos com cerveja, asa de frango e patê, só que neste caso é com vinho, queijo e húmus”, disse Ryan Soos, 25, fã de 'Bachelorette' que mora em Manhattan.

“Honestamente, a única diferença real para mim em consumir ‘Bachelorette’ versus esportes é que tomo vinho com ‘Bachelorette’ e cerveja com esportes”, Burton concordou.

Mesmo se “The Bachelorette, ao contrário de esportes, não implica em assistir ao sangue, suor e lágrimas dos melhores atletas do mundo, mostra na verdade a arte da tomada de decisão manipuladora e as lágrimas bêbadas que inevitavelmente vêm depois. E, em 2015, isso não seria mais representativo sobre nossa sociedade como um todo do que qualquer façanha no campo? Ou, pelo menos, comparativamente divertido? Diríamos que sim.

“Em geral, eu teria mais respeito por atletas profissionais do que por competidores no programa”, Burton finalmente admitiu. “Mas ainda adoro falar bobagens sobre ambos.”

Para acompanhar O Melhor Esporte na TV, assine nosso podcast "Bachelorette": "Here To Make Friends."

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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