COMPORTAMENTO

Fotógrafo viaja o mundo para registrar incríveis posições de ioga

09/08/2015 20:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Alessandro Sigismondi

Todo artista tem uma musa ou uma fonte de inspiração. A de Picasso era Fernanda Olivier; a do poeta italiano Eugenio Montale, Clizia; a de Monet, o jogo de luzes e cores; a de Degas, as bailarinas. Alessandro Sigismondi encontrou um terreno fértil para a liberdade artística e para a criatividade quando começou a praticar ioga ashtanga.

Sigismondi é italiano e trabalhou 15 anos como redator publicitário. Hoje, porém, ele divide seu tempo entre a Índia e a Europa, fotografando e filmando iogues do mundo todo praticando suas disciplinas (geralmente ioga ashtanga). Seu objetivo é capturar a alma dessa disciplina por meio de uma abordagem íntima dos praticantes.

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O mestre indiano Sri K. Pattabhi Jois introduziu a ashtanga nas escolas de Mysore, no sul da Índia, e ela rapidamente se espalhou pelo globo. Hoje, a ashtanga é representada pelo neto de Jois, Sharath Rangaswami, bem como por estudantes que se tornaram instrutores certificados.

Fascinado pela atmosfera e pela intensidade dos vídeos e fotos de Sigismondi, o HuffPost Italy entrou em contato com o artista para conversar sobre seu trabalho e seu conceito de ioga.

Quando e como você começou a fazer vídeos de ioga? Algum evento em particular te inspirou a se dedicar à representação estética e artística dessa prática?

Até três ou quatro anos atrás eu trabalhava com publicidade. Praticava [asthanga] ioga regularmente, e meu filho nasceu logo depois. Adorava o lado criativo do meu trabalho, mas não aguentava o ambiente e os horários. Precisava dar um tempo. Então, eu, minha mulher, que também pratica ioga, e meu filho decidimos morar alguns meses em Mysore, na Índia. Foi lá que nasceu a ioga ashtanga e é lá que vive R. Sarath Jois, neto de Pattabhi Jois, o fundador dessa prática.

Em Mysore conhecemos mestres e praticantes do mundo inteiro. Aí as coisas aconteceram meio que por acaso. Uma professora da Costa Rica, Mariella Cruz, soube do meu antigo emprego e perguntou: “Por que você não faz um vídeo de ioga?” Nunca tinha gravado um vídeo, muito menos criado um canal no YouTube! Mas trabalhei durante muitos anos com videomakers e diretores e me senti muito à vontade desde o começo. Meu trabalho apareceu no Elephant Journal, e daí em diante comecei a entrar em contato com vários professores e institutos.

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Agora viajo muito, visitando escolas e participando de vários retiros e workshops. Mas todo inverno tento passar pelo menos quatro ou cinco meses em Mysore. Amo minha família (meu filho está com quatro anos) se sempre tento levá-los comigo nas viagens, desde que a agenda permita.

Como surgem as ideias para os vídeos e os ensaios? Vocês negociam locação, música e escolhas artísticas?

É muito importante para mim conhecer as pessoas que vou retratar. É essencial entender intimamente a concepção que elas têm da ioga, para que eu possa representá-las por meio de imagens e músicas. Depois disso, sugiro um lugar ou outras ideias de estética.

Mas, ao mesmo tempo, é importante sempre tentar abordagens novas. Na publicidade tudo é planejado e controlado nos mínimos detalhes; cada segundo de um comercial é estudado e planejado durante meses. Acho que isso funciona dependendo do contexto, mas é estéril demais em outros ambientes criativos. Gosto das coisas criadas no calor do momento, segundo as pessoas e as circunstâncias diante de mim.

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De minha parte, tento me manter aberto e receptivo a tudo o que acontece à minha volta, para capturar o interior dos meus sujeitos, contando uma história. Isso é muito importante. Por exemplo: às vezes certos elementos que me chamam a atenção podem sair de uma simples conversa, então a incluo no vídeo.

Para manter a espontaneidade da experiência, também tento editar e finalizar o vídeo nos dias seguintes à gravação. Isso me dá a sensação de preservar a energia criativa que veio à tona na filmagem e a certeza de que nada vai escapar.

O que você quer transmitir com suas imagens?

Adoraria inspirar o maior número possível de pessoas e gostaria de incentivá-las a tentar essa disciplina pelo menos uma vez. Gostaria de despertar curiosidade. Há muito preconceito e ignorância em relação à ioga. Coloco nas imagens tudo o que a ashtanga representa para mim e para as pessoas com quem trabalho, tentando me manter fiel à alma dessa prática, que une de maneira muito profunda o corpo e a mente, o físico e a meditação.

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Às vezes me pergunto se estou fazendo as coisas direito, especialmente se estou mostrando a prática de maneira esteticamente atraente – já que vários elementos são enfatizados com a ajuda do cenário, do ambiente e da música. Quero que as imagens sirvam de inspiração para quem assisti-las. Mas a resposta que tenho recebido tem sido excelente. Saber que tem gente que começou a praticar ioga depois de ver meus vídeos é uma enorme fonte de inspiração.

Muitas posições de ioga, especialmente as mais avançadas, são parecidas, se não idênticas, às de outras disciplinas, como ginástica artística ou artes circenses. Mas o que elas contêm é completamente diferente. Meu objetivo é conseguir transmitir o que está por trás da prática: a interioridade e a concentração exigidas por cada movimento, cada respiração.

Assistindo seus vídeos, parece que suas escolhas estilísticas quase sempre tentam transmitir uma ideia pessoal e íntima dos sujeitos retratados. Faz sentido?

Sim. Além da disciplina, há a reinterpretação e a vivência de cada pessoa, cada iogue. Apesar de a ashtanga consistir de uma sequência fixa de posições, as chamadas séries, cada praticante a encara de uma maneira diferente. O que importa é o caminho individual de cada iogue. É por isso que não existe uma prática melhor que outra.

Acho que a criatividade se expressa ao máximo quando parte de um esquema, não de uma página em branco ou de um espaço vazio. Para mim, criatividade significa saber canalizar algo, oferecer uma nova perspectiva ou um novo olhar sobre um modelo estabelecido. Isso era verdade na minha antiga profissão – a publicidade – e também é verdade na ioga. O mesmo vale para a arte da fotografia (no fim, as regras são sempre as mesmas: exposição, luz e sujeito) e para a vida em geral. Todos nos movemos dentro de esquemas fixos, mas cada um de nós dá a esses esquemas sua forma verdadeira.

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As sequências fixas da ashtanga vêm à vida graças às pessoas que praticam, e elas, por sua vez, são transformadas, expressando suas verdadeiras naturezas. Tento mostrar o aspecto humano, sempre em relação ao que o cerca. Estou feliz que esse aspecto esteja claro: cada iogue é diferente e pratica a disciplina de maneira diferente. Meu objetivo – às vezes inconsciente -- é dar voz a cada sujeito. É isso o que orienta minhas escolhas estilísticas (fotos, edição, música).

Você se preocupa com o fato de que a atenção que você dá ao corpo talvez seja muito ocidental, distante da abordagem indiana tradicional?

Pelo que tenho visto em minhas viagens à Índia ou ao redor do mundo, não é tanto uma diferença entre a abordagem ocidental ou indiana. É mais a diferença entre uma abordagem tradicional e não-tradicional, dependendo do país onde você nasceu. Os americanos são grandes inovadores, mas os indianos não são menos capazes. Tradição significa só a Índia, mas sim o ato de seguir rigorosamente os ensinamentos de seu instrutor.

A ashtanga é um estilo tradicional, com base em um forte senso de disciplina e respeito ao mestre. Uma de suas peculiaridades é o esforço físico necessário para avançar na prática. Os textos antigos falam sobre o corpo do iogue como “magro, seco e musculoso”, portanto o corpo sempre desempenha um papel importante. A diferença é que, para iogues, um corpo saudável e em forma é meramente um “efeito colateral”, uma maneira de explorar a si mesmo, de meditar e de alcançar a iluminação. Ninguém almeja ter um corpo perfeito. Ele é apenas uma ferramenta que pode ser usada para alcançar algo muito mais importante. O erro, se é isso que você pode chamá-lo assim, do mundo ocidental é considerar a forma física um fim em si mesmo, não uma parte do processo.

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A atenção que dou ao corpo visa à totalidade do organismo, a fim de extrair o conteúdo interior, para mostrar que esta é verdadeiramente a prática da meditação em movimento. Acho que as pessoas podem ver isso no rosto dos meus sujeitos: sempre tento capturar os momentos de concentração e intensidade nos olhos e nas expressões dos iogues com quem trabalho.

É aí que você pode ver as diferenças entre a ioga e outras formas de exercício. É a aura de meditação e recolhimento que acompanha o esforço e o movimento. Sou fascinado pela forma como outros iogues muitas vezes estão em posições extremamente complicadas, mas seus rostos estão completamente relaxados e tranquilos, ou então mostram uma intensidade magnética. Essa é a essência da ioga: a união entre corpo e mente, exterior e interior.

Você aprendeu algo novo sobre si mesmo e sobre a prática nesses três anos que você passou filmando, fotografando e seguindo os iogues em todo o mundo?

Aprendi muito. Trabalhar com pessoas tão avançadas nessa disciplina tem sido uma enorme fonte de inspiração para mim. A maior lição é que nada acontece por acaso. Todas as conquistas são resultado de trabalho extremamente duro e esforço. Mesmo as pessoas que executam as posições complicadas, posturas que parecem impossíveis, têm de se esforçar muito, e você não consegue fazer isso sem força de vontade. Mesmo os iogues mais talentosos fisicamente tiveram de trabalhar muito para chegar lá.

Os iogues com quem trabalhei me ensinaram tenacidade, disciplina, humildade e respeito por si mesmo e pelo que você faz. Acredito que esses são valores fundamentais para cada fase da vida.

Onde você se vê no futuro? Tem outros projetos em mente?

Não sei onde me vejo, mas eu sei o que eu estou buscando e tenho uma série de projetos em mente. Realmente amo o que estou fazendo agora, mas ao mesmo tempo não gosto de repetição e estou sempre à procura de novos estímulos e novas formas de inovar. A ioga é parte fundamental da minha vida, e me sinto sortudo por ter a chance de trabalhar com isso. Trabalho, mas ao mesmo tempo respirao e vivo atmosferas das quais sinto fazer parte; os iogues com quem tenho colaborado e que conheci nesses anos todos muitas vezes são amigos. Ou, no mínimo, pessoas com quem compartilho uma visão de mundo.

Então, gostaria de continuar fazendo o que faço, mas evoluir os resultados “formatos” que utilizo. Por exemplo: vou começar a filmar aulas de ioga (agora não apenas Ashtanga) para colocá-las online, talvez num canal dedicado do YouTube. Também penso em seguir R. Sharath (o neto de Pattabhi Jois, o fundador da disciplina ashtanga) em sua turnê em torno pelo norte da Europa, a Índia e o Himalaia. Meu plano é fazer um documentário sobre ele e seus ensinamentos.

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Em geral, minha prioridade é trabalhar com pessoas em quem acredito. Tenho uma profunda fé na ioga, mas não posso excluir a idéia de que um dia talvez queira trabalhar em outros ambientes, desde que sejam coerentes comigo e minha maneira de ser. Projetos de meio ambiente ou agricultura sustentável, por exemplo. Quem sabe? Sou muito aberto em relação ao futuro.

Depois dessa discussão profunda e enriquecedora, que as palavras que você gostaria de deixar como acompanhamento para suas imagens? Qual é a sua concepção do corpo humano em movimento?

Adoraria enfatizar a espontaneidade e o frescor da prática; a combinação de força e flexibilidade característica da ioga, o que torna esse frescor -- de uma forma que é apenas aparentemente paradoxal -- o resultado de muita dedicação. Também gostaria de destacar a transformação incrível que a ioga provoca nas pessoas, tanto física como mental. Espero ter conseguido capturar e imortalizá-la no meu trabalho.

A prática diária e consciente da ioga gera metamorfoses incríveis. Por exemplo, há professores de ioga -- agora eu estou pensando de B. K. S. Iyengar [o fundador de um estilo de mesmo nome, que faleceu em 2014] -- que parecem ser pessoas completamente normais, com corpos que não são definidos nem perfeitos, mas que se transformam completamente quando começam a praticar ioga: seus peitos se expandem, seus músculos se tensionam, seus corpos são modelados pelas posturas.

Essas pessoas têm graça e elegância únicas. Dedicar-se profundamente à ioga -- como espero ter conseguido comunicar -- é muito mais do que um treinamento físico ou um exercício. É uma metamorfose no corpo e a alma. Ela unifica, eleva, e te leva pra outro lugar.

Pratique e você vai ver...

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Italy e traduzido do inglês.

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