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Candidato à Presidência em 2014, Eduardo Jorge passa a limpo o parlamentarismo, o impeachment e o futuro seu e do PT

08/08/2015 17:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Reprodução/Facebook

Se depender da sua própria vontade, Eduardo Jorge não disputará mais nenhuma eleição. Aos 65 anos, este baiano de Salvador recebeu nada menos do que 630.099 votos no pleito presidencial do ano passado, um número expressivo para uma sigla pequena (PV) e suficiente para coloca-lo na 6ª posição, de um total de 11 candidatos.

Mais do que disputar espaço com os ‘pesos-pesados’ PT e PSDB, Jorge teve um desafio muito maior: aprender a operar e interagir nas redes sociais. Nelas, o candidato do PV encontrou um nicho considerável – notadamente com o eleitorado mais jovem e progressista, que se via sem opções e simpatizava com bandeiras envolvendo o debate sobre drogas e aborto.

“Tive de aprender a usar essas redes. Mas ainda tenho dificuldades”, afirmou Jorge, em entrevista ao Brasil Post. “Outro dia, coloquei um texto falando sobre a crise que vivemos e outros assuntos. Acho importante a gente se posicionar neste momento, todos deveriam fazer isso. Mas o meu filho mesmo fala: ‘você é muito velho e teimoso, ninguém lê texto deste tamanho, só passam o olho’”, contou, sem segurar o riso em seguida.

Sai Dilma ou saída para o Brasil?Há tempos venho afirmando que a luta por um impeachment é constitucional e não é...

Posted by Eduardo Jorge on Segunda, 20 de julho de 2015


O texto em questão, intitulado “Sai Dilma ou saída para o Brasil?”, tocava, em síntese, na crise política que aflige a presidente Dilma Rousseff e o seu partido, o PT, do qual Jorge foi um dos fundadores, em 1980, permanecendo até 2003, quando não suportou mais o que considerou ‘incoerências’ do próprio partido. E, na despedida, fez uma ponderação importante – e que parece atual:

“Acho que o PT foi, é e será nos próximos anos, um importante partido político para o bem e para o mal do Brasil.”

Deputado federal por quatro mandatos, entre 1987 e 2003, Jorge acredita que as crises política e econômica não vão acabar tão cedo. E, ao seu estilo, não se furta em criticar aqueles que considera alguns dos principais culpados pela atual situação. A começar pelo Congresso Nacional, que conhece bem, e que vem produzindo “nenhuma reforma política".

“Como você vai ter isso em um sistema de presidencialismo imperial, quando o Executivo está nocauteado? O que temos é uma discussão casuística, com cada deputado e senador vendo o que interessa para si, sem nenhuma tese e proposta para o futuro do Brasil. O Executivo está na lona, com 7% de aprovação, vê se pode! Não houve discussão de reforma política, zero”, avaliou.

O problema, na visão de Jorge, passa pelo principal personagem do Legislativo federal: o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados. É ele o líder da ‘revolta dos bagrinhos’, como o último presidenciável do PV define o chamado “protagonismo do Congresso”, parafraseando algo que o peemedebista adora dizer em suas entrevistas.

“No presidencialismo imperial, esse pessoal ficou refém das migalhas do Orçamento, pegando essas migalhas e nomeando gente, pedindo emendas para paróquias, indicações em estatais, enfim, demagogos totais. A pergunta que fica é: qual é o rumo do chefe dos bagrinhos?”, ironiza, sem meias palavras.

Parlamentarismo

Todavia, uma das declarações de Cunha que mais repercutiram no primeiro semestre atinge diretamente Eduardo Jorge. O presidente da Câmara aventou, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a possibilidade e vontade pessoal de retomar o debate em torno do parlamentarismo. A motivação seria justamente levar a política brasileira a um novo patamar. Para Cunha e os defensores do regime parlamentarista, Dilma e o seu governo já teriam caído se o regime fosse parlamentarista no País, trazendo um trauma menor e evitando crises.

Vários deputados da atual legislatura defendem o parlamentarismo, mas o único projeto que pode ser considerado ainda hoje data de 1995, cuja autoria é do ex-deputado Eduardo Jorge (PT-SP). Sobre esse assunto, ele demonstra empolgação, tanto que fez questão de estar presente no lançamento da Frente Parlamentarista, no último dia 15, no Congresso. Oficialmente, o grupo conta com 225 deputados – pouco mais de 40% do total da Câmara.

“Posso te dizer três coisas: primeiro, a proposta não vem de agora, ela já tramita desde 1995. Não é também uma discussão fácil, é complexa e acontece em vários países, portanto não é um debate que se dá por um fato conjuntural de A, B ou C. Quando eu apresentei, foi logo após o plebiscito (de 1993, no qual a população manteve o presidencialismo). Aquele foi um debate muito apaixonado, que não teve a devida discussão racional para um tema tão complexo. Por isso, reapresentei, mesmo com aquela derrota”, relembrou.

De acordo com Jorge, o teor do texto original mantinha o que havia sido acordado pela Frente Parlamentarista da época, que contava com nomes de peso do passado, como Ulysses Guimarães (PMDB), chegando a figuras ainda presentes no Legislativo federal, como o deputado Roberto Freire (PPS-SP). “Mas é uma discussão de longo curso, pode ser aperfeiçoada. Não é uma disputa de 100 metros”, emendou.

O presidenciável do PV não se esqueceu da história envolvendo o parlamentarismo, regime preferido entre boa parcela dos componente da Assembleia Constituinte, mas que acabou derrotado pelo então presidente José Sarney, que “hoje se arrepende”, segundo Jorge. As ‘forças progressistas’ da época, compostas por nomes como Mário Covas, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, esperavam que tudo mudasse em 1993, o que não ocorreu.

“O Sarney achou que ia perder um ano de mandato. Hoje ele se arrepende. Qual das grandes lideranças da redemocratização após a ditadura não era parlamentarista? O Lula mesmo, dentro do PT ele foi derrotado, mesmo defendendo o parlamentarismo. Os próprios setores do partido diziam: ‘você é bobo, vai ser presidente do Brasil’, e aí votaram contra ele. Importantes e contrários, só o (Leonel) Brizola, que era getulista, e o (Orestes) Quércia, que era adversário do Ulysses e do Montoro”, disse.

Na visão de Jorge, o debate do parlamentarismo neste momento tem a sua importância, sobretudo para mostrar os equívocos no que diz respeito ao regime presidencialista. Contudo, ele sugere uma discussão profunda e mais longa, ouvindo todos os partidos, a sociedade e até mesmo a presidente Dilma. Sem isso, o debate pouco sentido fará.

“Já tivemos experiências parlamentaristas ruins, como a com o Jango (João Goulart, presidente deposto pela ditadura militar em 1964). A ideia é apresentar ideias para mostrar as vantagens do parlamentarismo, regime que permite uma democracia mais próxima do pvo, com mais responsabilidade do chefe do Estado, e sem a irresponsabilidade dos parlamentares como vemos no presidencialismo. É uma proposta de emenda constitucional, e não um projetinho qualquer”, afirmou.

Impeachment

Naturalmente, a discussão do parlamentarismo soa tão ‘golpista’ para partidários e simpatizantes do governo federal e do PT quanto as diversas teses de impeachment de Dilma Rousseff. Para Eduardo Jorge, é preciso não deixar uma coisa contaminar a outra. No que diz respeito ao parlamentarismo, ele defende que o debate “não deve ser para enfraquecer quem quer que seja”.

Quanto ao impeachment, ele tem uma opinião clara. “Fui procurado por esses grupos, Vem Pra Rua, vem pra isso e aquilo, e me perguntaram se eu ia nas manifestações. Falei que ia. Acho a situação muito grave e irá se agravar ainda. Pedir o impeachment não é golpe, na época em que estava no PT era impeachment pra tudo, para o Fernando Henrique, para o Itamar (Franco), para o presidente do Corinthians... isso é conversa fiada, é um tema constitucional, que se permite em uma democracia e só é proibido em uma ditadura”.

Jorge defende, porém, que tudo siga o rito formal e legal. “Tem que esperar a justiça investigar, apurar, e dar ao acusado o direito de se defender. Não é linchamento. Então, a solução não é o impeachment já”, completou, sem esquecer que tudo passa pela crise econômica, a qual “é até pior que a crise política” e que “já está batendo no bolso do povo”. “Estamos sem governo, sem condução de medidas econômicas e sociais. É um quadro muito grave”.

Pior mesmo do que os questionamentos acerca da gestão Dilma é fazer um prognóstico do futuro do PT. Como membro fundador, o presidenciável do PV avalia que “já conheceu vários PTs”. Para ele, o partido enfrenta hoje “um enfraquecimento agudo”, mantendo assim uma dependência “absoluta” de Lula. “Se tornou um partido ‘viciado no Lula’. Costumava ser um partido muito democrático, mas não o é mais. Sem o Lula, ele se esfarela de vez”.

Vida longe da política

Se alguém espera ver Eduardo Jorge, médico de formação, travando debates acalorados em 2018, é bom tirar o cavalo da chuva. Segundo ele, a ideia de ser presidenciável só surgiu, em caráter voluntário, após o “quadro mais preparado do partido”, o ex-deputado federal Fernando Gabeira avisar que não toparia a empreitada. Para evitar que o PV não lançasse candidato à Presidência da República, Jorge se voluntariou “de última hora”.

“A única condição é que tivesse um programa de governo primeiro. Não seria nunca um candidato personalista, então gastamos um mês e eu disse: ‘não vamos perder tempo, nós vamos é ganhar’. Não tinha pretensão de ser candidato, não me candidatei a nada depois que saí do PT. Fui secretário do (senador do PSDB José) Serra (na pasta de meio ambiente) porque o PV o apoiou no segundo turno (em 2005), mas o Serra é muito chato (...). O PV não é um partido hegemonista, é um partido de vanguarda, influente em outros países, e de caráter parlamentarista. Não tenho pretensões, só quero ver o PV forte e consolidado”, explicou.

Questionado se toparia ser presidenciável mais uma vez, se fosse solicitado, ele hesitou. “Não quero antecipar nada. Espero que não. Espero que o nosso melhor quadro (Gabeira) apareça com esse brilhantismo”, disse Jorge, enfatizando que hoje “é apenas um cidadão comum” e “não mais um soldado de partido”. “Eu venho do leninismo, fazia o que me mandassem, cumpria as tarefas ordenadas pelo chefe. Hoje sou um cidadão livre”.

Se tem algo que ainda lhe aborrece é a visão política de que uma aliança entre PT e PSDB, ainda nos anos 90, poderia ter impedido um cenário de tamanha descrença e fragmentação política como a presente. Aliás, Jorge foi duramente criticado pelo seu apoio ao tucano Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014. O ex-petista dá de ombros, como faz quando questionado sobre a legalização da maconha ou do aborto.

“As questões polêmicas nós tratamos no nosso programa de governo. E veja que tem gente que até hoje nem programa tem. Falamos dos interesses da juventude brasileira. Mas há esse apequenamento da política brasileira, no qual só falam os marqueteiros, e não os políticos. É uma boa prova de que precisamos reformar o sistema político brasileiro”, ponderou.

“Quanto ao Aécio, veja que quase todos na disputa do ano passado tinham origem na esquerda. Ainda lá atrás, o caminho reformista teria passado por uma aliança entre PT e PSDB, mas o instinto presidencialista foi maior. Mantemos essa visão de que não pode dialogar até hoje. Vendo a situação em que estávamos, tinha de tomar uma posição naquela oportunidade. Entre apoiar um partido que promoveu um aparelhamento do Estado nunca antes visto e um de centro esquerda, escolhi o segundo. Ainda hoje, nas ruas, tenho de explicar a minha posição”, avaliou.

Se cabe um conselho de Jorge aos seus eleitores e aos que buscam respostas para o calvário em que o País se encontra, sobretudo politicamente, ele dá um recado: “Preste a atenção na hora de votar”.

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