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Como realmente são as primeiras 48 horas da amamentação

05/08/2015 19:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Getty Images/Flickr RF

Eu sabia muito sobre amamentação antes de dar à luz. Passei quase quatro anos escrevendo do assunto para o HuffPost Parents, não só sobre a ciência, mas também sobre a experiência emocional das mães. Entrevistei mulheres que só bombeiam o leite; mulheres que deram de mamar depois do câncer de mama; mulheres que alimentam seus filhos com fórmula. Estava versada nos potenciais desafios, portanto me sentia preparada. Li livros. Contratei uma doula especializada em amamentação.

Mas, nas primeiras 48 horas depois de dar à luz meu primeiro filho, a experiência foi muito difícil, física e emocionalmente. Na primeira vez ele pegou o peito direitinho, mas a primeira noite que passamos juntos foi complicada. Ficava chamando a enfermeira o tempo todo, desesperada para que ele pegasse o peito esquerdo. De manhã, meu mamilo direito estava assado e sangrando. Tinha acabado de dar à luz um bebê de 4 quilos, sem anestesia, mas essa dor era incomparável. Era aguda. Penetrante. Implacável.

É claro que nem todas as mães têm experiências como a minha. Para algumas, tudo acontece muito facilmente. Foi assim com minha irmã e a filha dela. Idem para minha melhor amiga. Mas o que nos une é a intensidade dessas primeiras horas – a sensação de que tudo é louco e novo, e que algo muito importante está em jogo. Pedimos que as integrantes da comunidade HuffPost Parents do Facebook nos contassem como foram as suas primeiras 48 horas de amamentação. Eis o que 15 mães experientes disseram:

Sou enfermeira de parto e pós-parto e consultora de lactação, e mesmo assim não estava completamente preparada para amamentar. Tive pré-eclâmpsia grave, e me deram remédios intravenosos. Nas primeiras 24 horas de vida da minha filha, estava derrubada, e ela, sonolenta. Mas sabia que tudo ficaria bem se ela estivesse em contato com a minha pele. Só fui dar de mamar depois de cinco horas.

Mas aí ela teve icterícia, e me disseram que a alimentação teria de ser suplementada com fórmula. Fiquei arrasada. Comecei a tirar leite e liguei para minha cunhada, que acabara de ter um bebê. Ela me deu um pouco de leite. Fiquei muito grata por ser uma pessoa informada e por conhecer as opções -- não imagino o que as outras mulheres fazem. Mas também acho que errei ao não pedir ajuda. Estava muito dolorida, mas repetia para mim mesma: “Você é consultora de lactação, devia saber o que fazer. Dói muito, mas ela está pegando o peito direitinho”. Quatro meses depois, minha filha foi diagnosticada com um problema nos lábios e na língua. – Jillian, Califórnia

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Antes de engravidar, era completamente contra amamentar. Só pensava nos contras – a dor, a sensação de estar presa por causa do compromisso e a idade de ser como uma vaca. Mas, no sétimo mês, o leite começou a vazar, e prometi aprender tudo sobre amamentação. Imaginei que meu corpo soubesse o que fazer, e não adiantava me rebelar contra a natureza. Quando nosso filho veio ao mundo, imediatamente pedi que o médico o colocasse no meu colo, e ele ficou ali mamando uma hora, como se fosse a função dele. Ele pegou o peito perfeitamente. Todo mundo fala da exaustão das primeiras horas, mas sinceramente não senti nada parecido. Estava simplesmente feliz. – Marissa, Illinois

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Minha filha tem dez meses, mas, lembrando das primeiras 48 horas, dá vontade de chorar, porque elas foram dificílimas. Tudo era difícil. Não sabia se ela pegaria o peito, se ela devia estar mamando tanto – as enfermeiras ajudam, mas não podem dar de mamar por você. E os mamilos inchados e rachados doíam demais. Chorei muito. Persisti, e as coisas melhoraram, mas me lembro muito bem daqueles dias. – Kimberly, Nova York

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Estava muito determinada a amamentar e fiz um curso que fazia tudo parecer fácil: “É só certificar de que a boca do bebê está bem aberta, ele vai pegar o peito fácil. Não vai doer!” Arrã... Meus mamilos racharam e sangraram na hora. Nunca tinha me dado conta de que meus mamilos são planos até amamentar. Chamei a consultora de lactação algumas vezes, mas ela não ficava muito tempo – estava sempre muito ocupada. Lembro dela espremendo meus mamilos com força. A enfermeira me deu protetores de mamilos quando percebeu que meu filho estava com dificuldade para pegar o peito. Não sei se eles eram pequenos demais, mas lembro que o sangue se acumulava no bico quando eu tinha sangramento. Tinha de parar para limpá-los. Era nojento. Meu filho teve icterícia e teve de tomar fórmula, mas eu era contra e chorei várias vezes por causa disso. As enfermeiras colocaram um tubo no meu peito e injetaram fórmula para ver se assim funcionava. Era muito antinatural! Fiquei muito frustrada. Por que não fazer do jeito normal!? Olhando pra trás, sei que me esforcei, mas fui vencida pelas dificuldades. – Kara, Connecticut

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Passei as primeiras 18 horas de vida do meu bebê na UTI. Depois de um parto completamente normal, fui submetida a uma cirurgia repentina e totalmente inesperada para remover meu útero – e quase morri. Enquanto me recuperava, o hospital permitiu que minha irmã (que deu à luz três meses antes de mim) tirasse leite para que meu filho não tomasse fórmula. Ela sabia como isso era importante para mim.

As enfermeiras da maternidade e meu obstetra disseram que meu corpo talvez não produzisse a quantidade de leite necessária para a minha filha, por causa do sangue perdido e do trauma da cirurgia. Mas, depois que ficamos juntas, ela milagrosamente pegou o peito e começou a mamar em minutos. Depois da terrível tragédia, foi uma bênção e um alívio. – Kassie, New Jersey

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Lembro que as enfermeiras me deram uma tabela complicada para acompanhar as mamadas... que horas, por quanto tempo, qual peito, blá, blá, blá. Estava enlouquecendo. Aí, uma anja especialista em lactação, com o melhor sotaque irlandês que já ouvi na vida, me disse: “Se preocupe com o bebê, não com o relógio”. Aquela frase ficou na minha cabeça por muito tempo. Esqueci a tabela e só acompanhei o que o bebê fazia. Você ouve muitas histórias de como é complicado, então estava preparada. Quando minha filha pegou o peito de primeira, fiquei chocada! Pareceu fácil demais. Cadê a dor de que todo mundo estava falando? (Também fiquei surpresa por ter mastite duas vezes com meu segundo bebê. Terrível. Terrível! Se tivesse acontecido com o primeiro, provavelmente teria desistido. A experiência positiva da primeira vez foi uma bênção.) – Amy, Minnesota

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Tinha planejado um parto doméstico, com amamentação e contato de pele imediatos – mas acabei fazendo cesariana por causa dos exames nas semanas anteriores ao parto. Os remédios da cirurgia me deixaram enjoada – tremia incontrolavelmente, estava muito doente. Demorei duas horas para ver meu filho, tecnicamente no dia seguinte, porque ele nasceu no fim da noite. Estava aterrorizada com a possibilidade de não dar de mamar por causa dos remédios ou porque o leite não sairia. Por sorte, tinha lido três vezes “The Womanly Art of Breastfeeding” (a arte feminina da amamentação, em tradução livre). Assisti incontáveis vídeos do YouTube. Minha preparação valeu a pena – ele pegou o peito lindamente. Mamou a cada meia hora ou uma hora naqueles primeiros dois dias. Me senti fortalecida por tudo o que tinha aprendido antes do parto -- e chocada quando passei pela experiência. – Erica, Texas

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Tenho dois filhos – um de dois anos, outro de quase um mês, e nos dois casos as primeiras 48 horas foram idênticas. Nenhum dos bebês pegava o peito. Eles nasceram em hospitais diferentes e cidades diferentes, e as consultoras de lactação não ajudaram muito. Elas disseram coisas contraditórias – uma falava em incompatibilidade anatômica, a outra me garantiu que o problema não existia.

Só lembro da pressão da corrida contra o tempo, dos momentos de felicidade interrompidos pela sensação de fracasso. Me senti decepcionada comigo mesma. Também senti vergonha, como se não fosse mulher o suficiente. Mas, com meu primeiro filho, as sensações de culpa e fracasso foram mais intensas. Afinal de contas, ele foi criado essencialmente à base de fórmula, e é uma criança tão linda, forte, saudável e inteligente. Com o segundo, alterno entre leite materno e fórmula. Ele ainda não pega o peito direito. Vou ver um osteopata e uma consultora de lactação amanhã. Estou tentando de tudo para que dê certo, mas também me sinto menos pressionada. – Gaby, Nova York

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Li tudo, conversei com minhas amigas que têm filhos, baixei apps e, no dia em que estava fazendo uma aula de lactação no hospital, entrei em trabalho de parto. Foram 24 horas de espera, e acabei fazendo cesariana. Na hora de dar de mamar pela primeira vez, nunca me senti tão despreparada e desesperançosa. Ele não pegava o peito e estava com fome. Cada vez que não dava certo, ficávamos os dois frustrados – e exaustos. Uma enfermeira do departamento de lactação praticamente se mudou pro meu quarto até minha alta – eu tinha de bombear para tentar estimular a produção de leite. Tentamos protetores de mamilos e cremes analgésicos, mas não ajudou muito. Dávamos com uma seringa o pouco leite que conseguíamos tirar.

Acabo de dar à luz meu segundo filho, faz duas semanas. Ele pegou o peito imediatamente, e o leite veio na sequência. Ele está comendo superbem deste então. As experiências foram completamente diferentes, e sou grata pelas duas. A dificuldade da primeira vez me ajuda a apreciar como tem sido fácil agora. – Amber, Califórnia

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Minha filha nasceu prematuramente, com 33 semanas, depois de eu quase morrer de síndrome de HELLP. Não lembro muito das primeira 24 horas, além da enfermeira aparecendo na madrugada para dizer que me ajudaria a amamentar minha filha, que pesava só 1,7 quilo. A função daquela senhora era tirar meu leite, como se ordenha uma vaca. Foi constrangedor, mas ela me ajudou no processo e coletou um pouquinho de leite com uma seringa de 5 ml, gota por gota.

No dia seguinte, a parteira me ensinou como coletar leite com as mãos. Àquela altura, só tinha visto minha filha duas vezes. Não conseguia levantar da cama, e ela estava na incubadora, em outra sala. Os médicos disseram para ter uma foto dela à mão enquanto tirava o leite. Não podia fazer muito pela minha bebezinha, não podia segurá-la ou confortá-la, mas isso eu podia fazer. – Stephanie, Reino Unido

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Fiquei impressionada como minha filha parecia procurar meu peito no instante em que a colocaram no meu colo. Mas não vou mentir – foi meio constrangedor. A enfermeira estava segurando meu peito com uma mão e a cabeça da minha filha com a outra, tentando alinhá-los. O desejo de amamentar veio naturalmente, mas a parte mecânica, nem tanto. Nas primeiras 24 horas, eu chamava a enfermeira o tempo inteiro para ela ajuda minha filha a pegar o peito – e não tinha ideia de que minha filha teria fome literalmente a cada hora. Ela nunca dormiu no bercinho que eles trouxeram para o quarto; durante as 48 horas que passamos no hospital, ela ficou no meu colo, com exceção de alguns exames. Eu dormia quando ela dormia e acordava de hora em hora para dar de mamar. Foi exaustivo, mas maravilhoso. Meu marido estava tão cansado que éramos só eu e Stella, o quarto silencioso e o corpinho dela contra o meu. – Liz, Arizona.

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Meu filho mamou logo depois de nascer. Não sei dizer exatamente quando, pois as horas depois do parto pareceram minutos, mas imediatamente depois de ele nascer as enfermeiras o colocaram no meu colo e ele começou a procurar o leite. Dizem que os bebês têm esse reflexo de procurar o peito da mãe. Parece exagero – até você ver com seus próprios olhos. Ele procurou e achou. – Paige, Texas

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Depois de uma gravidez terrível, graças a uma hiperêmise gravídica, me considerei abençoada por ter um filho que pegou o peito imediatamente depois do parto. Assim que o colocaram no meu colo, ele pegou o peito e começou a mamar. Infelizmente, depois disso tudo deu errado. Tive dificuldade para achar a melhor maneira de segurá-lo de modo que meu peito tamanho GG não o sufocasse. As enfermeiras e a consultora de lactação me ajudaram como puderam; meu marido usou o iPhone para filmar várias posições, pois eu não enxergava direito. Mas nosso recém-nascido nunca parecia satisfeito. Perguntei se poderíamos tentar fórmula, pois ele parecia faminto, e foi como se eu estivesse falando algo proibido, mas meu instinto dizia que ele estava com fome e precisava de comida. Quando fomos fazer o primeiro check-up, meu filho tinha perdido 10% do peso em 18 horas. O pediatra sugeriu dar fórmula imediatamente, e continuei bombeando leite a cada 20 minutos, o dia inteiro. Me senti incrivelmente culpada por usar fórmula e sou grata ao pediatra, que me garantiu que isso não me diminuiria em nada como mãe. – Christina, Connecticut

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Nunca me senti tão oprimida quando no momento em que colocaram minha filha no meu colo. Ela era de minha exclusiva responsabilidade, mas a parteira era incrível. Depois de uma cesariana de emergência, fiquei surpresa ao abrir os olhos e ver minha parteira – que era uma guru dos peitos – segurando meu lindo bebê. Antes de me dar conta do que estava acontecendo, ela me entregou meu recém-nascido e declarou orgulhosamente: “Vamos fazer esse bebê pegar o peito”. As enfermeiras e a parteira foram essenciais. Lembro de chamar a enfermeira toda vez que minha filha queria comer. Ela ajudava a posicionar minha filha, dava apoio moral ou se certificava de que o bebê tinha pegado o peito. Foi reconfortante saber que não estava sozinha. – Hannah, Canadá

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Minhas emoções estavam tão bagunçadas depois de um parto terrível e inesperado com 23 semanas. Antes de ver minha filha, tive de bombear leite pela primeira vez. Não dói tanto quanto um recém-nascido mascando seu mamilo, mas me senti uma vaca sendo ordenhada – não é o primeiro contato que você espera ter com sua filha. Mas acertei o alarme, e a cada três horas bombeava mais leite. No segundo dia o leite apareceu, e isso dói. Os seios parecem pedras, e bombear o leite era a única maneira de aliviar a dor. Com a ajuda de consultoras de lactação, tentei fazer minha filha mamar algumas vezes, mas ela não estava interessada em pegar o peito. É normal que bebês muito prematuros não peguem o peito, em parte porque eles passaram semanas entubados. Continuei bombeando até a data originalmente prevista para o parto, e aí meu leite acabou. – Rachel, Wisconsin.

Os relatos foram editados e condensados.