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Por que você deve ler ‘Go set a watchman' de Harper Lee

02/08/2015 19:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

"Nem todos os homens são criados iguais”, anuncia Atticus Finch. Ele está andando pra lá e pra cá no tribunal, dirigindo-se nobremente a um júri que não está nem um pouco inclinado a dar importância a seu ponto de vista. Aos olhos de sua filha, a narradora da cena, ele é infalível.

Ela tem apenas oito anos de idade, então é muito claro o sentido que ela, e nós, extraímos da cena. O discurso de Atticus – uma declaração didática de tese que está no cerne de O Sol É Para Todos – tem a intenção de lembrar o júri e o leitor de que, embora alguns cidadãos sejam desamparados perante as regras da sociedade, o sistema jurídico é capaz de consertar injustiças.

harper lee

Essa é a ilusão central do clássico de Harper Lee, um livro que, entre outros méritos, traz à vida os atropelos do crescimento, cheio de aventuras e problemas e regras e lições. Por mais adepta que seja a autora na criação de conversas plausíveis entre crianças em tardes de verões intermináveis, a questão mais adulta da igualdade racial no sistema jurídico é tratada com mão pesada. E, já que o primeiro esboço do livro, o recém-publicado Go set a watchman (Vá, Coloque um Vigia, em tradução livre para o português), se acomoda na perspectiva de uma jovem adulta e educada, o discurso de Atticus é basicamente um sermão mal-ajambrado e simplificado sobre as várias cepas de racismo que se originaram no sul dos Estados Unidos – algumas microscópicas mas letais, outras, anciãs e imutáveis.

O livro não é bom. Jean Louise (Scout, agora crescida) não é uma personagem completamente desenvolvida; ela responde a quase tudo o que acontece se debatendo, vomitando (mesmo) ou pontificando sobre seus costumes ainda infantis. Não é surpresa que na época o livro não tenha sido considerado bom o suficiente para publicação. Mas lançar Vá, Coloque um Vigia não é só ganância por parte dos editores. O livro oferece informações valiosas para entender como O Sol É Para Todos foi concebido. Enquanto o clássico pinta um retrato idealizado de Atticus Finch, a nova obra nos mostra que o personagem é complexo e cheio de defeitos, como o sistema jurídico que ele representa.

“Existe uma instituição humana que torna um indigente igual a um Rockefeller”, conclui Atticus em sua defesa de Tom Robinson, um homem inocente acusado de estuprar uma mulher branca. O resultado do caso prova que suas palavras são falsas. Robinson é condenado. No mundo de O Sol É Para Todos, o resultado é mostrado não como uma falha da lei, mas sim dos intolerantes do júri – o sistema jurídico promove a justiça, mas os homens são incapazes de levá-la a cabo. Atticus Finch, quando visto pelos olhos admirados de sua filha, é o símbolo dos ideais do sistema jurídico – não um homem com defeitos, como todos os outros.

Atticus Finch [...] é complexo e cheio de defeitos, como o sistema jurídico que ele representa.

Esses temas, e essa verdade, é dita mais claramente em Vá, Coloque um Vigia, que se passa na esteira do caso Brown contra o Departamento de Educação. Jean Louise Finch, agora uma artista que mora em Nova York, volta a Maycomb de trem. O condutor passa da parada dela, mas, em vez de se irritar, ela se mostra confortada por saber que algumas coisas nunca mudam.

Mas outras coisas mudam, e o romance estuda Scout em sua aceitação de um progresso desconfortável. Desde os tempos malucos de O Sol, a cidade sonolenta e idílica da juventude dela foi chacoalhada pela guerra, e suas hierarquias seculares, por mudanças sociais. Advogados da NAACP (organização americana que defende os direitos dos negros) chegaram ao Alabama, defendendo cidadãos negros que no passado foram desprezados por júris racistas. Os negros de Maycomb conseguiram algumas modestas conquistas econômicas.

Até mesmo os brancos mais progressistas da cidade se sentem acuados por esses avanços. Embora a compartimentação do “separado mas igual” tenha facilitado a vida dos nobres cidadãos que defendem justiça para todos, uma versão mais completa da igualdade significa uma sacudida violenta de um sistema de castas enraizado, que de muitas formas persiste até hoje.

Em Vá, Coloque um Vigia, Atticus é o transgressor mais odioso e surpreendente – ele vai a um encontro da Ku Klux Klan e integra o Conselho dos Cidadãos, que luta ardilosamente contra o fim da segregação racial. Quando o neto do seu ex-caseiro se envolve num crime contra um branco, ele corre para “ajudar”, na esperança de manter os advogados da NAACP fora do caso. Atticus afirma que os advogados da organização manipulam júris e que os moradores de Maycomb responderiam com violência se tal coisa acontecesse na cidade. Em vez de aceitar a confusão que vem com o progresso, ele se mantém fiel a suas antigas posições, acreditando que a igualdade perante os olhos da justiça é suficiente.

Embora a compartimentalização do ‘separado mas igual’ tenha facilitado a vida dos cidadãos nobres que defendem justiça para todos, uma versão mais completa da igualdade significa uma sacudida violenta de um sistema de castas enraizado, que de muitas formas persiste até hoje.

Uma nova luz é jogada sobre sua nobre declaração de que “nem todos os homens são iguais”. Por essa caracterização de Atticus, pareceria que essa afirmação é mais um lamento pelo fato de a sociedade preferir certos cidadãos em detrimento de outros. Quando Jean Louise percebe a intolerância de seu pai, ela encontra um panfleto racista entre seus materiais de leitura. Lee escreve: “Na capa havia uma desenho de um preto antropofágico; acima do desenho estava escrito A Praga Negra.” Mortificada, Jean Louise confronta sua tia Alexandra sobre os escritos, de autoria de um homem com “vários diplomas em seu nome”. Mas, apesar de chocada com uma intolerância tão escancarada, ela tampouco é isenta de um racismo sutil.

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Dirigindo com seu galante de longa data, um carro ultrapassa por Jean Louise. “Cheio de pretos”, explica Henry. “É assim que eles se afirmam hoje em dia [...] eles têm dinheiro suficiente para comprar carros usados e vão para a estrada como se os outros não existissem. Eles são uma ameaça pública.” Ela não se opõe a essa maneira de discutir diferenças culturais. Não ocorre a ela que dirigir rápido não é menos “ameaçador” que beber demais escondido – o vício preferido dos moradores brancos de Maycomb. Em vez disso, ela suspira: “Meu Deus, e se acontecer alguma coisa?” Preferindo o balançar lento do trem e seu condutor pouco confiável ao zunido de um carro rápido, na maior parte do livro ela é culpada de uma discriminação fastidiosa e autocentrada.

Não está claro se Lee está perdoando as visões culturalmente intolerantes de Jean Louise. Por essa razão, e muitas outras, Vá, Coloque Um Vigia é uma narrativa trôpega e um livro cheio de defeitos. Mas é um contexto mais que necessário para o mundo de O Sol É Para Todos, que pode dar a impressão aos leitores que mudanças sociais são tão simples quanto aprovar e respeitar leis.

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*A edição brasileira do livro sai em outubro pela editora José Olympio.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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