COMPORTAMENTO

Livre demanda e a posição do bebê podem garantir o sucesso da amamentação, diz pediatra Carlos González

01/08/2015 10:29 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:52 BRST
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O pediatra espanhol Carlos González está acostumado a ir na contramão do senso comum -- e em direção ao instinto dos pais. O Guardian já o definiu como o pediatra que "quer que os pais a quebrarem as regras". Especialista em amamentação pela Universidade de Londres e assessor da Unicef, González é autor de vários livros sobre educação infantil. Seus dois títulos mais famosos, Besame Mucho, que fala sobre humanização no nascimento e criação com apego, e Manual Prático de Aleitamento Materno, acabam de ser lançados no Brasil.

Para González, não é preciso muito para criar um filho: apenas bom senso e prestar atenção em suas necessidades. Por isso ele é defensor da amamentação - por quanto tempo a mãe e o bebê quiserem - e se opõe a técnicas rígidas nos cuidados com o bebê, como a regra de amamentar os recém-nascidos de três em três horas e técnicas de treinamento de sono (como aquela famosa que recomenda que se deixe o bebê chorando). Para ele, a hora certa de amamentar é quando o bebê pede. "Se tenho fome, jamais penso não posso comer. Por que os bebês precisam fazer algo tão ridículo?", questiona.

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Divulgação

González também critica práticas conhecidas dos brasileiros, como a separação entre o recém-nascido e a mãe nos hospitais após o nascimento. E diz que muitos profissionais de saúde não estão preparados para incentivar o aleitamento materno. Em comemoração à Semana Mundial de Aleitamento materno, o Brasil Post conversou com o pediatra:

Brasil Post: Muito se fala sobre os benefícios da amamentação. Mas por que, apesar das recomendações da Organização Mundial da Saúde, grande parte das mulheres ainda não consegue manter a amamentação? Quais são os maiores problemas?

Carlos González: Há muitas possíveis dificuldades, e não serão as mesmas em todos os países, em todas as épocas, com todas as pessoas. Em alguns casos, a tradição ou a cadeia de transmissão dos conhecimentos foi quebrada.

Muitas mães acreditam que dar o peito é antiquado, ou desnecessário, ou muito difícil, ou simplesmente que todo mundo dá a mamadeira porque é o que elas sempre vêem. Outras não têm informação básica sobre amamentação, com a ajuda cotidiana que as novas mães recebiam das avós e outras mulheres. Ao contrário, elas podem receber muita informação errônea e pressão para parar de dar o peito.

Em outros casos, o problema são as rotinas obsoletas nos hospitais (separar o recém-nascido de sua mães, dar chupetas e mamadeiras… nem todos são amigos dos bebês), ou a falta de conhecimento de alguns profissionais, que não sabem ajudá-las com as dificuldades que podem surgir, ou lhes dão conselhos errados (como amamentar a cada três horas ou dar mamadeira se o bebê chorar).

E, claro, não se pode esquecer da publicidade dos fabricantes de leite artificial, as pressões para voltar ao trabalho e a insuficiência da licença-maternidade na maior parte do mundo.

Falta preparo da classe médica para lidar e incentivar a amamentação?

Tudo influi. Sim, muitas vezes falta a médicos e enfermeiros a formação sobre amamentação, e sobre outros temas de infância e educação infantil. O que nem é tão surpreendente, porque não se trata de doenças. O médico é uma pessoa que estudou como diagnosticar e tratar, e se possível prevenir, as enfermidades. Estudamos o diagnóstico da pneumonia e o tratamento da tuberculose. Mas as mães nos perguntam se têm de vestir os bebês com roupas sintéticas ou algodão, se devem pegá-los quando eles choram, o que fazer se ele acorda à noite… essas coisas não se estudam na faculdade de medicina!

E precisamente porque não estudaram essas coisas, os médicos são mais sensíveis à publicidade nestes campos. Se um fabricante de suco de fruta diz que o suco cura a tuberculose, nenhum médico acredita, porque estudamos sobre o tratamento correto, e sabemos que não é o suco. Mas se dizem que o suco é bom para os bebês, é provável que o médico acredite, assim como a mãe ou qualquer outra pessoa acredita. A publicidade faz efeito, por isso gasta-se tanto dinheiro com ela.

Certamente a resposta correta é que o suco não é um alimento saudável, para nenhuma idade, e muito menos para bebês. Não é o mesmo tomar suco e comer fruta, mesmo que ele seja feito em casa. Comer frutas é bom e deve ser feito todos os dias. Tomar suco não é saudável; seu consumo deveria ser ocasional.

Quais são os conselhos mais importantes para as grávidas e futuras mães que querem amamentar? Como garantir sucesso na amamentação?

Ninguém pode garantir o sucesso. Existem mulheres que não podem amamentar por diversos motivos, ou que só conseguem com muita dificuldade. Porém, por sorte, a imensa maioria das mães pode dar o peito se:

- O oferecem em livre demanda, cada vez que o bebê pede, e quanto mais, melhor (a maioria dos bebês mamam mais de dez vezes por dia, irregularmente distribuídas)

- Dão o peito em posição correta, com o bebê muito próximo à mãe, a boquinha muito aberta e o bico do peito bem dentro da boca. Por isso é útil conhecer outras mulheres que dão o peito, seja na família ou através de grupos de apoio, como o Amigas do Peito ou o Matrice.

"Se os cientistas encontrassem um novo animal, até agora desconhecido, e quisessem averiguar rapidamente (sem necessidade de observá-lo durante semanas) qual é a sua maneira normal de cuidar dos seus filhotes, poderiam fazer um experimento muito simples: levar a mãe e deixar os filhotes sozinhos. Se eles ficam quietos e calados, é porque o normal nessa espécie é que os filhotes fiquem sozinhos. Se começam a gritar como se os matassem, é porque o normal nessa espécie é que os filhotes não se separem da mãe nem por um momento. E seu filho, como reage quando você se afasta dele? O que você acha que é o normal na nossa espécie?"

Trecho de 'Bésame Mucho'

Por que é importante manter a livre demanda?

A quantidade de leite que uma mãe produz não é fixa. Depende das necessidades do bebê a cada momento. Aos quatro meses o bebê precisa de mais leite, e portanto sai mais leite. Mas o peito não sabe que o bebê tem quatro meses. O bebê de alguma maneira teve de dar a ordem ao peito, fabrica mais ou fabrica menos leite. E a maneira de dar essa ordem é mamando mais ou menos.

O que precisa de mais leite mama mais tempo, e sobretudo mama com mais frequência, e assim o peito entende que tem de fabricar mais leite. Se não desejamos que o bebê mame antes da hora, o peito não entende que é preciso mais leite, e o bebê continua com fome.

Mas para que entrar em especificações tão técnicas? É muito mais sensível do que isso. Todo mundo simplesmente come sob demanda. ISSO é o normal. Eu como quando quero, ou quando me cai bem, ou quando me convém. Uns dias às 13h17, outros às 13h49, ou as 14h29. Na realidade, nunca fico preso na hora. Se tenho fome, jamais penso não posso comer. Por que os bebês precisam fazer algo tão ridículo?

Muitos médicos dizem que, após o primeiro ano da criança, o leite materno já não é mais necessário. Isso é verdade?

Defina necessário. Se quer dizer que se não mama no peito depois de um ano não se morre, e também não se morre se damos a mamadeira desde o nascimento, poderíamos dizer que o peito não é necessário nunca. E também poderíamos dizer que não é necessário comer fruta, pois os que nunca comem frutas também podem viver muitos anos. E também os que não usam sapatos. E os que não vão à escola. E os que não leem livros. Há tantas coisas que não são necessárias...

Mas, além das coisas que são "necessárias", estritamente essenciais para a vida, estão as coisas que são úteis, recomendáveis, convenientes e práticas. O leite materno é uma delas, em qualquer idade.

E logo estão as coisas que não são recomendáveis no sentido que não há sentido para que sejam recomendadas por um médico, mas também não há nenhum dano se alguém quiser fazê-las - tem todo o direito. E as coisas que são um pouco prejudiciais, mas não são gravemente perigosas, e nada as proíbe porque não podemos proibir tudo.

Se uma criança de cinco anos tem direito a ver televisão sem ser criticada por um médico, sem dúvidas também tem direito a mamar.

Amamentação prolongada faz bem para a criança?

Bem, claro. Se ele segue mamando é porque gosta, porque lhe faz bem fazer isso. Se não, não mamaria. E se a criança aproveita, é porque já lhe fez bem.