LGBT

Padre gay demitido pede que o papa se encontre com católicos LGBT nos Estados Unidos

29/07/2015 17:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
ASSOCIATED PRESS
Boston Mayor Marty Walsh speaks at a conference on Modern Slavery and Climate Change in the Casina Pio IV the Vatican, Wednesday, July 22, 2015. Dozens of environmentally friendly mayors from around the world are meeting at the Vatican this week to bask in the star power of eco-Pope Francis and commit to reducing global warming and helping the urban poor deal with its effects. (AP Photo/Gregorio Borgia)

Em maio, o sacerdote Warren Hall foi repentinamente demitido de seu cargo de capelão da Universidade Seton Hall, em Nova Jersey.

O arcebispo de Newark disse que sua atuação em campanhas contra o bullying anti-gay e sua identificação como homossexual minam os ensinamentos da igreja.

Agora, Hall escreveu ao papa Francisco pedindo que o pontífice denuncie tais ações em sua visita aos Estados Unidos, em setembro, pois elas estão “alienando” católicos gays e muitos outros que os apoiam.

Na carta, escrita em 14 de julho, Hall pede que o papa “encontre tempo para ouvir os desafios enfrentados pela população LGBT, especialmente aqueles que são católicos e querem continuar sendo parte da igreja que amam e na qual cresceram, e que mesmo assim parece aliená-los cada vez mais”. Leia a carta na íntegra no fim da matéria.

“Bons professores estão sendo demitidos, padres compassivos e pastorais e mulheres religiosas” – uma referência às freiras – “estão sendo silenciados e aceitam ser disciplinados por seus superiores por medo, e pessoas boas e cheias de fé estão deixando a Igreja por testemunhar tudo isso o que vem acontecendo”, continuou ele.

“Como padre gay, vivencio todas essas coisas.”

O arcebispo de Newark, John Myers, ligou para Hall em maio para demiti-lo, justamente quando o padre dava as provas finais para seus alunos no campus de South Orange.

Myers disse a Hall que a decisão se baseou em uma foto postada pelo padre no Facebook no fim do ano passado, apoiando a campanha “NOH8”.

“NOH8” significa “no hate”, ou sem ódio. O movimento surgiu por causa da proibição do casamento gay na Califórnia.

Hall afirmou que não estava se posicionando contra nenhum ensinamento da igreja.

Depois de ser demitido, Hall, 52, que disse que se mantém comprometido com sua vocação de padre e com seu voto de castidade, saiu do armário.

Um porta-voz de Myers respondeu dizendo que “alguém que rotula a si mesmo ou outras pessoas em termos de orientação ou atração sexual contradiz o que a Igreja ensina”.

Na carta ao papa – que ele postou no Facebook --, Hall nota que não foi indicado para nenhuma outra função. Em uma entrevista por telefone, Hall disse que parou de receber salário em 1º de julho. Ele está vivendo de suas economias e da ajuda de amigos.

O padre disse que nunca teve a intenção de transformar sua orientação sexual numa questão, tampouco quis defender os gays católicos. Mas ele afirmou que decidiu acolher a oportunidade apresentada pela crise.

“Não sou teólogo. Não sou político. Mas sou gay. Então acho que tenho algo a dizer neste momento”, afirmou Hall.

Muitos gays e lésbicas católicos que são professores e párocos foram demitidos depois de decisões estaduais, e agora federais, que permitem que eles se casem no civil com parceiros do mesmo sexo.

A controvérsia mais recente aconteceu na Filadélfia, quando uma escola administrada por uma ordem de freiras demitiu uma funcionária de longa data. O pai de uma das alunas descobriu que a mulher tinha se casado com sua parceira e fez uma denúncia na diocese. O arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, defendeu a escola, dizendo que as administradoras “demonstraram caráter e bom senso”.

Chaput será o anfitrião do papa nos últimos dois dias da visita de Francisco, que acontece entre 22 e 27 de setembro e termina com uma enorme missa a céu aberto.

Mas muitos católicos veem nessas demissões um grande contraste com a abordagem mais neutra apoiada pelo papa.

Hall disse que foi motivado a escrever ao papa por essas histórias. Ele tem dois objetivos.

O primeiro é mostrar para as pessoas incomodadas com o tratamento da Igreja em relação à comunidade LGBT que “essa pode ser a igreja da acolhida” da qual fala o papa Francisco.

“Afastar ou demitir pessoas LGBT prejudica mais os fieis do que um padre ou professor gay”, disse ele.

O segundo objetivo é apoiar outros católicos gays que não estão abandonando a igreja, mas têm sido “maltratados” por ela. “Pense em tantas pessoas maravilhosas que podemos estar rejeitando”, disse ele.

Hall disse que escolheu não sentir raiva nem depressão em relação a sua demissão e que seus anos de recuperação do álcool também o ajudam a lidar com a situação.

“Estou irritado. Estou frustrado. Mas vejo muitas possibilidades”, disse ele. Hall disse que adoraria que Myers o deixasse criar um clero LGBT, como fizeram algumas dioceses, mas ele não tem muitas esperanças quanto a isso.

O padre diz ter recebido convites de igrejas não-católicas, mas, por mais que aprecie o apoio, não pensa em mudar. “Sou católico, não vou sair [da Igreja Católica]!”, disse ele, rindo.

Ele não tem ideia se sua carta será respondida; o papa Francisco é conhecido por escrever ou telefonar de surpresa para quem entrar em contato com ele.

Mas Hall afirma que durante a viagem aos Estados Unidos, que terá como foco os ensinamentos católicos e a abordagem da sexualidade, o papa Francisco pode começar a mudar o que Hall chama de dinâmica danosa em relação aos gays e lésbicas.

“Ele poderia oferecer com mais força a mensagem de que esta também é a sua igreja. Você é bem-vindo aqui.”

“Ele poderia pelo menos ajudar a diminuir o ritmo das demissões”, disse ele, “ajudando todo mundo a se acalmar e a respirar. A perfeição é nosso objetivo, mas ninguém chegou lá. Como podemos caminhar juntos em direção ao Reino?”

14 de julho de 2015

Sua Santidade, Papa Francisco

Caro Santo Padre,

Ao escrever esta carta, faz dois meses que fui afastado da posição de Ministro do Campus da Universidade Seton Hall em South Orange, Nova Jersey, Estados Unidos. Ainda estou sem ocupação pastoral e sem renda. Fui incentivado a tirar uma licença, o que não estava inclinado a fazer, portanto vos escrevo.

A razão para minha demissão foi o fato de ter postado na minha página do Facebook uma foto em apoio ao “NOH8”, um grupo que promove igualdade e é contra o bullying da população LGBT.

A foto foi tirada numa reunião que discutia o bullying e a violência sofridos por jovens LGBT, algo que sei que é vivenciado pelos jovens que acompanho nos meus 26 anos de vida eclesiástica.

Em uma carta para mim, o arcebispo de Newark afirmou que a razão para meu afastamento foram “mensagens imprecisas no Facebook ou no Twitter que levantaram sérias dúvidas em minha mente sobre sua posição em relação a alguns importantes ensinamentos da Igreja”. Discordo respeitosamente com os pensamentos e ações do arcebispo e sinto que estou sendo indevidamente punido.

Santo Padre, sei que há muitas expectativas em relação a vossa visita pastoral aos Estados Unidos neste mês de setembro. Peço que, entre todas elas, o senhor encontre tempo para ouvir os desafios enfrentados pela população LGBT, especialmente aqueles que são católicos e querem continuar sendo parte da igreja que amam e na qual cresceram, e que mesmo assim parece os aliená-los cada vez mais.

Bons professores estão sendo demitidos, padres compassivos e pastorais e mulheres religiosas estão sendo silenciados e aceitam ser disciplinados por seus superiores por medo, e pessoas boas e cheias de fé estão deixando a Igreja por testemunhar tudo isso o que vem acontecendo. Como padre gay, vivencio todas essas coisas.

Obrigado, Santo Padre, pela esperança e inspiração que o senhor vem dando à população do mundo, católica e não-católica. Aguardo vossa visita, assim como milhões de pessoas que estão ansiosas por suas palavras de desafio e compaixão.

Respeitosamente, em Cristo.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:


Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.