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Acampados em Brasília há mais de 130 dias, eles pedem a intervenção militar no Brasil

29/07/2015 21:41 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

"O acampamento fica até o governo cair.”

Enquanto isso não acontece, quem passa pela Esplanada brasiliense que abriga as sedes dos três poderes da República se depara com um grupo que contesta sua legitimidade. São barracas, tendas e carros com cartazes que pedem a intervenção militar constitucional. Algo que, segundo o ex-empresário Ronaldo Brasileiro, 67, é a única solução para o País. Até mesmo o impeachment da presidente Dilma Rousseff, como alguns integrantes da oposição defendem, é mal visto.

O acampamento está montado em frente ao Congresso Nacional há 130 dias e o grupo continua firme, "à espera de um milagre”. Isso porque a sonhada intervenção só se concretiza, de acordo com Ronaldo, quando a população se mobilizar. O que ele não acredita que vá ocorrer.

"A população não quer ser alertada, tem uma letargia, ela está totalmente adormecida e não está como outras vezes ocorreu de ter situações que foram superadas. Eles acreditam que essa também poderá ser superada e acreditam que bandido uma hora pode ser mocinho e resolver o assunto.”

Pelos trâmites descritos pelos intervencionistas, é preciso que os brasileiros, ou patriotas, como eles preferem chamar, se reúnam e peçam para os militares “limparem o poder”. “Está tudo no artigo 142 e no 144 da Constituição. É algo previsto pelos constitucionalistas.”

Apesar do afinco na luta pela causa, Ronaldo não vê na intervenção militar a melhor das alternativas para o País, mas se considera pragmático: "É a única alternativa". Na visão do grupo, não existe ninguém em evidência que teria condições de conduzir o País, "ou de tirar o País da atual situação que está nem manter a ordem”.

O cenário previsto pelo grupo, que conta com quase 50 mil apoiadores no Facebook, é desolador.

“Até o fim do ano, vai faltar energia, por falta de água, e toda atividade agropecuária do País será comprometida, causando um forte dano na economia brasileira. Com todo mundo sem dinheiro a sociedade se desestabiliza e precisa da ordem.”

Saudosismo

Professor do Departamento de Direito da Universidade de Brasília, Pedro Paulo Castelo Branco rechaça essa hipótese nos dias atuais. "O dispositivo existe, está na Constituição, mas só é válido quando as instituições não estão funcionando. Não é o caso. Quem quiser questionar a presidente, que acione o Congresso, como vem sendo feito."

Os artigos da Constituição que tratam do tema, segundo o professor, deixam claro que o intervencionismo seria um momento sem volta, do início de uma revolução, como houve em 1964. De acordo com Castelo Branco, a intervenção poderia significar uma nova ditadura. "Ou os militares poderiam chamar uma nova eleição."

Outro pleito, entretanto, não resolve o problema dos intervencionistas. Afinal, eles não conseguem apontar um nome, além das Forças Armadas, para dar rumo ao País.

"Esse é um saudosismo natural daqueles que querem desconstruir o ordenamento jurídico. Aparentemente, nem a população de forma geral nem os militares têm esse interesse", diz o professor.

intervencionista

"Otário" x "Patriota"

Na capital, o acampamento é composto de pelo menos cinco barracas, ocupadas 24 horas por dia. Em dias de manifestações, a área chega a ficar totalmente cheia. Segundo os organizadores, mais de 5.000 intervencionistas já chegaram a ocupar o local. Em um dia normal, cerca de três pessoas se revezam para marcar presença.

A estratégia é chamar a atenção da população e mostrar que existe uma saída (mesmo que bastante questionada).

A tática tem dado certo. Não há quem passe pelo local e não tenha a atenção chamada pela placa: “Otário pede impeachment, patriota, intervenção militar constitucional”.

Ronaldo foi escolhido pelos outros dois colegas que o acompanham nessa empreitada para ser o porta-voz do movimento e falar com o Brasil Post. Ele se define como um ex-empresário desiludido. "Não vale mais a pena ser empreendedor neste País."

Desesperançoso, o Ronaldo abandonou o mundo dos negócios no ramo de ventilação industrial em 2008, saiu de São Paulo e diz que vive sem renda. Assegura que gasta todas as economias para sustentar o movimento. "É tudo pago com a minha poupança. O aluguel dos carros, as confecção das placas, as barracas... Mas eu não sou de São Paulo, sou do Brasil, sou brasileiro, por isso acho que compensa", explica o ex-empresário.

Um dos motivadores da luta de Ronaldo é a violência. "Quando uma pessoa sai de casa hoje, ela leva o bilhete da loteria da morte. Se for sorteada, não volta mais", acrescenta. Ele foi vítima de três assaltos à mão armada na empresa, teve 17 carros roubados e ficou sete horas sob a mira de um revólver em um sequestro. "As pessoas precisam perceber que é hora de resgatar a ordem, restaurar a natureza", defende.

Intervencionistas invadem Brasília

Centro do poder

Quando o acampamento foi montado, no fim de março, a polícia insistia em retirar os intervencionista do local. “A gente montava de manhã e eles tiravam de noite. Todo dia até que desistiram”, conta Ronaldo. A desistência, porém, não foi tão simples. De acordo com ele, alguns militares ajudaram a convencer a Administração de Brasília a dar sossego ao grupo.

Ao Brasil Post, a administração alegou que o acampamento é legítimo.

"Quando se trata de manifestação, a própria Constituição em seu artigo 5º garante ao cidadão o direito ao ato, desde que comunicado aos órgãos responsáveis, e que aconteça de forma pacífica. Este procedimento cabe sim a qualquer cidadão.”

A administração, entretanto, reconheceu que as faixas são proibidas na Esplanada. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também ressaltou que não é permitido fixar barracas e faixas no local, "pois o Iphan não autoriza. Cabe ao Governo do Distrito Federal a fiscalização”.