COMPORTAMENTO

Estamos finalmente prontos para celebrar publicamente o desejo feminino?

28/07/2015 11:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

magic mike

“Agora quero que alguém me jogue pra lá e pra cá desse jeito”, brincou minha amiga logo depois que assistimos “Magic Mike XXL”, semana passada.

Fui ver a tão falada comédia-feminista-com-strippers com um grupo de três mulheres. Depois de duas horas rindo e dizendo “p**a m**da”, saímos animadas do cinema. O filme falou com a gente – especificamente, com a nossa sexualidade.

Como escreveu Patti Greco, da Cosmopolitan: “[O filme] entende que a chave da sexualidade da mulher são as preliminares. ‘Magic Mike XXL’ é uma preliminar”.

É raro ver um filme celebrar o desejo do seu público-alvo tão descaradamente (neste caso, mulheres héteros de todas as raças e idades), a menos que esse público seja uma sala cheia de homens brancos e héteros. Assistir “Magic Mike XXL” no cinema foi como estar na plateia da convenção de strippers que aparece no filme, ou então ser uma das “rainhas” do clube exclusivo da personagem interpretada por Jada Pinkett-Smith. A mensagem principal era: Você merece ser cuidada. Esses homens estão aqui para você. Eles sabem o que você quer e vão te satisfazer. Relaxe e curta.

(Lembrando como Magic Mike XXL ME CUROU nesse fim de semana. O filme louva as mulheres. AMO.)

Chegamos a um momento cultural em que a sexualidade feminina – pelo menos a das mulheres héteros – é mais reconhecida, e de formas mais ousadas.

Mulheres famosas estão falando abertamente de sexo e sexualidade. Nicki Minaj e Beyonce cantam “Feeling Myself” (me tocando, em tradução livre), e programas de TV como “UnREAL” mostram masturbação feminina normalmente, sem a intenção de chocar.

São mensagens que precisamos ouvir desesperadamente de nossas heroínas, em letras de músicas ou na TV e no cinema.

Nos últimos dois meses, Nicki Minaj e Amy Schumer disseram na lata – em entrevistas com grandes revistas femininas – que Mulheres. Merecem. Orgasmos.

“Exijo o clímax. Acho que as mulheres deveriam exigi-lo”, disse Minaj na reportagem de capa da Cosmopolitan de julho de 2015. Schumer ecoou o sentimento numa reportagem de capa da Glamour de agosto de 2015: “Não deixe de ter orgasmos. Certifique-se de que ele sabe que você tem esse direito”, disse ela.

As estatísticas dependem das fontes. Uma pesquisa da Cosmopolitan indica que só 57% das mulheres relatam ter orgasmos “na maioria ou em todas as vezes” que transam com seus parceiros. Outro estudo maior de 2000 mostrou que as mulheres têm um orgasmo para cada três dos homens. De qualquer ângulo que se olhe, parece haver grande disparidade quando se trata do orgasmo.

(Só 57% das mulheres têm orgasmos com seus parceiros. Exija o clímax. Tenha o O)

Como escreve Jessica Valenti, do The Guardian, “até reconhecermos que o prazer da mulher durante o sexo é tão importante quanto o dos homens – e que não há nada errado em transar só porque é gostoso – essa nuance será difícil de... alcançar”.

Quando vemos o prazer da mulher na cultura mainstream, damos um passo a mais em direção à igualdade sexual a que Valenti se refere.

Fiz uma pesquisa informal com amigas que assistiram “Magic Mike XXL” para garantir que meu entusiasmo não foi só por causa do abdome de Channing Tatum. Todas concordaram que o filme tocou num ponto radical.

“Nunca vi um blockbuster que tenha feito me sentir tão compreendida como mulher”, disse Elizabeth Plank, editora-sênior da Mic. “Personagens homens que são ao mesmo tempo masculinos E respeitosos com as mulheres são raros. ‘Magic Mike’ conseguiu um equilíbrio perfeito.”

“O filme é uma grande celebração de mulheres recebendo e curtindo prazeres sensoriais, que, em geral, temos de rejeitar ou controlar na vida real”, diz Isabel Foxen Duke, criadora do Stop Fighting Food.

São esses prazeres sensuais – e a ideia de que todas as mulheres que assistem ao filme deveriam desfrutá-los – que fazem de “Magic Mike” um filme tão delicioso.

Mulheres querem ser desejadas. Queremos nos imaginar no papel de uma fantasia sexual feita para nós. Queremos que nossos corpos e talvez nossas mentes sejam pilhados. Queremos mais que Edward Cullen ou Christian Grey. Queremos ser “exaltadas”, como diz a personagem Rome. Exigimos. Temos direito a isso tudo.

Ninguém está dizendo que deveríamos mandar uma cópia de “Magic Mike XXL” para todos os héteros do mundo, nem reclamar se eles não forem tão sensuais como Channing Tatum. Mas temos de expandir nossas ideias de desejo feminino; entender que merecemos explorar esses desejos e vê-los explorados fora de nossas cabeças.

Será que finalmente estamos prontas para expandir nossas ideias do que devem ser o desejo e a sexualidade da mulher? Com certeza ainda não chegamos ao nirvana da igualdade – afinal de contas, ainda estamos esperando blockbusters que atendam aos desejos multifacetados das lésbicas ou das bissexuais --, mas há esperanças.

“Rainhas, prontas para ser adoradas?”, pergunta Rome em “Magic Mike XXL”. Oh, estamos, respondem as mulheres que gastaram 20 dólares para passar duas horas olhando para a tela. Chegou a hora.

*o filme tem estreia programada no Brasil para esta quinta-feira (30).

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.