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25/07/2015 13:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Lula diz estar cansado 'das mentiras e safadezas' e das agressões à Dilma

RICARDO TRIDA/DIÁRIO DO GDE ABC/ESTADÃO CONTEÚDO

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, na noite desta sexta-feira (24) estar de "saco cheio" e "cansado das mentiras e safadezas". Em um discurso mais curto que os seus tradicionais, o petista demonstrou cansaço e expressão de abatimento. Defendeu a sucessora Dilma Rousseff e tentou minimizar o cenário de crise que assola o País, durante discurso de cerca de 20 minutos, em vez dos tradicionais pronunciamentos mais efusivos em que chega a falar por mais de uma hora, arrancando aplausos da plateia.

"Estou cansado de agressões à primeira mulher que governa esse País, de ver o tipo de perseguição que tentam fazer às esquerdas nesse País", disse Lula. "Não tem pessoa com caráter mais forte nesse País que a Dilma", afirmou em outro trecho em que exaltou a presidente.

Lula não citou diretamente a Operação Lava Jato, da investigação da Procuradoria-Geral do Distrito Federal contra ele, por suposto crime de tráfico de influência em favor da Odebrecht. Ele também não citou qualquer partido ou político de oposição, mas reclamou da imprensa, como costuma fazer. Sem citar movimentações pelo impeachment de Dilma, o ex-presidente se disse "profundamente irritado" com a reação de "pessoas que se diziam democráticas e que não aceitaram até agora o resultado de uma eleição que reelegeu a presidenta da República".

Lula também reforçou o discurso de que há um "clima de ódio, de intolerância estabelecido no País" e voltou a fazer comparações com o nazismo. "O que a gente vê na televisão parece os nazistas criminalizando o povo judeu, os romanos criminalizando o povo cristão, os fascistas criminalizando os italianos. Sei que é difícil para parte da elite brasileira aceitar certas coisas", disse, repetindo que os avanços sociais, como saída da população da miséria, inclusão educacional, com pobres chegando à universidade, indo a restaurantes e viajando de avião, incomodam as elites. "Tudo que é conquista social incomoda uma elite perversa."

O discurso veio poucos minutos depois da divulgação na internet de trechos da matéria da revista Veja deste final de semana. A reportagem mostra o cerco se fechando contra o ex-presidente ao afirmar que o empreiteiro Leo Pinheiro, da OAS, pretende fazer delação premiada implicando Lula no escândalo de desvios na Petrobras.

De acordo com a revista, Pinheiro - que é amigo do ex-presidente - prometeu fornecer provas de que Lula patrocinou o esquema de corrupção na estatal, como afirmou o doleiro Alberto Youssef em depoimento no ano passado, se comprometeu a fornecer aos procuradores a lista de despesas da família de Lula bancadas pela OAS e disse ter conhecimento de como Lulinha, Fábio Luis da Silva, fez fortuna, com atuação na órbita de influência da construtora.

Crise

No discurso realizado no Sindicato dos Bancários do ABC, na Grande São Paulo, Lula admitiu que existe medo na população brasileira e que as pessoas começam a se preocupar com a inflação e com o desemprego, mas tentou minimizar a gravidade da situação. "Eu sei o que é o desemprego porque fiquei um ano e meio parado. A inflação está alta, a 9%, mas vai cair", disse ao apontar que o desemprego era de 12,5% e a inflação de 12% quando ele assumiu a Presidência. O ex-presidente não fez qualquer menção à redução da meta fiscal anunciada esta semana pela equipe econômica de Dilma.

Ele, no entanto, repetiu argumentos de que seus antecessores quebraram o País duas vezes e exaltou "o poder de recuperação extraordinário" do Brasil, com um mercado consumidor de 200 milhões de pessoas. "Temos que dizer para todas as pessoas que acham que o mundo vai acabar, que não há momento na história desse país que o Brasil não tenha passado por uma crise", afirmou. "Não é porque uma criança está com febre que a gente vai enterrar", completou.

Lula disse que é preciso trabalhar a conscientização e formação das pessoas para que elas compreendam que os políticos podem melhorar suas vidas, especialmente destacando os avanços dos últimos 12 anos para os mais jovens. "Quem vem apostando no fracasso deste País vai quebrar a cara."

Apesar de muito bem recebido e citado por três vezes no palco como melhor presidente que o País já teve, Lula não foi saudado pelos tradicionais "olê olê olá, Lula, Lula", nem ouviu os costumeiros efusivos aplausos. Ele falou para cerca de 200 sindicalistas na cerimônia de posse da nova gestão do Sindicato dos Bancários do ABC, na Grande São Paulo. No palco, estavam, entre outros, os prefeitos petistas Luiz Marinho (São Bernardo do Campo) e Carlos Grana (Santo André), o deputado federal Vicentinho (PT-SP) e o presidente da Central Única dos Trabalhadores em São Paulo (CUT-SP), Adi dos Santos.

PSDB rechaça aproximação do PT

Representantes da direção nacional do PSDB e lideranças do partido no Congresso rechaçaram a proposta de aproximação feita por integrantes da cúpula do PT e do Palácio do Planalto neste momento de aprofundamento das crises econômica e política. Na avaliação de diferentes setores do PSDB, não há razão política para os tucanos iniciarem um dialogo com os petistas, diante do histórico de embates eleitorais.

Pessoas próximas ao ex-presidente Lula procuraram o antecessor, Fernando Henrique Cardoso, para propor uma conversa sobre a atual crise política. Entre os temas do encontro estaria a discussão em torno de um possível processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. A tentativa de aproximação foi revelada pelo jornal Folha de S.Paulo.

"Esse tipo de iniciativa é consequência do momento que eles estão vivendo, de fase terminal. É absoluto desespero. Na questão política, não temos nenhuma razão para esticarmos a mão", ressaltou o vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman. O presidente estadual do PSDB em Minas Gerais, deputado Marcus Pestana, um dos principais aliados do presidente nacional da legenda, senador Aécio Neves (MG), considerou as investidas dos adversários com um "teatro".

"Neste momento, falar em diálogo, algo que nunca houve? É um teatro, um factoide para tentar sair das cordas", disparou Pestana. "Esse tipo de iniciativa é uma mistura de desespero e cinismo. Lula se acha esperto e está tentando socializar a crise, mas ela é totalmente deles. Nos 'inclua' fora dessa", acrescentou o mineiro.

Para o dirigente, a reação de FHC de ter informado que o ex-presidente Lula não precisaria de interlocutores para marcar um encontro foi apenas um "gesto educado". "Ele é um estadista, mas na verdade o sentimento é de que quem pariu Mateus, que o embale", disse. As reações dos tucanos também foram expressas num artigo publicado hoje pelo Instituto Teotônio Vilela, órgão de estudos e formação política do PSDB. "Foram anos em que o PT reiteradamente provocou o embate, estimulou a divisão, recusou a opinião crítica (qualquer uma), atacou instituições e transformou adversários em inimigos. Agora, quando o calo aperta de vez, a postura muda num passe de mágica. Será?", questiona trecho do texto.

Embora uma primeira ofensiva da aproximação entre Lula e FHC tenha sido frustrada, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, o advogado Sigmaringa Seixas, os ex-ministros Nelson Jobim e Antonio Palocci e o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), são os "patronos" da nova tentativa. "O momento é de trazer para a mesa de diálogo pessoas com experiência, sabedoria e equilíbrio", afirmou Delcídio. "Temos de deixar os enfrentamentos políticos de lado e cuidar do Brasil".

As primeiras conversas para pôr de pé o "pacto pela governabilidade" ocorreram no início de março, pouco antes dos protestos contra a presidente Dilma, que vê com simpatia a tentativa de aproximação com Fernando Henrique, até mesmo pelo simbolismo do encontro. À época, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, apelidado no PT de "pelicano" -- o mais petista dos tucanos --, conversou com o ex-presidente.

Diante do assédio de outros governistas, porém, Fernando Henrique divulgou uma nota. "O momento não é para a busca de aproximações com o governo, mas sim com o povo. (...) Qualquer conversa não pública com o governo pareceria conchavo na tentativa de salvar o que não deve ser salvo", escreveu ele. Dias depois, em entrevista ao Estado, Fernando Henrique disse não ter nada a tratar com Lula. "Ele quer é acusar. Ele é o bom, nós somos os maus. Então, não há como dialogar com quem não quer dialogar", argumentou o tucano.

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