COMPORTAMENTO
10/07/2015 19:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Conheça a mulher que passou um ano sem comer alimentos processados

Somente cerca de 8 por cento das pessoas se comprometem com suas promessas de Ano Novo. A escritora especializada em alimentos e meio ambiente, Megan Kimble, é uma delas. Em janeiro de 2012, então com 26 anos, ela se impôs a meta de comer apenas alimentos não processados por um ano. Kimble documentou sua jornada, as lições que aprendeu e as mudanças que conseguiu em seu novo livro, "Unprocessed: My City-Dwelling Year of Reclaiming Real Food", (algo como “Alimentos Não Processados: Meu Ano Resgatando as Comidas de Verdade”) que ajuda a simplificar o desafio de sobreviver de uma dieta quase que exclusivamente de alimentos integrais.

Tecnicamente, quase todos os alimentos embalados são considerados processados, já que são produzidos ou cultivados em outro lugar e estão alterados quando chegam ao consumidor (espinafre ensacado, por exemplo, ou ervilhas congeladas). Mas, claramente, há uma grande diferença entre o espinafre ensacado e o Spam (alimento enlatado feito com carne pré-cozida), ou o queijo que não é queijo. Com esse objetivo, Kimble chegou à sua própria definição do que considera "não processado": qualquer alimento que ela poderia, em teoria, fazer ou plantar em casa. A autora conversou com o The Huffington Post sobre a sua experiência de 12 meses, que foi muitas vezes solitária, mas muito gratificante e necessária e exigia muito aprendizado.

O que fez você desistir de alimentos processados?

Foi a convergência de várias coisas. Eu lia e pensava no impacto ambiental da nossa alimentação – quanto de combustíveis fósseis é necessário para os alimentos crescerem e serem transportados, etc. Além disso eu tinha lido o "Regras da Comida" de Michael Pollan, e outros livros que falavam como os alimentos integrais - principalmente as plantas - são melhores para nós. Eu digeri tudo isso por alguns anos e decidi aceitar um desafio sobre os alimentos processados. No início, eu não tinha nenhum compromisso. Mas, eu sou definitivamente uma pessoa do tipo ou-tudo-ou-nada, então eu sabia que precisava estipular um prazo. Um ano parecia ser tempo demais, mas não era para sempre. Eu sabia que em um ano eu realmente teria que investigar alternativas e ver quais eu poderia viver sem.

megan kimble

O que seus amigos e familiares pensam desse desafio?

Comida processada tem um leque de opções. Eu conheci algumas pessoas que diziam, "Todos os alimentos são processados então isso é bobagem." Esse tipo de oposição era realmente uma coisa boa - pois me obrigava a definir o meu projeto e descobrir o que eu realmente queria dizer com ele. Todos os alimentos são processados, é claro, mas há uma diferença entre legumes cozidos e um pacote de batatas fritas. Tive a sorte de contar com o apoio de um grupo de amigos pacientes. Eu saia para comer e fazia uma enorme quantidade de perguntas sobre o cardápio e eles aceitavam isso numa boa.

Qual foi o seu maior desafio durante o ano?

Comer fora, com certeza. Existe um aspecto bem social sobre os alimentos; tanto que comer é estar com os amigos e curtir o que os outros estão curtindo. Desde sempre, os seres humanos têm se juntado para compartilhar alimentos. Seria muito difícil encontrar amigos onde todos estivessem comendo coxinhas. Era muito difícil ser profissional e realizar as funções de trabalho - você não quer falar sobre o que você come com todo mundo. Essa foi definitivamente a parte mais difícil.

Você tomou bebidas alcoólicas?

Eu bebi cerveja e vinho. Tentei beber apenas cervejas de cervejarias que eu pudesse reconhecer. Para mim, o pressuposto para o que eu considerava como não processados era, teoricamente, ser capaz de fazer em casa. Eu poderia ter feito vinho ou cerveja em casa. Eu fiz hidromel em casa. É basicamente a bebida alcoólica de mais baixo custo que você mesmo pode fazer. Parte do acordo nisto tudo foi descobrir como não pausar a minha vida. Eu queria ter certeza que as bebidas não fossem processadas, mas também queria estar certa de ser capaz de me conectar com as pessoas.

Você teve algum deslize nesse ano?

Claro. Eu estava solteira quando comecei e depois quis mudar isso. Eu saí para um encontro com um cara que pediu a comida para nós, de uma forma bem autoritária e irritante, e quando a comida veio eu não sabia o que fazer. Era sushi. Arroz branco é processado, mas eu abri uma exceção e me arrependi quase que imediatamente, especialmente por descobrir que o cara não acreditava que o aquecimento global existe. Eu escrevo sobre alimentação e meio ambiente, de modo que é um divisor de águas. O que você pode fazer? Quando você come fora, é tão difícil saber o que tem na sua comida. Eu fazia tantas perguntas, mas uma hora você tem que seguir em frente e torcer pelo melhor.

Qual foi a primeira coisa que você comeu quando o ano acabou?

Um cachorro-quente de Sonora e uma Coca-Cola Diet. A coca diet tinha um gosto terrível depois de um ano sem refrigerantes. Tinha gosto de produto químico. Na verdade, eu acabei totalmente com o vício de tomar refrigerante - não tem mais aquele gosto bom que tinha antes. Eu costumava comer mais salgadinhos, biscoitinhos embalados, batatas fritas e coisas do tipo. Agora esse tipo de lanche faz eu não me sentir bem e nem me deixa satisfeita. Isso foi um bom efeito colateral desse ano - muitos desses alimentos processados ainda estão meio invisíveis para mim e as minhas vontades.

Qual foi a coisa mais surpreendente que você aprendeu sobre os alimentos processados?

Comecei a ler os ingredientes nos rótulos de tudo o que eu comprava. Fiquei em choque ao ver como muitos alimentos processados têm ingredientes desnecessários. Há açúcar em tudo. Carnes têm açúcar. Mostarda, molho marinara, tudo tem açúcar. Os ingredientes nos rótulos dos nossos alimentos são, de certa forma, impressionantes. Quando você começa a ler é meio que impossível parar. Foi um pouco surpreendente descobrir o seguinte: empresas acrescentam muito açúcar e camadas de produtos químicos para fazer com que a comida dure mais e tenha melhor sabor. Agora leio os ingredientes compulsivamente.

Quais mudanças você notou enquanto fazia a dieta de não processados?

Eu me sentia satisfeita. Eu me senti bem satisfeita o ano inteiro. Eu já fiz dietas, várias vezes durante toda a minha vida, tipo dieta ioiô. Comer não processados significava que eu tinha que comer só quando eu estava com fome e parar quando eu estava satisfeita e não pensar mais nisso. Eu ficava realmente saciada – eu comia alimentos mais ricos, integrais, como a manteiga e ainda assim eu não ganhava ou perdia peso, eu só meio que me equilibrei. Foi muito libertador. Eu não comecei a fazer isso como dieta, mas foi um bom efeito colateral ser capaz de comer o que eu queria dentro dos limites de comidas não processadas e me sentir satisfeita e saciada.

Você descobriu novos alimentos favoritos ao longo da sua jornada?

Comecei a adquirir hábitos. Eu fazia grandes potes de feijão ou grãos no início da semana. É um tremendo poupador de tempo e muito mais barato do que comprar feijão enlatado ou comer fora. Eu tive que encontrar alimentos "atalho", marcas que eu sabia que poderia comprar sem pensar muito. Agora eu tenho essa a percepção de quais são as marcas que tendem a não colocar coisas extras nas comidas. Eu tenho um radar para comida processada agora.

Agora que o ano acabou, como está a sua dieta?

Eu provavelmente como 90 por cento menos processados. Eu só como uma ou duas vezes por semana, quando saio com amigos, e é muito bom não ter que pensar nisso. Mas, na maior parte do tempo, esse ano criou uma série de hábitos que são fáceis de manter.

Que conselho você pode dar para as pessoas que querem limitar a ingestão de alimentos processados?

O primeiro e mais simples conselho que eu tenho para dar é ler os ingredientes nos rótulos de tudo que você compra. Quando você começar a ver o que está na sua comida, você vai começar a comprar coisas melhores. O próximo passo, além disso, é comprar alimentos sem ingredientes nos rótulos - aveia, banana, produtos individuais que você pode combinar em casa. Mesmo se você não cozinhar muito, você pode preparar alimentos simples em casa, como sanduíches, saladas e massas. Se você mesmo prepara a sua comida, você tem muito mais controle sobre o que está comendo. No início, você terá que passar mais tempo preparando, mas uma vez que você encontra os hábitos e as coisas que dão certo para você, isso vai começar a se tornar parte de uma rotina e não será tão demorado.

Esta entrevista foi condensada e editada para maior clareza.

Tradução: Simone Palma

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.