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09/07/2015 12:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Como os gregos estão vivendo com bancos fechados e limites de saques no caixa eletrônico

Christopher Furlong via Getty Images
ATHENS, GREECE - JULY 07: A senior citizen leans against the door of a closed bank as he queues up to collect his pension outside a National Bank of Greece branch in Kotzia Square on July 7, 2015 in Athens, Greece. Greek Prime Minister Alexis Tsipras is working on new debt crisis proposals and is due to present them at a Eurozone emergency summit today. (Photo by Christopher Furlong/Getty Images)

Os negociadores estão em Bruxelas esta semana tentando chegar a um acordo para a crise da dívida grega. Enquanto isso, na Grécia, os bancos estão fechados e uma política de controle de capitais está em vigor. Depois de anos de crise econômica, os cidadãos são forçados a lidar com ainda mais dificuldades.

Em 28 de junho, o governo anunciou que os bancos ficariam fechados e os saques e transferências de dinheiro estariam sujeitos a limites. Desde então, os gregos enfrentam várias restrições em relação ao que podem fazer com seu dinheiro, o que tem reverberações na economia e na sociedade.

Os controles de capitais estão em vigor há pouco mais de uma semana, e o vice-ministro do Interior, George Katrougalos, anunciou na terça-feira (7) que será tecnicamente impossível reabrir os bancos esta semana.

Sem a opção de ir ao banco, os gregos dependem dos caixas eletrônicos, mas o controle de capitais limita os saques a 60 euros. As restrições têm causado longas filas, e muitos caixas não têm mais dinheiro.

A dependência dos caixas eletrônicos causa problemas óbvios para quem não tem cartão de débito, especialmente os idosos. Os bancos reabriram temporariamente na semana passada para que os aposentados e pensionistas pudessem sacar 120 euros. Houve cenas de desespero, com idosos lotando agências bancárias para tentar realizar os saques.

“Não tenho ideia do que vai acontecer se os bancos não reabrirem logo”, disse o aposentado Vasiliki, 71 anos, ao WorldPost em Atenas. “Recebi 120 euros semana passada e só consegui comprar comida. Não tenho cartão de débito – não sabia que precisaria ter um.”

“Não entendo muito bem a tecnologia”, acrescentou ele. “E se os bancos continuarem fechados? Não tenho filhos nem parentes para me alimentar.”

Uma imagem que circulou o mundo mostrou o aposentado Giorgios Chatzifotiadis, 77 anos, chorando de exaustão e exasperação depois de ser impedido de sacar a aposentadoria da sua mulher em quatro bancos diferentes.

Além dos limites diários nos caixas eletrônicos, os gregos também não podem fazer transferências eletrônicas de dinheiro para fora do país sem autorização do governo. Quem precisa enviar recursos ao exterior para emergências, como questões médicas, pode ter o pedido aprovado, mas depois o processo será revisado. As medidas têm o objetivo de evitar uma fuga em massa de recursos, mas os efeitos colaterais são graves.

A proibição de transferências tem muitas implicações para empresas que dependem de fornecedores estrangeiros. A Grécia importa metade da comida e da matéria prima que consome, e as empresas locais estão impossibilitadas de transferir dinheiro para o exterior para fazer essas compras, relata o The Guardian.

Uma indústria que está sendo particularmente afetada é do azeite. Com a crise, os produtores exigem ser pagos em dinheiro vivo, mas os distribuidores não têm como fazê-lo. Criou-se um impasse, e as empresas temem ficar sem as garrafas e tampas importadas usadas na embalagem do produto.

Além de comida e materiais associados, a Grécia também importa muitos remédios e suprimentos médicos. As farmácias relatam escassez de remédios, e os hospitais passam por dificuldades semelhantes. Empresas farmacêuticas prometeram continuar com o fornecimento para o país, apesar de o governo dever mais de 1 bilhão de euros. Muitos supermercados também estão com as prateleiras praticamente vazias.

Enquanto a população corre para estocar remédios e itens essenciais, a demanda por bens não-essenciais caiu dramaticamente. Isso significa que muitas lojas enfrentam dificuldades com o baixo movimento, agravando a crise econômica.

Serviços de internet que exigem a transferência internacional de recursos, como a compra de músicas na iTunes Store, pararam de funcionar. Empresas de transferência de dinheiro, como o PayPal, também não estão operando, o que causa problemas para empresas de tecnologia do país.

O controle de capital também afeta gregos que estão fora do país. Turistas não podem ultrapassar o limite diário de 60 euros. Um casal que passava a lua de mel em Nova York descobriu que estava quebrado, pois seus cartões não eram mais aceitos em lojas e hoteis. Eles receberam ajuda de um jornalista e da Igreja Ortodoxa Grega.

Turistas que estão visitando a Grécia também enfrentam problemas. Apesar de os limites não se aplicarem aos estrangeiros, os bancos fechados e os caixas eletrônicos sem dinheiro são obstáculos. A indústria do turismo é essencial para a economia grega e fonte de muitos empregos. Se ela for afetada negativamente, as consequências podem ser desastrosas.

Representantes gregos e dos credores europeus estão reunidos para tentar um novo acordo de salvamento da economia do país. A vitória decisiva do “não” no plebiscito de domingo deu ao premiê Alexis Tsipras apoio popular para tentar um pacote com condições mais favoráveis. Os credores dizem que agora é Tsipras quem tem de apresentar uma proposta viável. Uma reunião de cúpula marcada para domingo pode selar o destino do país.

Se não houver acordo, a Grécia vai ficar rapidamente sem dinheiro e pode ser forçada a sair da zona do euro. Para alguns gregos, entretanto, têm certeza de que as coisas vão piorar antes de melhorar.

“Quem sabe o que vai acontecer?”, disse a vendedora Katerina ao The WorldPost em Atenas. “Se sairmos, é um desastre. Se ficarmos em condições tão terríveis, é uma morte lenta.”

“Acho que esse debate já perdeu o sentido”, disse ela. “Temos de nos preparar para o pior, para toda e qualquer eventualidade.”

Com contribução de Danae Leivada, de Atenas.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.