COMPORTAMENTO
07/07/2015 20:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Bill Cosby precisou admitir que drogou e estuprou mulheres para acreditarmos nelas

Getty Images

Agora nós sabemos.

Em 2005, o comediante Bill Cosby, acusado atualmente de estuprar pelo menos 18 mulheres, admitiu ter dado um forte sedativo a pelo menos uma vítima com a intenção de ter relações sexuais com ela (para ser clara, o sexo sem o consentimento de uma das partes é chamado de estupro).

A informação estava em um documento legal divulgado nesta segunda-feira (6). Horas depois que a notícia veio a público, a realidade sobre o reforço e a difusão da chamada ‘cultura do estupro’ ficou exposta.

Ao divulgar a notícia, os principais jornais americanos usaram uma linguagem que ajudou a minimizar o que Bill fez. “Revelação bombástica” foi usado no título e a palavra “estupro” não foi usada.

Isso colabora com a perpetuação da ideia de que o que o comediante fez não foi assustador. Além disso, esta notícia não é “bombástica”. Nós sabemos da investigação deste o ano passado.

Ela sempre esteve aí – mas foi ignorada – por pelo menos dez anos.

(Cultura do estupro está embutida em dezenas de manchetes sobre o caso de Bill Cosby que não usaram a palavra "estupro")

É horrível o fato de que Cosby ter confessado tem mais peso do que a voz de mais de quarenta mulheres que fizeram denúncias contra ele ao longo dos anos. Antes de acreditar nas vítimas, "provas" se fizeram necessárias.

Jill Scott condenou Cosby depois de defendê-lo ano passado, mas acrescentou que tudo o que ela precisava era de “provas” – como se a história de quarenta mulheres não fosse suficiente para sugerir que ele é um estuprador.

(Sobre Bill Cosby. Infelizmente seu próprio testemunho oferece provas de atos terríveis, que é tudo que eu já exigi para acreditar nas acusações.)

Mas o grande problema está aqui:

(Cultura do estupro = PRECISAR que Cosby admita que ele é culpado antes de acreditar nas vítimas. Se esse é o padrão, quase ninguém seria culpado por estupro.)

Provas são necessárias em um tribunal de justiça, mas o "tribunal da opinião púbica" não exige os mesmo padrões.

Devemos ser capazes de decidir por nós mesmos e dar um outro lugar às histórias das acusadoras de Cosby que, honestamente, não tinham nada a ganhar denunciando o crime a não ser mais exposição.

Sugestões de que a riqueza de Cosby, sua posição na comunidade negra dos Estados Unidos e o fato de ser um comediante famoso, seriam pressupostos para que ele escondesse os crimes por muito tempo surgiram.

Outros acreditam que o caso é um tipo de “conspiração” para derrubar um homem negro proeminente.

Mas isso não é apenas sobre a celebridade, o dinheiro, ou a representatividade política que ele tem – devíamos parar de buscar algo para “justificar” o que ele fez ou minimizar sua culpa.

Isto é sobre a intersecção de todas essas coisas, e como, com a adição de sexismo e misoginia, é possível que casos como a de Bill Cosby se tornem realidade.

Quando Beverly Johnson, empresária bem sucedida e respeitada como uma das primeiras modelos negras dos Estados Unidos trouxe sua história à público, sua credibilidade foi questionada.

Até Johnson, apesar do sucesso e posição social, tinha medo de que sua história não fosse levada a sério ou tivesse a real importância.

Ela escreveu: "Eu lutei, pensando em como revelar o meu segredo, e o mais importante: o que as pessoas iriam falar ou pensar sobre isso? Será que eu seria vista como ‘a mulher que teve a intenção de arruinar a imagem de um dos ativistas mais respeitados do movimento negro dos Estados Unidos'? Ou será que eles me enxergariam como uma mulher honesta e se sentiriam traídos por um dos artistas mais poderosos, influentes e amados do país?”

(Eu vou dizer isso de novo, de novo e de novo. Crimes sexuais não deveriam ser acobertados. Leva tempo para que as histórias se apresentem. Cosby deveria estar na cadeia.)

Devemos usar esta história como aprendizado e experiência. E devemos perguntar: como falamos sobre estupro?

Como tratar vítimas de estupro? Como a lei alimenta a cultura do estupro e colabora para silenciar a voz das vítimas? O legado e a influência de Cosby está deteriorando de forma rápida, mas e a justiça para as vítimas?

De acordo com RAINN, um instituto de pesquisa americano, apenas 32% dos estupros são denunciados e a maioria das vítimas esperam meses ou até anos para se sentirem seguras e falar sobre a violência.

As limitações da lei sobre o julgamento de casos de estupro fará com que o senhor de 77 anos não passe um dia na prisão pelo o que fez.

Isso é cultura do estupro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost EUA e traduzido do inglês.