COMPORTAMENTO

Gordon Parks e os direitos civis nos EUA: retratos de um país ainda dividido

04/07/2015 09:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

Indo para a igreja. Brincando ao redor de casa. Admirando as vitrines. Esses são os tipos de atividades aparentemente inócuas do dia a dia que surgiram diante das lentes de Gordon Parks, icônico fotógrafo americano dos direitos civis. Autodidata, Parks acreditava no meio fotográfico como arma de mudança, capaz de comover corações e derrubar preconceitos.

Um ensaio com raras fotografias coloridas de Parks, intitulado “Gordon Parks: Segregation Story (Gordon Parks: História da Segregação)”, esteve recentemente em exibição no The High Museum of Art, em Atlanta, nos Estados Unidos. As fotos capturam um momento particularmente preocupante na história dos EUA, retratado através do dia a dia de uma família afro-americana, os Thorntons, que viveram sob o regime de segregação conhecido como Leis Jim Crow nos anos 50, no estado do Alabama.

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Gordon Parks (Americano, 1912-2006) Cortesia The Gordon Parks Foundation. Todos os direitos reservados.

As fotos, originalmente intituladas “The Restraints: Open and Hidden (As Restrições: Abertas e Escondidas)”, foram tiradas para um ensaio da revista Life Magazine, em 1956. A série retrata os efeitos diários menos evidentes da discriminação racial, revelando como o preconceito permeia mesmo os acontecimentos mais banais e pessoais. Parks não fotografa protestos, comícios, atos de violência ou marcos importantes da história dos direitos civis. Não, ele prefere os momentos mais calmos, dentro e em torno de casa.

Algumas fotos são focadas na desigualdade — uma fila para as pessoas “de cor” em uma sorveteria ou crianças negras admirando as vitrines entre manequins todos brancos. Outras sugerem a violência de maneira ameaçadora, mostrando uma criança brincando com uma arma, enquanto outra examina um rifle solenemente. Imagens como essas são especialmente assombrosas quando se compara presente e passado, levando-se em conta o número de homens negros mortos nos EUA recentemente, mais de meio século depois de as fotos terem sido tiradas.

Ainda assim, a maioria das fotos de Parks destaca o positivo sobre o negativo, com um olhar diferente sobre o registro dos direitos civis. Na imagem abaixo, por exemplo, o senhor e a senhora Albert Thornton estão sentados com postura firme, orgulhosos e circunspectos, afirmando sua existência.

Em vez de destacar a discriminação nos EUA, Parks enfatiza as semelhanças que unem todos os americanos: passar tempo em casa, estar com a família, explorar a natureza. As imagens de Parks revelaram o que muitos americanos tinham dificuldade para entender: o vínculo humano que conecta todos nós.

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Senhor e Senhora Albert Thornton

“Mais do que tudo, a ‘Série Segregação’ desafiou o mito permanente do racismo: que as raças são naturalmente desiguais, uma ilusão que permite a um grupo declarar sua superioridade sobre outro, ao caprichosamente atribuir-lhe características negativas, anormalidades e patologias”, Maurice Berger escreveu no The New York Times. “É a própria plenitude, mesmo a normalidade, das vidas da família Thornton que contesta de forma mais eficaz essas noções de diferença, que tinham surgido em uma cultura popular que não ofereceu mais do que uma visão incompleta e distorcida da vida afro-americana.”

As fotografias de Parks destacam um momento sombrio na história em cores brilhantes, espalhando conhecimento e esperança ao mesmo tempo com o clique de uma câmera. Embora desejássemos que essas fotografias retratassem um mundo totalmente diferente do qual vivemos hoje, os recentes acontecimentos revelam o contrário. As mortes de homens negros desarmados em todos os Estados Unidos revelam que hoje talvez precisemos do ensaio visual de Parks mais do que pensávamos, ou esperávamos.

Agora é o melhor momento para que lembremos uns aos outros, seja pelas fotografias de Parks ou pela hashtag #MyBlackLifeMatters (Minha Vida como Negro Importa), que toda vida humana é importante.

“Fui perguntado se acho que chegará um dia quando todas as pessoas vão se unir”, Parks disse uma vez. “Gostaria de pensar que sim. Tudo o que temos que fazer é esperar e sonhar e trabalhar para este fim. E é isso o que tentei fazer durante toda minha vida.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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