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29/06/2015 11:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Apoio à causa gay tem 'abismo' entre multinacionais e brasileiras

ASSOCIATED PRESS
Parade viewers cheer at the 41st annual Pride Parade Sunday, June 28, 2015, in Seattle. Rainbows and good cheer were out in force Sunday as hundreds of thousands of people packed gay pride events from New York City to Seattle, San Francisco to Chicago to celebrate a Supreme Court ruling legalizing same-sex marriage. (AP Photo/Elaine Thompson)

Aos gays, o silêncio. Na maioria das empresas brasileiras, as relações de trabalho ainda impõem que os profissionais homossexuais se mantenham no armário durante o expediente.

A discussão do tema no País, no entanto, começa a ganhar força graças a práticas inclusivas de multinacionais que também são implantadas no Brasil. Cerca de cem empresas já participam dos encontros do Fórum de Empresas e Direitos LGBT. No início de junho, um evento da consultoria McKinsey reuniu, em São Paulo, 120 universitários interessados em trabalhar em empresas sensíveis à diversidade sexual.

Essa discussão nas organizações vai além da extensão de benefícios, como plano de saúde e seguro de vida, a casais homossexuais.

Segundo Brian Rolfes, executivo da consultoria que comanda um grupo batizado de "McKinsey Glam", a meta é criar um ambiente que favoreça que os profissionais LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) identifiquem claramente sua orientação sexual, se assim desejarem - exatamente como fazem os colegas heterossexuais.

"Na McKinsey, a pessoa pode sair do armário em diversos níveis. Falar com só com o departamento de recursos humanos, com os colegas próximos ou então para toda a organização."

A história da McKinsey Glam se confunde com a chegada de Rolfes à empresa. Ele entrou na companhia há 20 anos, exatamente quando um pequeno grupo de seis altos executivos fez a primeira reunião voltada à comunidade LGBT da empresa. O movimento foi ganhando corpo ao longo do tempo. Hoje, reuniões com alunos gays, lésbicas e transgêneros de universidades renomadas nos EUA, como Harvard, chegam a atrair 300 empresas.

O executivo da McKinsey cita um estudo chamado O Quociente G, de Kirk Snyder. O argumento é que funcionários que trabalham para gerentes ou chefes gays tendem a reportar um maior nível de satisfação com o trabalho (81% ante 45% da média americana) e de clima organizacional (85% ante 40% da média). "Os grandes talentos vêm em todas as formas e cores. As empresas não podem se dar ao luxo de ignorar a comunidade LGBT", frisa Rolfes.

Longo caminho

Cinco semanas depois do jantar que comemorou os 20 anos da McKinsey Glam, o grupo conseguiu realizar seu primeiro evento no Brasil. Embora a consultoria já tenha implementado práticas de clima organizacional e benefícios por aqui, foi a primeira vez que essa faceta foi mostrada ao público.

No auditório da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, 120 estudantes universitários da comunidade LGBT discutiram experiências sobre ser gay dentro de uma empresa nacional. A conclusão: ainda há um caminho a percorrer.

Por aqui, a McKinsey só conseguiu angariar seis empresas dispostas a discutir abertamente o tema: Facebook, Google, Dow Química, JP Morgan, Goldman Sachs e Ambev. Neste grupo, a gigante brasileira de bebidas era a única real novidade: entre as estrangeiras, Facebook, Google e Dow são consideradas pioneiras da defesa dos direitos LGBT no mundo corporativo.

Procurada pelo Estado, a Ambev não concedeu entrevista. Fontes ligadas à empresa disseram que não há um debate amplo dentro da companhia em relação ao assunto. No entanto, os estudantes que compareceram ao evento da McKinsey elogiaram a postura da companhia em relação ao tema.

Para que o cenário mude - especialmente entre as companhias de capital nacional -, seria necessária uma orientação expressa vinda de cima. De acordo com o secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, Reinaldo Bulgarelli, uma das exigências feitas às empresas que se comprometeram a assinar um termo de compromisso em relação ao tema é a disposição do presidente das empresas em falar abertamente sobre o assunto.

Os compromissos ainda incluem o respeito a gays, lésbicas e transgêneros no marketing e a garantia de que a orientação sexual não seja um fator que possa impedir promoções de cargo.

Até agora, apenas 16 empresas assinaram o compromisso, sendo apenas uma de capital nacional: a Caixa Econômica Federal. No entanto, segundo o secretário executivo, recentemente o banco estatal pediu para voltar atrás e rever o compromisso.

Procurada, a Caixa afirmou estar comprometida com a causa. No entanto, por ser um banco público, precisa seguir regras específicas para patrocinar eventos, por exemplo, o que ocasionou o pedido de saída da associação.

Embora tenha sido organizado por Bulgarelli, em 2013, o fórum de direitos LGBT é administrado pelas próprias companhias. No momento, a líder é a IBM - as reuniões são realizadas na sede da empresa americana, considerada outra precursora na defesa de diversidade sexual em nível global.

Embora 16 empresas tenham assinado o termo de compromisso proposto pela organização, quase 100 companhias participam de forma intermitente das reuniões, entre elas várias de capital nacional, como Bradesco, Braskem e Bematech.

Ainda que Bulgarelli considere que o interesse pelo fórum esteja crescendo de forma rápida, ele acredita que o conservadorismo continua dando o tom dentro das companhias de capital nacional.

"As empresas nacionais ainda estão bem atrasadas. Aqui, mesmo com o reconhecimento do casamento civil homossexual, ainda há casos de gente que tem dificuldade em assegurar benefícios", diz o fundador do Fórum de Empresas e Direitos LGBT.

"No Brasil, há uma dificuldade generalizada com a diversidade sexual, de gênero e raça."