MULHERES
29/06/2015 12:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

'A outra mulher' dentro de Nina Simone: Por que a alta sacerdotisa do soul está voltando


A voz profunda e quase andrógina de Nina Simone era capaz de preencher um cômodo até o teto e faz exatamente isso em seu cover de 1958 para “The Other Woman”. A canção é de uma tristeza penetrante – Nina canta sobre a vitória silenciosa de uma esposa sobre a amante de seu marido, acreditando que seu homem sempre voltará para ela. Além de ser indicativo de um humilde triunfo nas dinâmicas entre homem e mulher da época, a música também pode aludir às batalhas internas da vida de Nina entre duas mulheres – a bem-sucedida e inovadora “Alta Sacerdotisa do Soul” e a bipolar imprevisível que sofria com testes de saúde mental bem antes de doenças como estas serem diagnosticadas normalmente.

A vida genial e trágica da cantora passa por um momento de reapreciação popular, com um filme biográfico controverso, Nina, e um disco-tributo com nomes como Ms. Lauryn Hill e Usher. Mas ela está exibida quase por completo no documentário do Netflix, What Happened Miss Simone?, que estreou na última sexta-feira (26). Dirigido pela diretora indicada ao Oscar Liz Garbus, o filme é repleto de entrevistas com amigos, familiares e a própria Nina em gravações inéditas.

O documentário pinta com talento a dualidade de Nina Simone – de um lado temos a pioneira dos direitos civis que nasceu como Eunice Kathleen Waymon na época da segregação racial americana, e do outro a maníaco-depressiva louca que surtava com amigos e fãs. What Happened, Miss Simone? acompanha a carreira da musicista e seu envolvimento com o movimento em prol dos direitos civis com a canção “Mississipi Goddam” nos anos 60, passa pelo exílio imposto a si mesma e a luta contra o vício no decorrer das próximas décadas, chegando à redenção final e aceitação crítica renovada nos anos que precederam sua morte, em 2003.

O que mais importa em Nina Simone, e é capturado com sucesso no documentário, é que ela não só era uma musicista genial, mas também uma musicista negra genial. Para ela, sua própria negritude era saturada e inevitável. No começo da carreira, antes de sua música tratar de raça pública e explicitamente, ela lutava com sua aparência. Após alguns trechos de seu diário serem revelados ao público, esta batalha ficou ainda mais clara. Em dado momento, ela escreveu para si mesma.

"Não posso ser branca e sou o tipo de menina de cor que parece com tudo que os brancos desprezam ou foram ensinados a desprezar."

"Se eu fosse um garoto, não importaria tanto, mas sou uma garota e estou diante do público o tempo todo para que possam zombar e me aprovar ou desaprovar."

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