NOTÍCIAS
25/06/2015 15:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Martin Schulz: ‘Não há saída quando os radicais lideram as negociações'

Martin Schulz vem a Madri para uma celebração, mesmo que os ânimos que deixa em Bruxelas sejam mais fúnebres. O drama grego se aproxima do penúltimo ato, e o leve otimismo despertado pela proposta do governo de Tsipras para evitar a quebra do país está por um fio.

Mas o presidente do Parlamento Europeu está otimista; ele acredita que estas últimas páginas sejam a ante-sala de um acordo justo. “Não podemos seguir nos dedicando exclusivamente à dívida do país, temos de nos concentrar no crescimento e no emprego”, assegura Schulz.

Huffington Post: Alex Tsipras vai poder defender um acordo com base em suas últimas concessões ou será tachado de traidor pelos gregos?

Martin Schulz: Quando os radicais lideram as negociações, não há saída. Precisamos de soluções pragmáticas, não de grandes debates ideológicos. A população da Grécia está ficando sem saúde, as famílias não têm comida quente para servir aos filhos e não podem alimentá-los de retórica ideológica. Oferecemos ao governo grego não aumentar o IVA da saúde e da energia nem fazer grandes cortes nas pensões: temos de reformar completamente o sistema de pensões, mas não com cortes imediatos. E há propostas esquerdistas, como impostos mais altos sobre fortunas, que, acredito, não despertam objeções. Este princípio de acordo salva a reputação do primeiro-ministro grego, que luta por melhorias sociais, e das instituições [europeias], que entendem que o ônus da dívida não deve recair sempre sobre a população em geral. É um acordo justo, e estou otimista de que conseguiremos fechá-lo.

Mas por quanto tempo? Estamos falando de um acordo duradouro ou voltaremos a ver a mesma tensão em quatro meses?

Essa é a chave. Se for um remendo, não teremos conseguido nada. Mas criar uma atmosfera que permita atrair investimentos, incentivar o crescimento e criar emprego: isso é o importante agora. Como o Plano Juncker, por exemplo: investimentos em energia renovável, turismo, modernização da agricultura. E reformas, claro, porque a administração pública grega precisa delas.

Nesta quarta o Parlamento Europeu votou o Plano Juncker de investimentos, destinado a impulsionar a economia europeia e a criar empregos. Quando ele trará resultados?

As bases legais para os investimentos estão aí, assim como as garantias da UE. O Banco Europeu de Investimentos pode começar desde já a tentar atrair investidores e a supervisionar os projetos; não queremos que os Estados apresentem projetos que já tenham sido financiados com seus orçamentos nacionais, achando que assim vão economizar dinheiro... Com os projetos da UE podemos começar imediatamente.

O plano não chegou tarde demais?

Você sabe que defendo algo assim há anos e sempre recebi negativas, na Comissão e no Conselho. Apesar de ter disputado a presidência da Comissão com Juncker, esse plano nos unia. Reconheço o valor que Juncker teve em sua implementação. Mas, sim, ele chega tarde. Você deveria perguntar a outros o porquê.

O senhor está preocupado com a emergência dos partidos populistas na Europa?

Sim. São os populistas que dizem para os eleitores que a globalização, ao fim e ao cabo nada mais que uma economia mundial bem conectada, é algo que possa ser detido ou moldado. Os que dizem que se pode existir exclusivamente no âmbito nacional, olhando para o umbigo: há muitos partidos de direita assim. E na esquerda há os antiglobalização, os anticapitalistas que nunca têm propostas alternativas. Gente que sempre pede mudanças, mas para quem as propostas nunca são suficientes e, portanto, votam contra. Tudo ou nada; eu, de minha parte, acredito que 1% de alguma coisa é melhor que 100% de nada.

O senhor tem acompanhado do Parlamento Europeu a evolução do Podemos no último ano. O senhor os considera populistas?

Difícil dizer. Há tendências muito heterogêneas dentro do Podemos. Não é um único partido. Alguns de seus membros são muito sérios, outros são mais como o que acabo de descrever. É como o Syriza: não é um partido único, mas sim um conglomerado de opiniões distintas.

Como social-democrata, o senhor se preocupa com o fato de que o PSOE está fazendo acordos com o Podemos depois das eleições locais? Acredita que o PSOE pode perder sua identidade?

O que vejo é que Pedro Sánchez não deixa de crescer nas pesquisas. Todos os partidos social-democratas europeus têm de competir com seus programas e, depois das eleições, ver com que outros partidos podem fazer acordos. Vale para os conservadores, para o Podemos, e Pedro Sánchez fará o mesmo, e também o Ciudadanos. Sou de um país (Alemanha) com uma grande tradição de coalizões: cada um tem seu programa, e depois das urnas cada partido conta.

Como vai a coalizão entre conservadores e social-democratas na Alemanha?

Olhe as pesquisas: há uma maioria esmagadora de alemães muito satisfeitos com o governo, o que é excepcional. Não é fácil para nós, social-democratas, mas temos um princípio interno: primeiro o país, depois o partido.

Falamos de Grécia, mas não de outro desafio importante para a Europa: a possibilidade de um Brexit (saída do Reino Unido da UE) depois do referendo previsto para 2017. O senhor parecia muito irritado com a postura dos britânicos depois de se reunir com David Cameron na semana passada...

Quem acha que eu estava irritado não me conhece: acho que fui muito moderado. Foi um encontro muito aberto com David Cameron e o ministro da Relações Exteriores, Philip Hammond, mas não posso fazer nada além de tomar nota de sua decisão de convocar o referendo. Sou cético quanto à possibilidade de mudar os tratados europeus num futuro próximo. Por outro lado, suas propostas para termos uma UE mais transparente, efetiva e próxima dos cidadãos me parece um debate construtivo. Mas, se houver confrontação direta, “ou eles ou nós”, aí não haverá saída.

O que o senhor diria para um jovem de vinte e poucos anos – espanhol, grego, português – que não encontra trabalho e para quem é cada vez mais caro estudar? O que a Europa tem a oferecer a esses jovens?

Primeiro, diria que o entendo. Alguém que está pagando as dívidas dos outros... diria que entendo. Mas não há nada que possamos fazer de maneira direta ou imediata. Pensemos nas razões do problema. Estou em Madri para a comemoração dos 30 anos do Tratado de Adesão à UE. Durante 20 anos, entre 1985 e 2005, os pais desses jovens viram o enorme salto adiante dado pela Espanha, a enorme quantidade de dinheiro recebida da UE. Mas, quando a crise chega, a responsabilidade é da UE? A culpa pela especulação irresponsável dos bancos espanhóis é da UE? Talvez a única responsabilidade da Europa é não ter regras suficientes para impedir esse comportamento. Portanto, minha resposta seria: o que a Europa pode fazer por você é voltar a controlar o sistema bancário e implantar impostos para evitar que os especuladores ganhem dinheiro nos bons tempos e que os contribuintes paguem a conta nos tempos de vacas magras. Não há justificativa possível para que 2 bilhões de euros escapem do fisco dos países-membros a cada ano. Com só 10% desse dinheiro teríamos recursos suficientes para investir na criação de empregos para os jovens. E diria mais: que não acreditem em quem diz que tudo o que sai de Madri é bom, ou o que vem de Bruxelas é ruim. Isso é populismo.

O senhor parece quase um “indignado” quando fala assim...

Sou apenas um político, descrevendo os problemas que vejo e buscando soluções.

Antes de político, o senhor foi vendedor de livros. Que livro recomendaria para que os jovens entendam melhor a Europa?

Para quem gosta de política, The Sleepwalkers (os sonâmbulos, em tradução livre), do historiador australiano Christopher Clarke, sobre como os políticos europeus caminharam para o desastres da guerra de 1914, apesar de saberem que cada passo que davam os aproximava da catástrofe. Mas, em vez de parar, preferiam esperar que os outros o fizessem... Como sonâmbulos. E o que estou lendo agora: Judas, do israelense Amos Oz. Por que o apóstolo menos importante foi o mais famoso? Por que traiu Jesus por 30 moedas, que hoje equivaleriam a uns 300 euros? Muito interessante.

A ideia de uma Europa unida tem traidores?

É uma ideia que enfrento diariamente... Sempre colocamos a culpa nos outros.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost ES e traduzido do espanhol.