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22/06/2015 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Apesar de estremecida, relação entre PT e seu principal aliado não rompe antes de 2018

ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

Falta de diálogo e também de afinidade. Essas são as principais queixas do PT e do PMDB quanto à aliança entre os dois partidos. A relação estremecida já há algum tempo aparenta estar cada vez mais na iminência de um término. No entanto, de acordo com petistas e peemedebistas ouvidos pelo Brasil Post, por mais que haja conflito, este casamento está longe do divórcio.

Ao Painel, da Folha de S.Paulo, um peemedebista comparou: "Estamos como um casal que mora na mesma casa, mas não se fala. Cada um cuida da sua própria vida”.

A separação, entretanto, pareceu arquitetada com a declaração do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em reação aos petistas que pediam o fim da aliança no 5º Congresso da sigla, realizado em Salvador. Vaiado pelos militantes do partido, Cunha disparou:

“O PMDB está cansado de ser agredido pelo PT constantemente e é por isso que declarei que essa aliança não se repetirá. Talvez tenha sido melhor que eles aprovassem no congresso o fim da aliança. Não sei se num congresso do PMDB terão a mesma sorte.”

Ao Brasil Post, um peemedebista reclamou da falta de diálogo com os aliados. “Não é de hoje que não tem conversa. Eles fazem o que querem e não nos consultam. Quando reagimos, eles reclamam. Fica difícil”.

A falta de afinidade ficou clara na elaboração do texto da redução da maioridade penal. Com o discurso afinado com o do presidente da Casa, o relator do texto, Laete Bessa (PR-DF), foi certeiro e disse que nem chamou o PT para conversar.

"Nem conversamos com o PT porque a posição já é conhecida. A posição do PT é ditada pela presidente da República, que quer interferir nos nossos trabalhos aqui.”

Petistas reforçam que o problema é a diferença ideológica e alegam que este é um dos principais marcos para a ruptura. O presidente do PT, Rui Falcão, foi um dos primeiros a reconhecer que há contradições, mas enfatizou que não há intenção nenhuma de romper.

Nos bastidores, os políticos justificam o empurra-empurra da aliança com a necessidade que um partido tem do outro. O PT, da presidente Dilma, reconhece que não pode romper e levar a mandatária para um isolamento ainda maior. Por mais que hajam problemas, no fim, o governo ainda consegue vislumbrar alguma possibilidade de acordo. “Consegue imaginar isso sem nenhuma aliança?”, questiona um petista.

Já o PMDB, ao tensionar, ganha espaço. Peemedebistas dizem que é preciso que o partido se posicione, mostre sua cara. E, na avaliação desses políticos, não dá para fazer isso aceitando todas as posições do PT. "Ainda assim, antes de 2018, com Michel Temer na vice-presidência, não tem como essa separação ocorrer. Tem briga porque não se pode aceitar tudo", minimizou um deputado correligionário do vice-presidente.

Professor da Universidade de Brasília (UnB), o cientista político David Fleischer chama atenção para o embate entre o Legislativo e o Executivo. Como o PMDB comanda o Congresso, com as presidências nas mãos de Cunha e Renan Calheiros (AL), as duas Casas aproveitam a brecha, causada pelo desgaste do governo Dilma, para lutar por mais poder.

“Isso é comum ao presidencialismo. Quando o presidente entra no fracasso, sem muita iniciativa, o Legislativo sob o tom. Há um bate-boca muito grande entre os dois partidos. O problema é que o PT perdeu muito espaço politicamente, por causa dos escândalos, da situação econômica, e o PMDB pede cada vez mais espaço e quer participar da tomada de decisões."

Fleischer acrescenta ainda que as várias derrotas impostas pelo partido à presidente Dilma causa um baque. “O PMDB já tirou a possibilidade da presidente indicar mais ministros ao STF, quer tirar a autoridade dela para indicar presidentes de estatais, mas isso é só o Legislativo tentando assumir mais poder.

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