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16/06/2015 11:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

'Jeb!' entra na corrida presidencial americana: Os Bush estão de volta

Montagem/AP Photo

Os fundadores dos Estados Unidos odiavam o que Thomas Jefferson chamava de "aristocracia artificial que tem como base a riqueza e o lugar de nascimento".

Assim, você deve estar se perguntando o que eles achariam de Barbara Pierce Bush, a matriarca sangue azul da dinastia Bush, em seus 90 anos, cabelos brancos como a neve, língua mordaz, que cresceu no rico subúrbio de Rye, em Nova York.

Ela é prima distante de um presidente (Franklin Pierce), esposa de um presidente (George Herbert Walker Bush), mãe de outro presidente (George Walker Bush) e mãe do outro que anunciou nesta segunda-feira (15) que também se candidatará à presidência: John Ellis "Jeb" Bush.

Jeb Bush é "artificial" e será que por isso está destinado a sentir o rancor e o desprezo dos eleitores medianos americanos (Jeffersonianos)? Ou ele é do tipo aristocrata - que fez por merecer, por suas próprias "virtudes e talentos" – o que Jefferson louvava e tem sido, em várias ocasiões, a escolha dos eleitores americanos?

É o que estamos a ponto de descobrir.

A partir desta segunda, ser um Bush será tanto (se não mais) um fardo quanto uma benção para Jeb. Suas conexões com a família lhe permitiram construir um fundo de campanha na ordem de US$ 100 milhões de dólares. Ele construiu uma rede de contatos em estados chave e não tem dificuldades em conseguir atenção.

Mas ele tem sido prejudicado por perguntas sobre a controversa trajetória do irmão mais velho, especialmente após a fatídica decisão de George W. Bush de invadir o Iraque em 2003. Quase todos nos Estados Unidos, incluindo seus rivais para a nomeação presidencial republicana, já declararam que a Guerra do Iraque foi um erro colossal e ignorante.

Ainda assim Jeb pareceu surpreso quando lhe perguntaram sobre o tema e no início defendia o irmão, alegando lealdade familiar. Depois de dias de hesitação evasiva ele finalmente se juntou ao resto.

E ele tem a sobrecarga de herdar, por inferência, a reputação do pai e do irmão com suas ideologias relativamente moderadas, especialmente pelos padrões da Tea Party de extrema direita do Partido Republicano de hoje.

Jeb tentou provar para os conservadores autênticos que é firmemente contra o aborto e o casamento gay. Mas a história da sua família, de mente mais aberta, fez a própria moderação cautelosa de Jeb, sobre a política de imigração e de educação pública, ainda mais suspeita para os da direita.

O slogan da campanha de Bush, revelado na segunda, era uma palavra e um ponto de exclamação - "Jeb!" - sem nenhuma menção a "Bush".

Ao entrar na corrida, Jeb fica em uma posição pouco comum para um membro de tão proeminente, se não histórica, família: não é claramente o favorito e nem de longe o bilhete premiado.

A melhor aposta neste momento recai em dois homens muito mais jovens, os dois mais conservadores, e com nomes que absolutamente fizeram por merecer: Governador Scott Walker de Wisconsin e Senador Marco Rubio da Flórida.

Em teoria, a mais antiga democracia moderna do mundo deveria ter uma rotatividade constante de nomes e rostos nos altos postos. Na verdade, as dinastias políticas nos Estados Unidos são comuns e, sem dúvida, tornam-se ainda mais comuns no momento em que o Big Money – grande suma de dinheiro, pessoal e de corporações - significa tanto para a realização das eleições americanas.

E com o anúncio de Jeb, os Estados Unidos e o mundo terão a possibilidade de ver em 2016 uma campanha entre duas dinastias: os Bush e os Clinton.

Isso seria uma prática que soa familiar. Desde 1980 até 2008, os EUA tiveram sete eleições com um Bush ou um Clinton nas urnas.

Há vantagens para o nome e a tradição Bush - e não apenas as conexões e o acesso a uma lista gigante de doadores.

Os Bush "não são mais as frutas mais frescas da cesta", disse o historiador Evan Thomas, que escreveu extensivamente sobre a família. "Mas eles são atrativos para muitas pessoas, pois eles projetam uma imagem antiga de serviços ao país."

Eles também têm um talento especial para incorporar elementos de mudança social - uma espécie de dinastia em adaptação, se assim preferir.

HW Bush mudou-se para o Texas ainda jovem, justamente quando a região do Sun Belt, Cinturão do Sol, dos EUA estava se tornando a base do novo Partido Republicano; George W. Bush cimentou essa tendência e construiu sobre ela.

Jed Bush radicou-se na Flórida, agora o último estado "decisivo". E, como dita a sorte, ele está bem posicionado para cortejar o bloco eleitoral mais influente na atualidade: os hispânicos. Ele fala espanhol fluente e está casado desde 1974 com Columba Garnica Gallo Bush de León, do México. O casal tem três filhos, um agora também na política.

Quando os filhos de Jeb e Columba eram pequenos, o primeiro presidente Bush referia-se a eles, brincando, como "os pequeninos marrons." O comentário foi interpretado como uma gafe colossal; agora é uma verdade poderosa.

Em seus dois mandatos como governador da Flórida, de 1999 a 2007, Jeb Bush - empurrado pela força de direita do seu partido - tomou principalmente posições políticas conservadoras: contra o aborto, contra a união gay, contra cortes fiscais maciços e contra a regulamentação anti-business.

Existiam exceções, como nas questões ambientais, nas normas de imigração e na educação, mas ele moveu-se para a direita nessas e em outras questões enquanto se preparava para lançar um apelo aos eleitores de base do Partido Republicano.

Todo esse tempo ele e a sua família mantinham laços com a sua antiga base na Nova Inglaterra - raízes essas simbolizadas pela casa de verão de Bush no Walker´s Point, em Kennebunkport, na costa atlântica do Maine. Jeb está até construindo uma casa de férias no complexo da família. Ficará pronta para o próximo verão.

"Os Bush têm a capacidade de incorporar realidades demográficas variadas", disse o historiador Jon Meacham, cujo livro sobre o primeiro presidente Bush, Destiny and Power: The American Odyssey de George H.W. Bush ("Destino e Poder: A Odisseia Americana de George H.W. Bush", em tradução livre), será publicada em novembro pela Random House. "Foi a combinação de Walker´s Point (no Maine) com Texas e Flórida que os tornou uma força política durável."

O que alguns poderiam chamar de aristocracia por adaptação, outros chamariam com termos menos lisonjeiros: elitismo e poder do dinheiro corporativo.

Os Bush sabem bem que agora não é o momento para serem pensados como políticos profissionais e, muito menos, herdeiros de uma dinastia política. Os eleitores americanos -na verdade, os eleitores em todo o mundo – têm se azedado com a política à medida que ela cai cada vez mais firme nas garras de indivíduos "ultrarricos" e corporações globais.

Até os republicanos - o partido dos negócios, da redução de impostos e do poder corporativo - estão enfrentando uma rebelião popular com o tipo de fervor populista que poderia tornar as coisas difíceis para Jeb Bush.

"Eu espero sinceramente que os Bush já eram", disse um alto estrategista do Partido Republicano que está trabalhando para um dos rivais republicanos de Jeb.

"A única coisa que ele tem é um nome reconhecido e dinheiro do sistema", disse o conselheiro, que insistiu no anonimato. "E ele seria o pior de todos os candidatos para concorrer contra Hillary, porque perderíamos a vantagem no argumento da ‘dinastia’.

Jeb, aos 62 anos, tem outra carga mais pessoal: os Bush mais velhos sempre o consideraram o filho mais adequado para ser presidente. Falhar agora criaria um cenário familiar amargo.

Jeb era o "mais esperto" - o acadêmico, um tipo quase excêntrico. Ele era um excelente estudante na Universidade do Texas. Ele gosta de ler documentos detalhados tanto quanto seu irmão mais velho, o ex-presidente George W. Bush, gosta de ler as páginas de esportes. Ele é o mestre de todos os temas que discute, e são muitos. Na maioria das vezes ele escorrega com habilidade, ou toma uma posição e deixa claro o seu ponto de vista.

Ele é alto - 6'3 ", ou 1,92 metros, umas 4 polegadas a mais do que W. Isso é importante para a família Bush: eles gostam de ser altos e bem magros. Isso é compatível com o conceito que eles têm de si mesmos. Em 1991, em um jantar de Estado na Casa Branca, organizado por seus pais, George W. brincou com a Rainha Elizabeth que ele era "a ovelha negra da família." Ele quis dizer, em parte, pelo fato de ser nanico.

Dois anos após seu pai perder uma chance para o segundo mandato, Jeb e George, em 1994, começaram suas jornadas políticas em direção ao topo. Jeb concorreu para o cargo de governador da Flórida; George para o de governador do Texas.

A suposição, fora da família, era que Jeb ganharia e George perderia. A esperança dentro da família também era essa e que se apenas um deles pudesse ganhar, que fosse Jeb.

Mas, para choque e surpresa de quase todos, o resultado foi outro - e o resto, como dizem, é história.

Vinte e um anos depois do seu início no trem que saiu fora dos trilhos para a Casa Branca - e depois de anos de exames de consciência, problemas na família (uma filha viciada em drogas) e uma conversão religiosa ao catolicismo - Jeb está de volta.

No verão de 1994, eu sobrevoei junto com ele, em um pequeno avião, toda a Flórida Central. Ele estava a caminho de um dos comícios de sua campanha, na primeira e malsucedida corrida para governador.

Nós sobrevoamos os Everglades, vasto, precioso e famosamente ameaçado pântano e refúgio de vida selvagem. Ele olhou para baixo para a exuberante vastidão e iniciou uma discussão sobre como a água fluía em um fraco rio invisível.

No ar, ele parecia um aspirante a político experiente.

Mas quando nós aterrissamos em um pequeno aeroporto na zona rural da Florida Central, um grupo de antigos partidários políticos e aliados de seu pai vieram na direção do avião para cumprimentá-lo. Eles não o conheciam bem, mas automaticamente o trataram com respeito, carinho e lealdade.

Pareceu-me um pouco aristocrático.

Tradução: Simone Palma

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.