COMPORTAMENTO
15/06/2015 17:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Esta cena de 'Orange Is The New Black' explica a importância de descriminalizar o aborto

***AVISO: SPOILER da 3ª temporada de Orange is the New Black!***

A 3ª temporada de 'Orange Is The New Black' começou muito bem (leia-se muito bem mesmo). A Netflix disponibilizou os novos episódios na última sexta-feira (12) e, provavelmente, se você é muito fã, já deve ter assistido a todos neste fim de semana. Se ainda não o fez: faça a-go-ra. Big Boo (Lea DeLaria) é a personagem da vez -- tanto, que vai fazer você até chorar.

No episódio 'Dia das Mães' as detentas comemoram a data em Litchfield. Caputo deu permissão para uma festa nas áreas externas da prisão e todas se reuniram na organização de jogos, brincadeiras e comidinhas para receber a família e até os animais de estimação. Mas tudo isso parece até um pouco tedioso até que a "palhaça" da festa aparece: Big Boo.

Com uma túnica cinza cheia de bolinhas coloridas que foram costuradas por ela mesma, e uma maquiagem dividida entre o bem e o mal -- ela mais assusta as crianças do que as diverte, como já era esperado. Mas o melhor ainda está por vir...

big boo aborto

Na cena da imagem acima, Tiffany 'Pennsatucky' Doggett (Taryn Manning), afastada da festa, criou um 'mini' cemitério com palitinhos de sorvete, simbolizando os cinco abortos que fez ao longo da vida. É quando Boo se aproxima para consolá-la. Como ainda não temos o vídeo e queremos que você assista à série, eis o diálogo entre elas:

Big Boo: Já leu o livro "Freakonomics"?

Pennsatucky: Não. É sobre mulheres barbadas e anões?

Big Boo: Quase. É sobre teoria econômica. Causa e efeito.

Pennsatucky: Parece chato.

Big Boo: Na verdade, é uma boa leitura. Tem um capítulo chamado “Aonde foram parar os criminosos”. Na década de 1990, o crime caiu dramaticamente e o livro atribui isso à aprovação do aborto.

Pennsatucky: A escuridão de 1973.

Big Boo: É bem ao contrário, na verdade. Os abortos ocorridos após a legalização eram crianças indesejadas. Crianças que, se suas mães fossem forçadas a ter, terminariam pobres, negligenciadas e maltratadas, os três ingredientes mais importantes ao se produzir um criminoso. Só que eles não nasceram. Então, 20 anos depois, quando estariam no auge do crime, eles não existiam. E a taxa de crime caiu drasticamente.

Pennsatucky: O que você quer dizer?

Big Boo: Quero dizer que você era uma 'bostinha' entupida de metanfetamina, e se seus filhos tivessem nascidos, também seriam 'bostinhas' entupidas de metanfetamina. Ao interromper estas gestações, você poupou a sociedade do flagelo de sua prole.

Pennsatucky: Nunca havia pensado desta forma.

Big Boo: Talvez você deva. Talvez você deva parar de punir a si mesma.

*tradução livre.

Por meio da lógica do livro Freakonomics, de Steven D. Levitt de Stephen J. Dubner, Boo explica e retoma um dos principais assuntos do livro, em que os autores mostram como a descriminalização do aborto pode diminuir drasticamente a taxa de criminalidade nos Estados Unidos -- e talvez, no mundo.

Após a conversa, Tucky -- que ironicamente é a personagem mais religiosa e reacionária da série -- fica aliviada e confortada com o discurso de Boo. Por isso, talvez esta tenha sido o melhor diálogo da série até agora -- sem menosprezar nenhum dos outros momentos emblemáticos, claro.

Esta talvez seja a temporada em que Tucky está mais próxima da realidade em vários aspectos -- e distante do fanatismo religioso de sempre. O que se viu ao final da cena, foi uma mulher religiosa disposta a entender questões que vão muito além do que a discussão sobre acreditar ou não em Deus ou no que uma religião impõe. E o mais interessante: uma mulher homossexual explicando exatamente isso a ela. Não soa libertador e revolucionário para você? Para mim, sim.

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