COMPORTAMENTO
15/06/2015 14:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A vida dele era dominada pela ansiedade. Até ele começar a meditar

Ben Turshen

Um estúdio de 45 metros quadrados no centro de Manhattan está se tornando um templo para os ansiosos, os sobrecarregados de trabalho e os curiosos. São 26 lugares.

Pelas janelas, você enxerga os táxis presos no engarrafamento da 5ª Avenida e, se encostar o nariz no vidro, consegue ver a ponta do Empire State.

Ben Turshen abriu as portas desse estúdio de meditação há menos de seis semanas, e ele só ensina a prática há dois anos. Mas seu séquito está aumentando, talvez porque ele seja o mais improvável dos professores.

“Com certeza não aprendi a meditar para ser professor de meditação. Aprendi para me salvar”, disse Turshen ao The Huffington Post na semana passada, por telefone.

Criado em Nova York e no condado de Westchester, ao norte da cidade, Turshen, 34, diz que sofreu com uma névoa permanente de ansiedade, depressão e insônia durante a maior parte de sua vida. Quando era criança, tinha dificuldade para dormir e para aprender a ler. Ele sempre teve ótimo desempenho nos treinos, mas não conseguia repetir a performance nos jogos.

Sua ética de trabalho e o apoio da família foram decisivos para que ele tivesse sucesso nos esportes, se formasse com honras na Universidade de Boston e depois fizesse mestrado na Universidade Columbia e direito na Universidade St. John’s. Mas aí ele chegou ao limite.

“O nível de exigência do primeiro ano da faculdade de direito foi maior que minha capacidade de me adaptar”, diz Turshen. “As estratégias que eu usava para lidar [com o estresse] não funcionavam mais. Fui ao meu médico e disse: ‘Estou muito mal, sofrendo ataques de pânico, não consigo dormir. O que faço?’ Meu médico pegou o bloco de notas e para me receitar remédios.”

Turshen tinha 24 anos. Ele nunca tinha tomado remédios antes. Como estava sofrendo, decidiu aceitar a recomendação do médico. “O Ambien me nocauteava. Ficava inconsciente – acho que dá pra chamar aquilo de sono. Tomava Adderall e conseguia me concentrar. Mas o Adderall me deixava ansioso e o Ambien me dava ressaca no dia seguinte. Meus antidepressivos mal funcionavam. Se tinha um ataque de pânico, tomava um Xanax e relaxava, mas não era uma sensação natural. Nada parecia natural. Não me sentia eu mesmo.”

Ele tentou se acostumar com esse estilo de vida, mas acabou voltando ao médico para ver o que poderia fazer além de tomar remédios. Foi assim que ele acabou sentado na poltrona de um terapeuta, falando sobre espiritualidade.

Turshen se surpreendeu quando, depois de uma série de perguntas, seu novo terapeuta lhe perguntou qual era sua prática espiritual. Turhsen foi criado como judeu, mas tropeçou e começou a falar de religião. O terapeuta o interrompeu. Não se trata de religião, disse ele. Ele perguntou de novo: “Qual é sua prática religiosa?”

Como Turshen não sabia responder, o terapeuta recomendou meditação. “Sempre achei que minha cabeça fosse louca demais para meditar”, diz Turshen. “Tinha essa ideia preconcebida de que a meditação era coisa de monges. Nos meus 20 anos, eu não era nada parecido com um monge”, diz ele, rindo.

Mas a rotina de aulas, noites maldormidas e a névoa constante dos remédios continuava, e Turshen procurou um centro de meditação budista em Nova York. Não foi amor à primeira vista. Ele ouviu as instruções e disse que se sentiu muito pouco à vontade. “Minha mente não estava nada quieta.”

Quando a aula terminou, Turshen disse ao professor que era iniciante e perguntou quanto tempo demoraria até que ele conseguisse dominar a prática. “A resposta foi bem decepcionante”, diz Turshen. “Ele disse que a iluminação demora uma vida inteira.” Turshen saiu de lá mais ansioso do que tinha entrado. “Pensei: ‘Remédios e terapia: eis minha vida’.”

new york city

Nos três anos seguintes, ele se formou em direito e passou no exame da ordem dos advogados. Turshen disse para si mesmo que, assim que conseguisse um emprego num escritório de advocacia, começaria sua vida adulta, e talvez a ansiedade e a depressão ficassem mais controláveis.

Mas aconteceu o oposto: tudo ficou mais difícil. O trabalho no departamento corporativo de um escritório de prestígio significava que Turshen tinha de lidar com fundos de investimento justamente quando o mercado derretia diante de seus olhos em 2008. “Decidi que não ia mais aumentar a dose dos remédios. Precisava achar uma forma sustentável de lidar com a ansiedade e a depressão – não queria passar o resto da vida tomando remédio”, diz ele.

Então ele voltou para a meditação, apesar da experiência anterior. Turshen começou a investigar meditação e técnicas de relaxamento online e fez algumas aulas.

Mas nada tinha efeito duradouro até ele encontrar uma prática chamada meditação védica. Ele encontrou um professor e se inscreveu num curso introdutório de quatro sessões. “Tudo mudou quando aprendi [a meditar]”, diz Turshen.

Ele continuou tomando remédios por cerca de um ano depois de aprender a meditar, e seguiu na terapia por mais quatro anos. Ele afirma que depois desse período se sentiu saudável o suficiente para parar com os remédios.

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O estúdio de Ben Turshen Meditation em Midtown.

A meditação védica é uma prática baseada em mantras, parecida com a meditação transcendental. Acredita-se que ela exista há milênios. Os mantras são usados para ajudar a mente a se acomodar no que Turshen e os professores védicos chamam de “aquele estado menos excitado” ou “um estado de consciência interior e silencioso”.

A prática tem laços com a Índia antiga. “Vedas” são as mais antigas escrituras hindus, em sânscrito. Elas são compostas por hinos, filosofia e orientações para os padres da religião védica. Mas, hoje, a meditação védica não precisa ser uma prática religiosa.

“Com essa técnica de meditação, a experiência é espiritual. Não é uma experiência religiosa”, diz Turshen. “Você não precisa se comprometer com nenhum tipo de filosofia. Na verdade, ela funciona mesmo que você seja completamente cético. Se te ensinarem direito, a mudança que acontece na sua fisiologia durante a meditação vai ocorrer, acredite você ou não. Sua mente se acomoda naquele estado menos excitado, e o corpo acompanha.”

Um mantra ajuda a mente a atingir aquele estado menos excitado. Na tradição védica, o professor apresenta seu mantra pessoal durante uma cerimônia privada e você o usa em sua meditação. O mantra não tem nenhum significado. Na verdade, ele é um som cuja repetição é agradável para sua mente. O objetivo não é se concentrar no mantra, mas usá-lo para atingir o estado de calma.

“É o mantra que faz trabalho”, explica Turshen. “Ele atrai e distrai a mente de todos os outros pensamentos. Eles são essenciais para esse processo. Não temos como forçar a mente a chegar naquele lugar tranquilo. Mas o mantra ajuda.”

Turshen lembra de chegar em casa depois da primeira aula sentindo uma calma que ele nem sequer foi capaz de reconhecer na época.

Por garantia, ele tomou um Ambien antes de dormir, pois não sabia quanto tempo iria durar a sensação. Mas, na noite seguinte, ele estava se sentindo da mesma maneira. “Tranquilo e relaxado”, diz ele.

As noites eram a pior parte do dia. A ansiedade atingia o ponto máximo nas horas que ele ficava sozinho em casa, antes de ir dormir.

“A hora de me deitar na cama era a pior”, diz ele. “O que aconteceria no dia seguinte? Parecia o fim do mundo, mas é claro que não era.”

Na terceira noite de seu curso de meditação védica, Turshen estava pronto para fazer um teste. Ele colocou o Ambien no criado-mudo e decidiu que, se ainda estivesse acordado depois de uma hora, tomaria o remédio. Turshen pegou no sono em minutos e dormiu a noite inteira.

Ele diz que tem dormido bem desde então. Turshen acredita que a meditação tenha curado sua insônia instantaneamente. Ele continuou sua prática diária e começou a perceber outras mudanças em sua vida. O trabalho ficou mais fácil, e ele se sentia mais confiante e produtivo. Também notou que não ficava doente com tanta frequência.

Seus relacionamentos começaram a melhorar. “Meu estresse começou a se dissipar”, diz ele. “Quando você pensa nas pessoas mais nervosas e ansiosas que conhece, não tem vontade de estar perto delas. Eu era assim. Mas fiquei mais feliz, e as pessoas passaram a querer estar perto de mim.”

A resposta de Turshen à meditação não foi nada menos que transformadora. Ele começou a enxergar a vida com mais clareza e a perceber padrões e comportamentos que queria mudar.

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Dois anos depois, ele faria a maior das mudanças.

Ele decidiu deixar a carreira de advogado para trás e estudar para ser professor de meditação. Ele entrou num curso de formação de professores, e pagava as contas dando aulas de spinning numa academia chique. Nos dois anos seguintes, ele leu sânscrito, aprendeu a fazer a cerimônia védica e passou incontáveis horas meditando.

Quando terminou seu treinamento e começou a dar aulas, ele alugou um espaço num estúdio de yoga no Chelsea. Logo o espaço estava pequeno, e ele decidiu que era hora de abrir seu próprio estúdio.

“Tive muitas dúvidas na hora de abandonar minha carreira de advogado”, diz ele. Muita gente perguntava como ele poderia largar um emprego com um salário excelente. “É fácil se deixar levar pelas coisas seguras. Fazer o que se espera de você. Mas percebi que não ia me realizar sendo advogado. A meditação me deu clareza e a capacidade me adaptar para mudar minha vida. Como vi essa transformação em mim mesmo, queria passar essa experiência para meus amigos, minha família e minha comunidade.”

Embora a meditação tenha funcionado para Turshen, para muita gente a combinação de medicação e meditação é poderosa. E a medicação pode ser a diferença entre vida e morte.

“Só estou aqui porque passei por todas essas experiências”, disse Turshen. “Não teria virado professor de meditação se não tivesse sofrido tanto com o estresse.” Ele gosta bastante de uma frase de Steve Jobs: “Você não consegue unir os pontos olhando para a frente, só consegue uni-los olhando para trás”.

“A única garantia que temos na vida é que o tempo vai passar e que as coisas vão mudar.”

Diferentemente de sua primeira experiência com a meditação, Turshen acredita que a meditação não significa eliminar todos os pensamentos.

“A técnica de meditação que ensino leva a mente a um estado além do pensamento. Quando isso acontece, nem percebemos”, diz ele. “O mantra some, e às vezes não há pensamentos tomando seu lugar. Esquecemos que estamos meditando enquanto estamos meditando.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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