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13/06/2015 12:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

ONG de universitários produz óculos para quem não pode pagar e contrata ex-presidiários para ajudar na produção

Reprodução/Facebook

Quem usa óculos ou lentes sabe bem como seria ficar 24 horas, todos os dias, sem nenhum desses assessórios. Seria mais ou menos como enxergar assim o dia inteiro:

É por isso que passam 670 milhões de pessoas no mundo que precisam de óculos, mas não podem pagar.

Já uma pesquisa realizada com 36 mil alunos de escolas estaduais de Campinas, no interior de São Paulo, mostrou que o baixo rendimento escolar de 51% desses estudantes estava relacionada à falta de óculos. Esta seria uma das causas de o Brasil ter a terceira maior taxa de evasão escolar entre 100 países.

Foi pensando nisso que a ONG Renovatio, formada por universitários, criou o projeto VerBem, que produz e doa óculos de baixo custo para quem não pode pagar por eles. Mais de mil pessoas já foram beneficiadas com o projeto.

O trabalho é feito em parceria com uma ONG alemã, a OneDollarGlasses, e usa uma tecnologia que permite a fabricação de óculos gastando apenas US$ 1,20 - o equivalente a R$ 3,74. O acessório é formado por aço, plástico hipoalérgico, e lentes de policarbonato.

No Brasil, o custo de produção dos óculos, no entanto, sai por R$ 25. Isso porque, além do custo do material e o valor de impostos para importá-lo, a ONG também contrata pessoas em vulnerabilidade social para trabalhar no projeto, como moradores de rua e ex-presidiários. Atualmente, quatro beneficiados integram a ONG.

Ontem foi nosso último dia de treinamento com a equipe OneDollarGlasses.Das mais de 30 pessoas interessadas em...

Posted by Renovatio on Sábado, 31 de maio de 2014


Todos saem ganhando

Além de produzir óculos diariamente, os beneficiados têm que passar pelo Programa de Desenvolvimento do Renovatio, no qual eles estudam e participam de programas culturais.

Bruna Vaz, uma das líderes do projeto, explica que o programa inclui letramento (alfabetização funcional). Depois, o conjunto de cursos é elaborado para cada beneficiado de acordo com a necessidade, aspirações e sonhos de cada um.

"É através dos estudos que eles se desenvolvem intelectual e profissionalmente e podem ser inseridos no mercado de trabalho e na sociedade, dando espaço para que outro beneficiado entre no projeto", conta Vaz. "Alguns finalizam o ensino médio, outros fazem cursos profissionalizantes, etc. Varia de pessoa para pessoa", ela explica.

Os beneficiados recebem a bolsa auxílio que varia de R$ 900 a R$ 1.300, de acordo com seu desempenho nos estudos e nos programas culturais. "O grande objetivo do projeto é fazer com que os beneficiados se desenvolvam."

Alex dos Santos, de 34 anos, está no projeto desde o começo. Ele produz os óculos, atende as pessoas que chegam para retirá-los, e depois faz curso de culinária, como seu curso extracurricular. Santos ficou dez anos preso e esta foi a primeira oportunidade que surgiu desde que ganhou a liberdade.

“Fui criado sem meus pais, tive algumas experiências ruins e achava que isso não era possível. Eu tinha outra ideia de realidade. Agora quero passar isso adiante, dar continuidade para quem mais precisar e tiver interesse”, conta ele. Alex conta que pretende seguir carreira gastronômica, mas que não vai deixar o projeto. “Enquanto tiver material para produzir mais óculos, eu vou ficar. Aprendi a gostar de ajudar os outros”, conta ele.

“Eu contei pro Fábio [Presidente do Renovatio], na nossa primeira conversa, que queria voltar a trabalhar em construção...

Posted by Renovatio on Quarta, 20 de maio de 2015


Expandindo a visão

O projeto cresceu tanto que a ONG já distribuiu óculos até em outros estados: para comunidade ribeirinhas, no Pará, e, recentemente, para população carente na Bahia. "A experiência é gratificante, pois nesses estados a situação é ainda mais complicada do que aqui em São Paulo. Além disso, ficamos cada vez mais motivados a expandir o projeto e atingir nosso objetivo: acabar com o problema de falta de óculos em todo o País", conta a líder.

​"Seu José, um ribeirinho paraense de cerca de 40 anos que trabalha coletando açaí, tem 3 filhos: duas meninas e um menino. O pé de açaí tem aproximadamente 10 metros, e o ribeirinho tem 6 graus de miopia. Antes de entregarmos os óculos, ele contou o quão difícil era trabalhar assim, sem ver direito. Conta que muitas vezes sobe no pé de açaí à toa, pois de baixo e sem ter óculos não conseguia ver se o fruto está verde ou maduro.

Quando seu José colocou os óculos, um sorriso se abriu no rosto dele. Ele disse que agora podia ver bem, e bem de longe. Sua produtividade com certeza aumentou bastante, aumentando também sua renda e a qualidade de vida dele e de sua família. Tudo por causa de um objeto simples que custa R$ 25."


Próximo passo: projeto autossustentável

Atualmente a Renovatio recebe doações de pessoas físicas e jurídicas e conta com trabalho voluntário na parte administrativa: toda a gestão, desde a presidência, é feita de forma voluntária. De acordo com Vaz, em dois meses eles pretendem vender os óculos a preço de custo, tornando o VerBem autossustentável (sem depender de doações).

"Estamos trabalhando numa campanha para conscientizar as pessoas da importância de um par de óculos para a educação do País e qualidade de vida das pessoas. Além disso, estamos em fase final de negociação com uma empresa que doará um ônibus oftalmológico para realizarmos consultas em comunidades de todo o Brasil e, assim, podermos doar mais óculos", conta a líder.