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11/06/2015 10:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Congresso do PT começa nesta quinta-feira em Salvador com disputas internas e desafios entre discurso e realidade

Montagem/Estadão Conteúdo

Com a presença de 800 delegados e os seus grandes caciques, o Partido dos Trabalhadores (PT) promove nesta quinta-feira (11), em Salvador, o seu 5º Congresso Nacional. Afundado em sua pior crise desde a sua fundação, há 35 anos, o partido se reúne com a proposta de discutir os seus rumos. Os ânimos internos estão acirrados e a solução passa por uma união que parece distante, mesmo com o discurso oficial dizendo o contrário.

A ala majoritária do PT – Partido que Muda o Brasil (PMB), que conta com as correntes Construindo um Novo Brasil (CNB) e Novo Rumo –, conta com nomes de peso, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente nacional Rui Falcão, e os ministros Aloizio Mercadante, Jaques Wagner e Ricardo Berzoini. Com 429 delegados, o grupo demonstra bem a ‘bipolaridade petista’ que ensaia a salvação, mas que também pode ser a queda final de uma sigla que “sumiu com o projeto”, segundo disse ao Brasil Post o cientista político Marco Antônio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para ele, é exatamente essa fragmentação que não permite fazer grandes projeções sobre o que será discutido e o seu impacto no futuro do PT.

“Há vários grupos internos, com muitas críticas ao próprio governo federal, então tudo tem relação com o que está acontecendo no Palácio do Planalto. A superação das divergências é necessária e o congresso é o momento propício. O jeito parece ser buscar a união para o País sair da crise. Mas que projeto de Estado o PT quer? Havia um projeto que trazia a simpatia das pessoas, voltada ao social, mas esse projeto sumiu”, avaliou.

Um manifesto da CNB, intitulado ‘Carta de Salvador’, foi divulgado no início da semana e teve o aval de Lula. Nele, a corrente defende a formação de uma grande aliança, com a participação ativa dos movimentos sociais. Seria um ‘aceno à esquerda’, sobretudo com a sugestão de medidas como a taxação de fortunas – pauta das correntes minoritárias do partido. Todavia, o mesmo grupo defende o ajuste fiscal e o adiamento da medida que barra doações empresariais ao PT. Ou seja, a sensação de ‘esquizofrenia institucional’ não é um acaso.

“Se o PT continuar dividido como está, com cobranças de alas internas ao governo federal, dará uma boa oportunidade a ser explorada pelos partidos da oposição. Unir o partido antes das eleições (municipais de 2016) é fundamental, porém não sei se isso será possível”, afirmou o cientista David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB). Segundo apurações dele, o PT corre o risco de iniciar uma queda substancial semelhante à vista pelo antigo PFL (atual DEM).

“Anos atrás, o PFL foi perdendo eleições municipais sucessivas, foi elegendo cada vez menos prefeitos e vereadores. Foi o fim de um ciclo de crescimento que pode atingir o PT agora, talvez pela primeira vez, já que nunca houve uma retração substancial dos números”, completou Fleischer.

Conforme concordaram os especialistas ouvidos pelo Brasil Post, a sugestão de algumas alas do partido em ter mais liberdade para dialogar com as bases e movimentos sociais, com mais independência em relação ao governo federal, parece ser hoje mais um discurso ideal do que uma possibilidade crível. “Tudo passa pelo governo, não tem jeito”, disse Teixeira.


E a volta de Lula em 2018? Houve quem defendesse que o PT colocasse ainda mais abertamente as cartas na mesa, mas o próprio ex-presidente prefere manter a cautela, e não é por acaso. Somado ao que o governo Dilma pode promover, para o bem e para o mal, está o próprio legado de Lula. “Ele não é bobo. Não vai sair candidato se as coisas não estiverem a seu favor, ainda mais com o Mercadante trabalhando para ser ele o candidato (à Presidência em 2018)”, afirmou Fleischer.

Três temas centrais e Dilma na abertura

A tentativa de unir o partido e evitar ainda mais desgaste na relação fez a presidente Dilma Rousseff antecipar o seu retorno da Europa, onde cumpre uma série de agendas, a tempo de participar da abertura do Congresso, prevista para o início da noite desta quinta-feira. O evento, até sábado (13), realiza seminários com delegados e militantes, passando por três temas centrais: Mundo, Brasil e Atualização da Concepção Partidária.

Segundo o PT, sete teses internas foram encaminhadas por alas distintas do partido. As minorias apresentam cinco delas, as quais propõem, em geral, várias medidas de cunho progressista, defendendo abertamente o retorno do PT às suas bandeiras históricas - há quem proponha, por exemplo, a cassação do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), ícone do conservadorismo na atual legislatura do Congresso Nacional. A ala majoritária defende muito do que Dilma disse durante as eleições, com o avanço naquilo que já foi conquistado desde 2003, ano de início do primeiro mandato de Lula.

No meio do caminho, quase um ‘meio-termo’ entre quem tem a maioria dos delegados e quem é minoria e pede uma guinada forte à esquerda, está o grupo Mensagem ao Partido, formado pelas correntes Mensagem e Democracia Socialista (DS) – que conta com nomes como o do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e do prefeito de São Paulo Fernando Haddad. A tese proposta pelo grupo reúne um apanhado dos dois lados.

A difícil previsão do que será do PT após o Congresso só não é maior do que algumas certezas. A primeira delas de que haverá uma forte defesa dos governos Dilma (e do seu ministro da Fazenda Joaquim Levy) e Lula, com um possível desagravo a favor do ex-presidente em razão das recentes denúncias sobre doações feitas ao seu instituto por uma construtora envolvida na Operação Lava Jato, e sugestões de democratização da mídia, com o fomento de veículos que levem adiante a mensagem do partido.

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