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09/06/2015 13:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:24 -02

Dilma Rousseff canta, fala do 7 a 1 na Copa e considera ‘absurdo' achar que ela sabia da corrupção na Petrobras (VÍDEO)

Montagem/Estadão Conteúdo

A presidente Dilma Rousseff (PT) concedeu uma longa entrevista ao site alemão Deutsche Welle e abordou temas diversos, uns mais espinhosos como a corrupção e a crise econômica no Brasil, outros mais descontraídos como o vexame dos 7 a 1 sofrido pela seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014, justamente diante da Alemanha.

Questionada se já tinha se recuperado da goleada, a presidente assim respondeu:

“Eu vou responder porque é uma provocação (risos). Doeu muito. Doeu, sim, senhor. Mas você sabe que nós temos uma característica: brasileiro não desiste nunca, muito mais em futebol. Por isso eu lhe digo: aguardem que um dia nós voltaremos. Não digo que vai ser um 7 a 1, mas a gente ainda vai imprimir uma derrota em vocês”, disse.

Dilma ainda aproveitou a descontração para ‘dar uma palhinha’ e cantar uma música, Volta por cima, composta por Paulo Vanzolini.

“Tem uma música no Brasil que você deve conhecer, é sobre outro assunto, mas pode ser usada para isso: Ali onde eu chorei, qualquer um chorava, mas dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. É essa música que está preparada para vocês”.

Em entrevista à DW, Dilma fala sobre a dor do 7 a 1 na semifinal da Copa e canta para jornalista alemão.Veja a entrevista completa: http://dw.de/p/1FdwS

Posted by DW (Brasil) on Terça, 9 de junho de 2015


O clima descontraído, porém, não perdurou em outros temas, compilados a seguir.

Crise e ajuste fiscal

“Nós tivemos de fato um cenário muito complicado. Primeiro, nós tivemos uma eleição muito disputada, talvez a mais conflituosa dos últimos tempos. Isso se prolongou. Para manter todas as promessas, e mais do que promessas, todos os compromissos que nós temos de garantir que o Brasil continue sendo o país que fez mais inclusão social, mais redução da miséria, e mais elevação da sua população à classe média, nós precisamos fazer um ajuste. Não fazê-lo seria se deixar derrotar antes da luta começar. Porque nós precisamos ter todos os instrumentos para voltar a crescer, e um deles é necessariamente um equilíbrio fiscal. Nós não fazemos ajuste pelo ajuste, seria uma sandice. Nós fazemos o ajuste porque ele é condição para voltar a crescer”.

Corrupção

“Um dos ônus é acharem que nós é que fazemos a corrupção. Mas esse ônus é insignificante perto do fato de que eu posso lhe garantir que o Brasil, nesta área, mudou. Nunca antes no Brasil quem corrompia era preso, nem tampouco quem era corrompido. Agora é (...). Dizer que a gente sabia da corrupção, por exemplo, na Petrobras, é um absurdo. Para descobrir a corrupção na Petrobras foi necessário que a PF, o MP, o STF, o Judiciário todo se estruturasse para fazer a investigação, e só se conseguiu investigar através do instituto legal chamado delação premiada. Esse poder de saber o que estava acontecendo implica uma visão extremamente ingênua sobre a corrupção. A corrupção é feita escondida. Ela é escamoteada, ela é coberta. Descobri-la envolve muito mais do que uma pessoa saber”.

Assento no Conselho de Segurança da ONU

“Nós consideramos essencial a mudança no Conselho de Segurança da ONU. Nós fazemos parte do grupo, junto com a Alemanha, que sistematicamente luta por isso. Inclusive nós levamos isso a todos os nossos parceiros comerciais, na área internacional, na área de cooperação, porque consideramos que a atual composição não reflete a realidade do mundo. E, além de ela não refletir a atualidade, não tem resolvido os problemas que se apresentam. Defendemos também, com o mesmo empenho, a mudança nos órgãos econômicos. A representação no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial não corresponde à realidade econômica do mundo. Esse empenho vai ficar claro na próxima reunião do G20”.

Crise na Venezuela

“Eu acho que muita gente gostaria que nós virássemos as costas para a Venezuela, como durante muito tempo foi feito com Cuba. Com Cuba, apesar de termos visões diferentes sobre sociedade, processos políticos e econômicos, nós sempre percebemos que a melhor relação era aquela que construísse uma transição. Isso tem mais resultado que os 40 anos de bloqueio, que não levaram a nenhuma transformação de Cuba. E isso que o presidente Obama e o presidente Raúl Castro fizeram tem que ser saudado, porque é o fim da Guerra Fria na América Latina. A mesma coisa na Venezuela. Nós não somos golpistas no Brasil, nós não somos a favor de interferências e intervenções dentro de países irmãos. Nós não fazemos isso. Nós somos um país eminentemente pacífico. Muita gente gostaria que nós tivéssemos uma posição de distanciamento em relação à Venezuela, muitos defenderam isso também para a Bolívia logo que o presidente Evo [Morales] assumiu. Colocar a Venezuela como sendo uma ameaça aos EUA não é algo que contribui para uma maior democracia [no país], contribui para radicalizar posições. A boa notícia sobre isso é que visivelmente os EUA estão fazendo gestos no sentido de garantir o diálogo com a Venezuela, o que é muito bom para a região.

Nós não seremos jamais um poder regional com o porrete na mão. Para ser poder regional não precisa ser um interventor, você tem que ser capaz de entender as sociedades e lutar pelas transformações de uma forma que não seja a intervenção. O mundo ficou muito acostumado com intervenções militares. Eu não creio que isso tenha levado à estabilidade das regiões. O Brasil tem que ser uma ponte para o diálogo, para o entendimento, contra todos os processos de intolerância. Obviamente, em relação a rupturas democráticas, nós teremos sempre uma posição muito firme de rejeição. Nós não aceitaremos rupturas democráticas, golpes na oposição ou golpes depondo governos”.

Legado da Copa de 2014

“Nossas relações foram bastante conflituosas com a Fifa. Não tenho nenhuma queixa do senhor [presidente da Fifa, Joseph] Blatter, que sempre teve um comportamento bem respeitoso em relação ao Brasil. O mesmo não digo de outras pessoas. Eu fico inconformada com o fato de que [o escândalo atinja] uma coisa tão importante para o mundo, como é o futebol. Eu acredito que, aqui no Brasil, nós fornecemos, talvez, o maior lucro para a Fifa nos últimos anos, porque o Brasil é um país do futebol, é um país que adora o futebol.

Eu não fiz os estádios. Os estádios são uma negociação da Fifa com os governadores. O que o governo federal fez foi colocar R$ 400 milhões de financiamento para todos os estádios. Ou foi tomado pela iniciativa privada, ou foi tomado pelos governadores. A dimensão dos estádios não foi responsabilidade do governo brasileiro”.

Leia a íntegra da entrevista com Dilma Rousseff no DW Brasil.

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