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03/06/2015 16:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Preconceito pode ser 'desaprendido' durante o sono, diz estudo

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Um grupo de pesquisadores da Northwestern University conseguiu mostrar que comportamentos como o preconceito de gênero e de raça podem ser modificados treinando o cérebro durante o sono.

O estudo, publicado na revista Science, não se focou em casos explícitos de racismo e machismo, e sim em formas mais sutis de discriminação. São os chamados vieses de gênero e de raça, preconceitos inconscientes que alteram a forma como lidamos com os outros sem que percebamos.

Uma pesquisa anterior chamada Project Implicit, da Harvard University, mostrou que 80% das pessoas têm algum tipo de viés contra idosos, por exemplo, e que as pessoas frequentemente têm preferência por pessoas brancas sobre pessoas negras.

"Esses vieses podem operar mesmo quando temos a boa intenção de evitá-los. Ademais, com frequência não estamos atentos à influência que eles podem ter em nosso comportamento", disse Xiaoqing Hu, pesquisador-chefe, em um comunicado escrito.

Como funcionou o estudo?

Os pesquisadores trabalharam com dois exemplos de preconceito: o de que mulheres são menos inteligentes que homens, e o de que negros são criminosos. Para isso, submeteram 40 pessoas adultas a dois exercícios diferentes.

No primeiro, os participantes foram expostos a rostos femininos com palavras ligadas a matemática ou ciência, e um som característico foi tocado.

No segundo, rostos negros foram complementados com palavras positivas, como alegria e bem-estar, e um outro som característico foi tocado.

Depois dos treinamentos,os participantes tiraram uma soneca de 90 minutos. Assim que eles entraram em sono profundo, os sons característicos que acompanharam os exercícios foram tocados repetidamente para uma parte dos participantes. Outra parte não foi exposta a som algum.

Funcionou?

Sim. Logo após o exercício, o viés preconceituoso das pessoas diminuiu. Mas entre aqueles que não foram expostos ao som associado ao exercício, os níveis de preconceito voltaram ao que eram antes da soneca.

Já os que foram expostos ao som viram seus níveis de preconceito inconsciente caírem em 56%, em relação ao momento pré-soneca. Uma semana depois, os efeitos persistiram.

Ainda é preciso realizar outros experimentos para testar se os efeitos persistem a longo prazo. "É um desafio produzir mudanças duradouras em vieses implícitos", disse Galen Bodenmhausen, professora de psicologia na Northwestern e co-autora do estudo, em um comunicado escrito. "Esses vieses vêm de socializações de longo prazo, e são reforçados frequentemente pela comunicação de massa."

Caaaaaalma lá!

É claro que parece muito tentador acabar com o preconceito no mundo enquanto as pessoas dormem. No entanto, mesmo com a melhor das intenções, esse tipo de experimento é problemático do ponto de vista ético.

Os próprios cientistas salientam que a técnica deve ser utilizada com muita cautela. "O sono é um estado no qual os indivíduos estão vulneráveis à sugestão", disseram os pesquisadores no estudo.

Na verdade, a discussão não é nova. Desde o surgimento desta escola de psicologia, chamada de behaviorismo, cientistas e filósofos debatem os conflitos éticos do uso extensivo do condicionamento comportamental.

Em 1932, no livro "Admirável Mundo Novo", o escritor Aldous Huxley imaginou um mundo distópico em que as pessoas são condicionadas psicologicamente a viverem sob regras sociais com um único fim: o de produzir. No admirável mundo novo, não havia amor, nem poesia, nem nada.

Talvez seja combatermos o preconceito enquanto estamos acordados, não é?