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27/05/2015 09:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

Ex-presidente da CBF José Maria Marin e outros seis dirigentes da Fifa são presos por corrupção em operação na Suíça

Montagem/Estadão Conteúdo, iStock e Reuters

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin e outros seis dirigentes da Fifa foram presos na manhã desta quarta-feira (27) em um hotel de luxo na Suíça, como parte de uma operação que investiga um esquema de corrupção para a escolha das sedes das próximas duas Copas do Mundo e pagamentos de propinas da ordem de US$ 100 milhões (R$ 313,4 milhões).

A operação é uma ação integrada entre as autoridades suíças e norte-americanas em dois processos diferentes. Na Europa, o Ministério Público da Suíça realizou as prisões dos sete cartolas e alguns executivos de marketing esportivo. Além disso, a sede da Fifa foi alvo de buscas por documentos e computadores. A suspeita é de que dirigentes receberam propinas para votar nas sedes das Copas de 2018 (Rússia) e de 2022 (Qatar). O MP suíço confirmou que abriu uma investigação penal contra os dirigentes. No total, dez pessoas estão sendo investigadas.

Nos EUA, uma corte federal em Nova York aceitou o processo que acusa 14 pessoas de extorsão, fraude eletrônica e conspiração para lavagem de dinheiro, como parte de um esquema que durou mais de duas décadas, de acordo com nota do Departamento de Justiça norte-americano. “A acusação alega que a corrupção é desenfreada, sistêmica e profundamente enraizada tanto no exterior como nos Estados Unidos”, disse a procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch, em nota.

As prisões, feitas por policiais à paisana, ocorreram durante a manhã em um hotel de luxo de Zurique, onde autoridades da Fifa estavam hospedadas para a eleição presidencial da entidade desta semana, em que o atual presidente Joseph Blatter é esperado para ganhar o quinto mandato. Blatter, aliás, não está entre os presos. “Certamente é um momento difícil para nós. Mas isto é bom para a Fifa. Confirma que estamos no caminho certo. Dói. Não é fácil. Mas é a maneira certa de seguir”, declarou o porta-voz da Fifa, Walter De Gregorio.

Além de Marin, atual membro do comitê organizador do torneio olímpico de futebol da Fifa, foram detidos o atual vice-presidente e membro do comitê executivo da Fifa, Jeffrey Webb, e Eduardo Li (da Federação de Futebol da Costa Rica). Outros indiciados são o ex-presidente da Confederação de Futebol das Américas do Norte e Central e do Caribe (Concacaf), Jack Warner, que por anos mandou no futebol do Caribe até ser suspenso por desvio de verbas, e os ex-presidentes da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) Eugenio Figueiredo e Nicolás Leoz.

“Hoje é um dia triste para o futebol”, declarou o jordano Ali bin al Hussein, único a lançar uma candidatura contrária a Blatter.

A Fifa, em nota, disse apoiar as investigações que estão sendo "energicamente realizadas pelo bem do futebol".

Brasil implicado nas investigações

A Justiça americana indicou em suas investigações que parte das propinas pagas aos dirigentes indiciados se referiam à organização da Copa do Brasil, Taça Libertadores da América e mesmo da Copa América. Além de corrupção, Marin é acusado de "conspiração" e pode ser extraditado aos EUA. Segundo os americanos, quem também será acusado é o brasileiro José Hawilla, fundador da Traffic Group, que opera os direitos de transmissão de eventos da Fifa. Ele se declarou culpado e concordou em devolver US$ 151 milhões.

O FBI e os promotores do Brooklyn vêm investigando a Fifa durante anos, de acordo uma pessoa próxima ao caso. A investigação mudou de patamar em 2011, quando um dirigente norte-americano da entidade, Charles ‘Chuck’ Blazer, começou a cooperar com as autoridades após ser ameaçado com denúncias de sonegação de impostos. Blazer foi secretário-geral da Concacaf entre 1990 e 2011, e tem informado o FBI sobre o suposto esquema de fraude e lavagem de dinheiro entre os quadros da instituição. Ele também teria concordado em gravar conversas com outros executivos da Fifa.

Uma investigação supervisionada pela Sidley & Austin sobre a Concacaf em 2012 concluiu que Blazer não pagou impostos da organização e sua unidade de marketing entre 2004 e 2010. Ele também teria fornecido informações falsas as autoridades financeiras e feito a Concacaf pagar a ele, sem a autorização devida, mais de US$ 15 milhões sob a forma de comissões, honorários e despesas pessoais, como o aluguel de seu apartamento na Trump Tower, em Nova York, e a compra de apartamentos em Mondrian, um condomínio de luxo em Miami. Blazer foi suspenso da Fifa e renunciou ao cargo de conselheiro em 2013.

Há um pedido para que os suspeitos sejam agora extraditados para os EUA, num processo que pode levar meses. Grande parte do escândalo envolve cartolas da América Central e América do Norte, uma das bases de Blatter nas eleições. Com reservas de US$ 1,5 bilhão e tendo lucrado mais de US$ 5 bilhões com a Copa do Mundo no Brasil em 2014, a Fifa parecia ser até pouco tempo uma potencia paralela, blindada da Justiça. A operação, liderada por cerca de uma dúzia de policiais, se transforma no maior escândalo já vivido pela entidade mergulhada em crises e casos de corrupção.

Blatter, que comanda a instituição desde 1998, tem supervisionado o crescimento das receitas da entidade sem fins lucrativos, advindos principalmente da Copa do Mundo. As eleições estão marcadas para sexta-feira (29), em Zurique, e Blatter tem insistido que não vê motivos para deixar o cargo. Segundo ele, uma reforma tem sido realizada por anos para garantir a credibilidade da entidade.

ATUALIZAÇÃO ÀS 11h55: Por volta das 11h40 desta quarta-feira, a CBF divulgou uma nota oficial, na qual declarou "apoiar apoia integralmente toda e qualquer investigação" e que "aguardará , de forma responsável, sua conclusão, sem qualquer julgamento que previamente condene ou inocente".

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)

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