ENTRETENIMENTO
26/05/2015 18:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Esta banda iraquiana de heavy metal usa música como ‘terapia' para suportar a guerra

Pode parecer uma história típica do universo heavy metal, mas esta banda, em especial, nasceu no cenário de guerra "perfeito" para inspirar suas letras e melodias. Eles usam a música de forma terapêutica para descarregar sentimentos de fúria relacionados à atual situação do seu país de origem e a toda repressão e ataques políticos que sofreram.

Eles são a Acrassicauda, a primeira banda de metal do Iraque.

acrassicauda

"Não queríamos carregar armas e sair atirando nas pessoas. A violência realmente nunca foi a solução. Em vez disso, o metal nos brindou com uma forma agressiva, mas passiva na qual podemos ouvir nossas vozes", explica Marwan Hussein, baterista e letrista da banda, em entrevista à agência de notícias AFP.

Para o vocalista Faisal Mustafa, o metal é como uma "terapia" na hora de descarregar os sentimentos de raiva de uma forma socialmente aceitável. "Você pode expressar esses sentimentos através da música. E uma vez liberada no palco, essa raiva define quem você é no momento".

Sharia don't like it!

Acrassicauda é a primeira banda de heavy metal de um cenário praticamente inexistente no Iraque. Desde 2001 eles se reuniam escondido em Bagdá, mas foi após a invasão americana em 2003 que a banda ganhou força. Atualmente Marwan Hussein, Faisal Talal, Firas Al-Lateef e Tony Aziz são os integrantes.

Ameaças persistentes e acusações que vão desde serem adoradores de Satanás, até de espalharem valores ocidentais degenerados (já que buscam inspiração em bandas ocidentais como Metallica, Megadeth, Anthrax e Slayer), fizeram com que a banda deixasse o país. A decisão se tornou realmente necessária quando o local em que eram realizados os ensaios foi bombardeado. Desde 2009 eles vivem em Nova York, nos Estados Unidos.

Quase 15 anos após a sua formação original, eles conseguiram arrecadar fundos para lançar seu primeiro disco, "Gilgamesh". Em entrevista para a Billboard, eles contam que o disco -- que é todo falado em inglês -- é político e que as letras fazem referência ao renascimento e a busca pela liberdade.

"Precisamos de 15 anos para fazer um álbum e poderia levar outros 15 anos para voltarmos a tocar no Iraque. E eu poderia estar tocando a bateria no fundo de uma cadeira de rodas com uma máscara de oxigênio. Mas acredito que a história desta banda é sobre sonhos a longo prazo. Sempre há luz no fim do túnel", disse Marwan.

Heavy Metal em Bagdá

Todo o caminho que a Acrassicauda fez até hoje está detalhado no documentário produzido pela Vice, "Heavy Metal em Bagdá". Após a divulgação, eles ganharam fãs, notoriedade e olhares desconfiados no próprio país -- se arriscando a contar a própria história. O documentário já foi apresentado em vários festivais de cinema, inclusive no Brasil, em 2010, no In-Edit.

A Vice buscou apoio para os membros da banda mudar de país e tentar lançar seu primeiro álbum. "As oportunidades existem, mas temos que trabalhar muito mais duro do que pensávamos. Todos nós trabalhamos em restaurantes, prestando serviços de alimentação, em todos os tipos de merda, porque queremos fazer música", ressalta Hamawandi à AFP.

Em 2010, eles lançaram o EP "Only the Dead See the End of the War" e saíram em turnê pelos Estados Unidos. Com uma conta no Kickstarter eles conseguiram arrecadar fundos e lançaram de forma independente o álbum, que é vendido no site do grupo. "Garden of Stones", primeiro single, está disponível no YouTube:

E a parte mais interessante é esta. O documentário está disponível online também:

É sério. Assista. Vale a pena. No YouTube, com legendas.

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