NOTÍCIAS
25/05/2015 22:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

'Liguei a câmera, fiz uma graninha em pouco mais de uma hora, adorei e comecei a fazer toda noite'

Reprodução/Twitter

T.* tem 21 anos e mora em São Paulo, mas milhares de pessoas a conhecem como Gween Black. Cam model há dois anos, passa o dia cuidando de suas redes sociais (que incluem Twitter, Fan Page no Facebook, Tumblr e Snapchat) para, quando a noite cai, sentar-se na frente de um conjunto de webcams e luzes, tudo montado em seu próprio quarto, para entreter plateias que variam em idade, nacionalidade e fetiches.

Da onde veio a ideia de ser cam model?

Sempre fui exibicionista e usava cosplays em eventos, cada vez com uma fantasia diferente. Uma amiga minha estava passando por problemas financeiros e decidiu fazer isso. Ela veio falar comigo, sabendo que eu tinha muitas perucas. Até então eu achava que isso era mito da internet, mas não é. Chegava a postar algumas fotos minhas no gonewild (uma seção do reddit na qual usuários podem postar nudes apenas pelo prazer do exibicionismo) e alguns caras se ofereciam para me agenciar, mas decidi entrar nos sites especializados por conta própria. Em 26 de junho de 2013, aconteceu. Liguei a câmera, fiz uma graninha em pouco mais de uma hora, adorei e comecei a fazer toda noite.

Você só usa Gwenn Black em entrevistas. É uma questão de segurança?

Sim. Nenhuma modelo fornece nome real ou dados bancários. É a internet, né? Isso já é motivo suficiente.

Como você se sente com o perigo que circunda as sex workers (termo que engloba todas as profissões relacionadas a entretenimento e sexo, desde prostitutas até operadores de disk sexo)?

Temos stage names justamente por isso, e às vezes precisamos trocar de nome. Os sites também permitem que você bloqueie um estado ou país se precisar. É uma medida que visa a segurança da menina. Recebo mensagem de ódio toda semana no meu Tumblr falando que sou puta. Estava até falando disso com meu pai, que sempre me apoiou. Parece que essa pessoa nunca abriu um site pornô, né? Até parece que as meninas dos pornôs não são pagas. Você é pago para tudo isso. Troca de serviços define um trabalho. Faço as pessoas rirem ou sentirem algo e, em troca, ganho dinheiro.

Esse exibicionismo da sua época de cosplay também era algo sexual, que te permitiu ir mais facilmente pro show de cam models?

Não, era muito mais uma questão de personagem mesmo. Eu tinha bastante vergonha do meu corpo, achava que era muito feia. Passei minha adolescência sendo zoada por muita gente. Eu era a feia da turma, da escola. Gostava de alguém no colégio e era zoada por isso. Tinha a autoestima muito baixa. Quando comecei a ouvir que as pessoas me achavam bonita, duvidava, até que percebi que se eles não estivessem achando isso, não estariam dando tokens (a moeda corrente nos sites de camming). Eu tinha muito problema com a cor dos meus mamilos, e isso era um problema muito grande pra mim. Quando eu ficava topless, escondia meu corpo, ficava com vergonha, e hoje eles chamam de cocoa nipples (mamilos de cacau, em tradução livre). Eu tive muito problema com aceitação do corpo, mas até me soltar foi uma coisa de espelho – a webcam é isso, né? Sua imagem refletida.

cam model

Demorou quanto tempo pra isso acontecer?

Seis meses para que eu me sentisse confortável com meu corpo.

Quando você começou a se sentir mais confortável com seu corpo as gorjetas aumentaram?

Muito! Encontrei meu nicho, porque nesses sites existe todo tipo de modelo. Aquela que não tira a roupa, aquelas que usam três dildos ao mesmo tempo, e eu encontrei o nicho de modelos mais “maluquinhas”, que contam piadas, usam umas roupas meio doidas e se divertem. Eu me visto de dinossauro, tenho fantoches, gosto bastante de fazer isso. Ser uma palhaça. Às vezes até falo que é um maternal pra adultos, porque às vezes eu estou cantando, dançando, com bambolê… Mas pelada. (risos)

Desde o começo você faz shows de cosplay?

Sim, porque eu tinha vergonha. Eu nem conseguia gozar, me masturbar, eu tinha vergonha. Sexta-feira passada eu bati meu recorde de gozadas online: 10 vezes em três horas. E todo mundo dá risada na sala.

Então se vestir de Chewbacca é rotina para você?

Sim! Quarta-feira de madrugada eu posso decidir me vestir de Stormtrooper e me masturbar fazendo sons de Chewbacca.

Há quanto tempo você é apenas cam girl?

Faz um ano. Até então eu também trabalhava num escritório de contabilidade.

Qual é o tempo de vida útil de uma cam model? Quanto tempo você acha que dá pra continuar tirando uma grana com isso?

Quanto tempo você quiser, porque tem público pra qualquer faixa etária. Tem modelos de 60 anos muito populares e de 18 também. Gordas, magras, altas, baixas, negras, brancas. Não tem discriminação.

Por quanto tempo você quer continuar nessa indústria?

Até os 30 anos.

Você acha que esse mercado vai chegar no Brasil?

Tem acontecido, mas do jeito que chegou não me atraiu. Meu público ainda é americano e europeu. O problema no Brasil é o preconceito – as pessoas vão tratar essas modelos como prostitutas e na verdade é uma sala digital. Gwenn Black é uma mulher digital, que não existe.

Pedir pra sair, trocar contatos: isso acontece?

Eu recebo um pedido de casamento por mês. (risos)

Você recebe convites para sair? Ofertas?

Acontece menos do que você deve pensar: dois convites em dois anos.

Considerando um cenário em que isso aumente no Brasil e vire normal, o brasileiro vai ser mais mão fechada para pagar do que americano e europeu?

Sim, e vão ter as pessoas que vão se apaixonar. O problema do camming em geral é que não é pornografia nem amizade, é uma troca de sentimentos monetizada. Então as coisas se misturam. Eu vendo sentimentos, sorrisos. Quando recebo uma gorjeta, não importa o valor, vou sorrir. Às vezes recebo uma grande e quebro coisas, saio do quarto, faço baderna, mas misturam as coisas. As pessoas vão se apaixonar, é um problema muito complicado.

E você nunca chegou perto de misturar isso?

Eu já namorei um lenhador de Oklahoma! Fui lá para conhecê-lo. (risos)

Começou no site?

Sim! O namoro durou seis meses.

Seus pais aceitaram bem sua profissão?

Meu pai aceitou muito bem! No começo dos anos 90 ele teve site pornô e ganhou dinheiro com isso. Minha mãe nem tanto, porque é mais conservadora, mas assim que eu expliquei mais sobre o trabalho e a proximidade das pessoas – como elas chegam em casa, ligam o computador, vem conversar comigo e eu faço o dia delas melhor – ela ficou feliz, aceitou muito bem.

Além do lenhador que namorou, você fez outras amizades como cam model?

Sim! Eu acho que essa é a melhor coisa que tirei do camming até hoje. Tenho gente no celular com quem converso todo dia.

Como foi ir para Las Vegas participar do AVN [uma premiação da indústria pornográfica]?

Foi surreal. Fui convidada pra Cam Mansion [uma espécie de Big Brother com cam models dirigida por Sophia Locke, atriz pornô] de última hora. Passamos uma semana juntas fazendo vídeos, ficando online. Também participamos de uma festa na qual éramos as convidadas especiais, na cobertura do hotel Palms. Espectadores do site podem comprar ingresso pra ir e sempre esgota. Cada ingresso custa 500 dólares e os caras vem de outros países para conhecer as modelos. Eu tive três fãs que foram me conhecer pessoalmente nessa festa e foi incrível!

Ser brasileira é um ponto alto nos sites?

Isso atrai porque é o curioso. A loirinha de olho azul pra eles é comum. Quando veem uma menina como eu, com alguns traços indígenas, eles adoram.

Qual sua fantasia favorita?

De slave Leia [da saga Star Wars]. A que mais pedem é a Lilo, [do filme O Quinto Elemento] e Harley Quinn [personagem do universo de Batman].

Você passou por alguma situação desconfortável enquanto cam model?

Eu fiz um show pelo Skype com um chinês e, nesse show, combinamos o tempo de quinze minutos. Ele me pediu para começar o show sem roupas e colocar peça por peça. Até aí tudo bem, não é? Mas ele deixou o microfone ligado e, com o passar do tempo, percebi que ele estava chorando. Perguntei o porquê e ele me disse que eu parecia muito com a esposa dele, que havia morrido há dois meses. Desliguei a câmera e decidi que não faria mais shows pelo Skype.

Existe um modus operandi que você segue toda noite?

Tirar a camiseta, o sutiã e a calcinha. Se eu tiver batido a meta do dia, penso em algum show especial. Oil show (show de óleo, em tradução livre que não precisa ser explicada), beautiful agony, algo assim.

Beautiful agony?

Só o rosto da modelo aparece enquanto ela se masturba. Eu não sou explícita, a não ser em shows privados (a modelo e um usuário) ou grupos (a modelo e um grupo de pessoas numa sala fechada).

TENHA ETIQUETA

Gween Black ensina os leitores que desejam se aventurar nos sites de camming a se comportarem bem nas salas:

1 – Gramática é muito importante. As modelos não são burras – conheço uma com pós-doutorado em Física! Sem uma boa escrita é impossível saber o que o usuário quer dizer.

2 – Não peça coisas de graça. “Levanta, vira, pula.” Não. Você não vai pedir nada. A modelo faz o que quiser – a sala é dela, as regras são dela. Você só pode pedir se estiver pagando – e se ela concordar.

3 –Falar que isso não é um trabalho digno é completamente equivocado. Isso é entretenimento.

4 – Se você deu uma gorjeta muito grande para a modelo, não pode pedir nada além do combinado em troca. O maior medo de uma modelo é receber uma gorjeta grande e o cara tratá-la como se estivesse em um show particular. Você não manda em ninguém porque deu mais dinheiro.

5 – Se você estiver gostando da conversa com a modelo, se está feliz com o que está sentindo, dê uma gorjeta – pequena ou grande, não importa.

6 – Não seja grosso com as pessoas – especialmente com os outros usuários da sala. Seja legal com todo mundo. Se o seu dia foi ruim, o problema é seu. Estamos lá procurando diversão.

7 – Não é porque você está dando gorjetas sozinho que pode pedir para os outros fazerem o mesmo. Não seja o animador de torcida da sala. Não seja ansioso. Você não controla nada no show: quem faz isso é a modelo.

8 – Nunca compare cam models. Cada uma tem seu estilo. Se uma usa três vibradores de uma vez só, é escolha dela. Se a outra não tira a roupa, também.

9 – Nunca julgue um fetiche. Essa é uma regra de etiqueta gigantesca no mundo de camming. Se alguém tem fetiche por pés, por exemplo, não faça piada com isso.

10 – Nunca use emoticons demais – é chato demais e trava o computador de quem tem máquinas mais antigas. Não estamos mais no MSN.

11 – Quando você está numa sala privada com uma modelo, tenha uma certa quantia de dinheiro. Digamos que a modelo esteja demorando para gozar. Nunca, nunca peça para ela gozar mais rápido porque o dinheiro está acabando. Aí que ela não goza mesmo. Se você quer um show privado, tenha grana pra isso.

LEIA MAIS:

- Gostamos de sexo igual a todo mundo

- Como saber se uma mulher quer fazer sexo com você

- O que todo homem precisa saber antes de fazer sexo com uma mulher