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25/05/2015 17:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Dia da África: Por que é importante que o Brasil se aproxime ainda mais do continente

alvez/Flickr

Nesta segunda-feira (25), é comemorado o Dia da África. A data celebra a assinatura de contratos que "clamavam pela emancipação africana por parte da OUA (Organização da Unidade Africana, que desde 2002 se chama UA, União Africana)".

Apesar dos fortes laços e semelhanças culturais que temos com o continente, no âmbito das relações internacionais, a proximidade com a África poderia ser maior, segundo especialistas da área ouvidos pelo Brasil Post.

"Na última década houve sim uma aproximação muito grande com os países do continente, mas ainda há muito trabalho a ser feito", aponta a professora de Política e Relações Internacionais na Fespsp, Suhayla Khalil.

De acordo com o Itamaraty, a África é uma área de "permanente interesse estratégico" na política externa Brasileira.

Das atuais 37 embaixadas brasileiras na África, 19 foram abertas ou reativadas nos últimos dez anos. O Brasil já é um dos cinco países não africanos com maior número de Embaixadas na África, após EUA (49), China (48), França (46) e Rússia (38). Dentre os próprios países africanos, apenas África do Sul (44), Egito (43) e Nigéria (40) mantêm mais embaixadas no continente do que o Brasil.

Para Suhayla, essa intensificação nas relações com o continente, que ganhou fôlego no começo dos anos 2000, colocou a África em outro patamar no âmbito das relações internacionais.

No entanto, essa aproximação vem se desacelerando nos últimos anos. Para o professor Sidney Leite, professor de Relações Internacionais e pró-reitor acadêmico do Centro Universitário Belas Artes, esse afastamento, ainda que sutil, pode colocar anos de trabalho no lixo.

"Construir essa influência é um processo de médio e longo prazo, que envolve o desenvolvimento de políticas e também ações efetivas. Agora, reverter o sinal, deixar de ser influente, é muito rápido", alerta.

Tanto Suhayla quanto Leite apontam para uma desaceleração nas relações com a África - que foram prioridade nos dois mandatos de Lula, de 2002 a 2010 - a partir do governo Dilma.

Nos oito anos de mandato, Lula foi 34 vezes ao continente. De acordo com o Estado de S. Paulo, desde Figueiredo, que foi o primeiro presidente a viajar para o continente até Fernando Henrique Cardoso, foram 15 viagens.

"Eu defendo o ponto de vista de que a política externa deve ser feita em um conjunto de metas entre governo e estado, para criar maior estabilidade. Quando o Lula redesenhou a estratégia de política externa junto com o Celso Amorim, me pareceu uma decisão correta. No governo Dilma, houve uma desaceleração dessas políticas, que eu não vejo como uma decisão deliberada, mas um erro de definição de quais são os objetivos da nossa política externa. Novamente temo que possamos estar cometendo o mesmo erro de pensar que a África não representa oportunidades", afirma Leite.

E quais são as oportunidades que a África representa?

Suhayla afirma que, em conversas com líderes africanos, identifica uma forte demanda e expectativa em relação ao Brasil por meio da cooperação humanitária. "Alguns programas sociais como o Bolsa Família e o Fome Zero são muito desejados pelos países africanos, que ainda precisam aliar o combate à desigualdade social com o crescimento econômico."

De acordo com o Itamaraty, o processo de desenvolvimento brasileiro é "potencial fonte de inspiração" para nações africanas.

Há também forte potencial econômico a ser explorado no continente. Entre 2002 e 2013, o comércio entre nosso país e a África subiu de US$ 5 bilhões para US$ 28,5 bilhões, um aumento de 400%.

Atualmente, os maiores parceiros comerciais do Brasil na África são Nigéria, Argélia, Egito, África do Sul, Marrocos e Angola, segundo o Itamaraty.

Para Leite, no entanto, o espaço brasileiro na balança comercial de países africanos pode ser ainda mais significativo caso haja um maior esforço governamental para atingir mercados como a Nigéria, a África do Sul e o Egito, países que crescem em uma base pequena, mas em percentuais satisfatórios.

"Se o Brasil está perdendo espaço dentro da agenda africana, é por conta de vontade política do governo brasileiro", endossa Suhayla, que aponta para uma multiplicação de atores nos processos internacionais.

"Se o governo efetivamente não participa, participam outros setores. A gente tem uma atuação de setores brasileiros que de uma certa forma independem da atuação do governo, e que incentivam a aproximação com o continente africano".