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15/05/2015 08:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Apologia ao estupro de estudantes da Faculdade de Medicina da PUC de Sorocaba causa revolta e gera repúdio nas redes sociais

Montagem/Reprodução Facebook

Um grupo de WhatsApp se tornou a ‘praça pública’ para estudantes da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Sorocaba, no interior de São Paulo, fazerem apologia ao estupro. As mensagens vazaram em uma comunidade do Facebook e geraram repúdio de coletivos e do próprio centro acadêmico da instituição.

Os alunos envolvidos integram a turma LXIV da PUC de Sorocaba. O grupo só conta com homens e leva o nome de 'Jantar dos Padrinhos', em alusão à festa de mesmo nome feita entre veteranos e calouras da faculdade.

“Amarra essas puta e estupra... Vamo por um espaldar com correntes e uns chicotes (sic)”, escreveu um dos alunos, o qual, segundo postagens na mesma rede social, teria a intenção de ser ginecologista e obstetra. “Se elas querem se fantasiar de putas, deixa eu. Somos bonzinhos (sic)”, comentou outro mais adiante.

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Mensagem compartilhada entre alunos da PUC de Sorocaba (Reprodução/Facebook)

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Mensagem compartilhada entre alunos da PUC de Sorocaba (Reprodução/Facebook)

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Mensagem compartilhada entre alunos da PUC de Sorocaba (Reprodução/Facebook)

O tom entre os estudantes no WhatsApp é de brincadeira com um tema bastante delicado no Brasil, mas não difere muito das condutas já apuradas durante a CPI dos Trotes, concluída em março deste ano na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Aliás, a PUC de Sorocaba aparece no relatório final como uma das denunciadas por alguns dos trotes mais violentos registrados no Estado.

O coletivo feminista Não me Kahlo divulgou nota em que repudia as declarações machistas dos estudantes. Em nota, o coletivo afirmou que "a piada envolvendo estupro, como mecanismo de perpetuação dessa cultura, não é aceitável" e que ela “diminui e menospreza o sofrimento da mulher, tornando-a ainda mais vulnerável”.

“Não podemos nos omitir e tratar essa manifestação do machismo como uma brincadeira inofensiva. Com isso, apoiamos toda ação feita contra os responsáveis e pedimos justiça pelo ocorrido. Toda a manifestação por parte das alunas, que se sentiram ofendidas com as declarações, é extremamente justificável”, completou o comunicado.

NOTA DE REPÚDIO ÀS DECLARAÇÕES MACHISTAS DE ALUNOS DA FACULDADE DE MEDICINA DE SOROCABA:O Coletivo Feminista Não me...

Posted by Coletivo Não me Kahlo PUC - Sorocaba on Domingo, 10 de maio de 2015


Na última segunda-feira (11), o Centro Acadêmico Vital Brazil da Faculdade de Medicina da PUC de Sorocaba também divulgou uma nota repudiando as mensagens machistas. A entidade explicou que o Jantar dos Padrinhos “é uma festa que une veteranos do segundo ano do curso com as suas respectivas ‘afilhadas’ primeiranistas”.

“O conceito de padrinho e afilhada, ao se adentrar ao curso, consiste na criação de um vinculo entre os anos para a facilitação na adaptação das ingressantes”, emendou o comunicado. A entidade estudantil comentou ainda que “todas as calouras ficaram ofendidas” com o teor das mensagens e que foi sugerida uma campanha socioeducativa para a arrecadação de alimentos.

Nota do Centro Acadêmico Vital Brazil sobre os comentários presentes na página "Comentários Irracionais" do Facebook.

Posted by C A Vital Brazil on Segunda, 11 de maio de 2015


Em nota enviada ao Brasil Post, a direção da PUC disse ter tomado conhecimento dos fatos na última quarta-feira (13) e que foi determinada uma apuração dos fatos através de uma sindicância, para que sejam “tomadas as medidas cabíveis, caso sejam necessárias”. O material disponibilizado no WhatsApp foi anexado a uma investigação já em curso, acerca dos trotes denunciado na CPI da Alesp.

Leia a íntegra do comunicado da PUC:

“Na manhã desta quarta-feira (13), a direção da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde (FCMS) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) tomou conhecimento de mensagens trocadas em um aplicativo de celular sobre a festa ‘Jantar dos Padrinhos’, com o tema ‘50 Tons de Cinza’. Em uma das mensagens, há expressões vulgares e uma referência a estupro.

Imediatamente após tomar ciência do fato, a direção da FCMS determinou sua apuração e o levará ao conhecimento de outras instâncias da Universidade, competentes a adotar medidas cabíveis, caso sejam necessárias.

A Reitoria já determinou que todo o material divulgado sobre a festa seja anexado à Comissão Sindicante já em curso na Universidade para apurar casos de violência relatados na CPI Violações dos Direitos Humanos nas Faculdades Paulistas, da Assembleia Legislativa de São Paulo.

A PUC-SP reitera que tem como missão educativa a formação de cidadãos que atuam com ética e respeito à dignidade humana, nas esferas profissional, pessoal e pública. Nesse sentido, a Universidade enfatiza, novamente, o absoluto repúdio a todo ato de violência, preconceito ou submissão.

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